A frase “foram feitos um para o outro”, apesar do palato duvidoso, se aplica muito no parelha Salvador e Gala Dalí. Se ele foi o rabino do surrealismo na pintura graças aos seus quadros oníricos, com objetos deformados, metamorfoseados e repletos de seus próprios símbolos, ela foi sua musa e conselheira, colocando em movimento a máquina por trás de seu sucesso midiático, natividade de sua riqueza.
“Ela o ajudou a deslindar seu talento, que em muitos aspectos expressava sua própria visão. Gala era dez anos mais velha que ele e olhava com fascínio para a juventude e a carência dele”, escreve Michèle Gerber Klein no livro “Surreal: The Extraordinary Life of Gala Dalí”, biografia recém-lançada no Estados Unidos pela editora Harper.
O parelha mais rico e famoso da arte continua presente no imaginário artístico brasiliano, tanto nas livrarias porquê no teatro. A editora Antofágica lançou uma versão de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, com duas preciosidades —uma tradução assinada por Rodrigo Tadeu Gonçalves que mais se aproxima da métrica dos versos originais, e um vasqueiro conjunto de dez ilustrações pintadas por Dalí em 1975, principalmente para uma edição da peça lançada pela editora italiana Rizzoli e Rizzoli, base para o volume brasiliano.
Já os palcos recebem o solilóquio “Gala Dalí”, escrito e interpretado por Mara Roble sobre a mulher assim descrita pela biógrafa Gerber Klein: “Ela interpretou esposa, tigresa, amante e mãe, influenciadora de voga e protótipo, gerente da realeza e sátira de arte do mundo da arte, negociadora implacável, anfitriã acolhedora, cobradora de contas, enfermeira e sempre a peça meão e mística recorrente na obra do marido.”
A genialidade do pintor catalão, morto em 1989, estava em explorar o mundo em que vivia, criando um personagem pouco convencional e provocador. E, apesar de seguir tardiamente o manifesto surrealista divulgado por André Breton em 1924, ele se tornou um de seus maiores expoentes. Também se conectou claramente com a cultura de tamanho, desenvolvendo trabalhos para meios diversos, do cinema a companhias aéreas.
“Dalí era um grande repórter e lia muito. Ele mesmo declarou certa vez que era melhor repórter do que pintor”, comenta a filóloga e escritora espanhola Montse Aguer, diretora da Instalação Gala-Salvador Dalí.
Uma vez que ilustrador literário, trabalhou com as obras “Dom Quixote”, em 1946, “Os Ensaios”, de Michel Montaigne, no ano seguinte, e “Alice no País das Maravilhas”, em 1969. Mas, para a edição de “Romeu e Julieta”, que teve somente 999 exemplares impressos em 1975, Dalí revelou um olhar mais estranho e terrível ao escolher cores escuras e sombrias, com uma paleta monocromática de verdes e marrons que contribui para a atmosfera melancólica da história do paixão impossível entre os dois jovens.
A forma porquê alterna luz e sombra intensifica a profundidade da cena e ainda ressalta a qualidade onírica. Uma vez que surrealista, ele procura desvendar a imaginação, incentivando o testemunha a interpretar os símbolos e os temas presentes nesta enigmática homenagem a um dos textos mais famosos da literatura.
Na dez de 1970, o artista, apesar de suportar sintomas semelhantes aos do Parkinson, ainda era incentivado a pintar pela mulher, Gala Dalí. A relação antes tão intensa —”não há Dalí sem Gala”, disse ele certa vez— já caminhava para um término inglório, que aconteceu com a morte de Gala, depois de não resistir aos problemas de saúde provocados por uma queda em uma banheira.
“Foi uma mulher fascinante e enigmática”, diz a atriz Mara Roble, que em junho estreou o solo “Gala Dalí”, no seu espaço, o Mi Teatro, localizado detrás do restaurante espanhol do qual é proprietária, El Mercado Iberico, na região da avenida Paulista.
O projeto nasceu quando Roble pretendia fazer uma conexão entre Brasil e Espanha por meio de Salvador Dalí. “Ao estudar a obra dele, conheci Gala. Sabia da sua existência, mas não da sua prestígio”, conta a atriz, também autora do texto. “Ela era uma artista, uma poeta, mas, entre o término do século 19 e início do 20, a mulher era totalmente abafada pela figura masculina.”
Em cena, ela revive, de forma não cronológica, momentos marcantes da vida de Gala desde a puerícia até os últimos dias. A juventude na Rússia —ela nasceu porquê Elena Ivanovna Diakonova—; o primeiro himeneu, com o repórter Paul Éluard —eles se conheceram em um sanatório suíço em 1912—; a inadequação à maternidade —Cécile foi criada principalmente por parentes—; o primeiro encontro com Salvador Dalí em 1929; a luta para se impor em um universo subjugado pelos homens; a repudiação por segmento das famílias dos seus maridos; e o manente julgamento social.
“Ela perturbava os homens com suas atitudes independentes”, afirma Ulysses Cruz, que assina a direção artística com a assistência de Nicolas Ahnert. “Foi logo que assumiu a tarefa de impulsionar a curso de Dali e a transformá-lo em um dos artistas mais icônicos do século 20.”
Ao ortografar o solilóquio, Roble buscou a síntese para compreender uma figura tão complexa. E criou frases que definem com sublimidade a personalidade astuta e firme de Gala, porquê “não acredito na morte, acredito no numerário” ou “quero ser enterrada nua –minhas roupas caras não merecem ser devoradas por vermes”.
A peça foi viabilizada, aliás, depois de uma casualidade, quando Roble comentou sobre sua intenção de ortografar sobre Gala com uma freguesa do restaurante durante um almoço. Impressionada com o projeto, Mariluz Gomez Gomez, da Ocean Light, decidiu investir R$ 300 milénio na produção.
E, durante a temporada, ingressos mais caros darão recta a um jantar com pratos extravagantes criados por Gala, porquê camarão no lugar de escargot. “Dizem que ela cozinhava muito muito, ocasião em que contava suas histórias eletrizantes”, afirma Cruz.
Curiosamente, Roble vai adotar uma mandamento criada pelo ex-marido, Antonio Fagundes, que ainda aplica em seus espetáculos —o solilóquio começa rigorosamente no horário marcado e não será permitida a ingressão em seguida o início, não havendo restituição do valor do ingresso, nem a troca para outro dia ou outra sessão.
