Peça encena júri feminino para refletir sobre maternidade 29/03/2026

Peça encena júri feminino para refletir sobre maternidade – 29/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Doze mulheres estão reunidas em um tribunal para resolver se Sally Poppy deve morrer. Sentada no banco dos réus, ela é acusada de ajudar o amante a matar a moça de quem era babá. A Justiça, porém, já determinou a culpa de antemão. O que as juradas devem resolver é se a jovem está ou não esperando um rebento —um veredito zero trivial.

Se estiver prenha, Sally será condenada à prisão perpétua. Se não, ela subirá ao forca para ser enforcada diante de uma povaréu raivosa. Na Inglaterrade 1759, por fim, a vida de uma mulher era determinada por aquilo que ela carregava em seu ventre.

Esse julgamento rumoroso é o fio condutor de “O Firmamento Fora Daquela Janela”, peça em papeleta no Sesc Vila Mariana, na capital paulista. Produzido pela companhia teatral Bendita Trupe, o espetáculo adapta para os palcos do Brasil “The Welkin”, escrito pela premiada dramaturga britânica Lucy Kirkwood. A produção estreou com ostentação há seis anos no londrino National Theatre.

Seguiu depois para países porquê França, Canadá e Estados Unidos. Em todos esses lugares, a montagem gerou burburinho e acumulou elogios. O jornal britânico The Guardian definiu a peça porquê um drama magnífico. O americano The New York Times, por sua vez, classificou a montagem porquê um trabalho sombrio, mas espirituoso, que reinterpreta o gênero dos dramas judiciais.

A peça tem porquê inspiração o filme “Doze Homens e Uma Sentença”, de 1957. O longa se tornou um clássico ao retratar jurados que precisam resolver se um juvenil matou o seu próprio pai.

O espetáculo, no entanto, expande a premissa ao unir elementos porquê ironia, comédia e suspense. “É uma ode ao teatro e às mulheres”, diz Johana Albuquerque, diretora da montagem paulistana. “Ela é uma reflexão sobre questões contemporâneas muito relevantes, porquê quem pode julgar e prescrever o direcção do corpo feminino.”

Kirkwood também traz subversões ao texto. No lugar de homens, ela quis que o veredito ficasse a função das mulheres. “Com isso, elas ganham uma novidade instância, já que podem praticar a própria voz. São pessoas que passam a se sentir capazes do ponto de vista social e político, o que faz surdir diferentes embates.”

Mais do que um julgamento, o que se vê é um campo de guerra. Nessa estádio, não está em disputa unicamente a definição sobre a gravidez de Sally Poppy, mas também diferentes formas de ser mulher na sociedade. Há desde juradas conservadoras até aquelas de perfil mais progressista.

“A personagem só se mostra quando está sob pressão e elas estão extremamente pressionadas”, diz Albuquerque. “Do ponto de vista dramatúrgico, é nesse momento que revelam o seu melhor —não a sua melhor versão, mas aquilo que é melhor para o teatro.”

Algumas das juradas, inclusive, passam longe da empatia e da benignidade. É o caso de Ema Taylor, vivida por Fernanda D’Umbra. Além de porejar preconceitos contra pobres, a negociante é implacável com Sally. A jurada considera que a jovem inventou a gravidez para evadir da forca.

Há ainda personagens que gostariam de abadonar o júri para voltar às atividades cotidianas. Uma delas, vivida por Cris Rocha, repete à exaustão que precisa ir para vivenda e colher o alho-poró de seu quintal.

Segundo a diretora, a personagem espelha uma questão muito contemporânea. “Nós estamos nos omitindo. Por mais que exista a lacração nas redes sociais, no mundo real as pessoas estão com pouca vontade de resolver. Por isso, deixam essas decisões nas mãos dos outros”, diz ela, acrescentando que as mulheres da peça não escolheram participar do julgamento.

“Elas foram colocadas nesse lugar e o tempo todo se sentem pressionadas e oprimidas pelo traje de terem que resolver.”

Ainda que o veredito esteja nas mãos delas, a influência masculina está sempre à espreita. Isso se faz sentir pela presença de um solene de Justiça que vigia o trabalho. “Além desse lugar de embate, o júri também é um laboratório onde homens observam as mulheres e determinam porquê as coisas devem sobrevir”, diz a diretora.

A atmosfera laboratorial do julgamento, inclusive, é insinuada pela cenografia. Detrás da mesa em que as mulheres deliberam, há estantes com vasos de vidro que lembram vagamente frascos usados em laboratórios.

A própria Sally tem seu corpo estimado porquê se fosse a cobaia de um experimento médico. Num dos momentos de maior tensão do espetáculo, as mulheres se posicionam em torno da jovem para determinar se de sairá leite do seu peito.

O clima de inquietação não é sem motivo. A gravidez, por fim, representa para a ré a diferença entre a salvação e a pena —uma metáfora para o papel simbólico da maternidade. Durante séculos, mulheres que não podiam ou não queriam ter filhos eram consideradas desnaturadas e enfrentavam uma espécie de morte social.

Apesar de avanços promovidos pela luta feminista, a prenhez ainda é permeada por expectativas e imposições. “A história se passa em 1759, mas é muito contemporânea”, diz Aysha Promanação, que dá vida à Sally. “Quando somos mães, a gente é posta nesse lugar de santa, ou seja, alguém que não pode errar ou ter defeitos.”

A personagem dela, porém, rejeita o papel de boa moça. Em vez do recato e da amabilidade, Sally exibe uma postura rebelde e insubmissa. A jovem recusa a fidelidade matrimonial ao ser gostar pelo varão com quem cometerá o infanticídio.

De forma semelhante, ela não se curva à turba raivosa reunida no lado de fora do tribunal. Em diversos momentos, até mesmo destrata as juradas de quem depende para continuar viva. “Sally é uma jovem cansada de ser subjugada. Por isso, está nesse momento de romper com tudo.”

Quem também não se curva é Elizabeth Luke, parteira vivida por Nilcéia Vicente. A personagem desempenha papel fundamental no julgamento por ser a única voz em resguardo de Sally, com quem compartilha o espírito rebelde e libertário.

“Elas se dão ao prazer de fazer escolhas tendo em mente a própria satisfação pessoal, coisa que as outras mulheres não fazem”, afirma Promanação. “As duas são contrapontos extremamente necessários naquela sociedade.”

De consonância com a atriz, a peça é importante justamente por apresentar uma novidade perspectiva sobre temas porquê maternidade e autonomia feminina. “O espetáculo mostra que mulheres têm dores, desejos e cansaços. Às vezes, elas não vão sentir satisfação ou completude ao olhar para os filhos”, diz a artista. “Mesmo quando decide gestar, uma mulher é muito mais do que uma mãe.”

Folha

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