Robson Torinni coleciona histórias inusitadas desde 2022, quando estreou o solo “Tráfico”, em que interpreta um garoto de programa e matador de aluguel. Algumas delas aconteceram em cena ensejo, provocadas pela interação do ator com o público no início do espetáculo, momento em que ele aceita carícias em seu corpo musculoso.
O responsável pela provocação é o personagem, mas há quem acredite ser o artista. Prova disso é que Torinni já recebeu propostas para encontros amorosos —pagos, inclusive—, porquê resultado de sua submersão na história de Alex, o jovem charmoso e trágico criado pelo dramaturgo uruguaio Sergio Blanco.
“Tráfico”, espetáculo dirigido por Victor Garcia Peralta, fez várias temporadas de lar enxurrada no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, antes de estrear no Teatro Estúdio, no núcleo de São Paulo, no prelúdios do mês.
“Achávamos que a peça iria insistir dois meses e ultimar, porque é um texto muito duro, sequioso, difícil de ser ouvido”, diz o ator. O solo foi pensado para um pausa entre as apresentações de “Tebas Land”, outra dramaturgia de Blanco estrelada por Torinni, além de Otto Jr., e dirigida por Peralta.
Neste segundo encontro do trio, o jovem morador de um bairro periférico de uma grande cidade latino-americana lida com a violência e com o desabrigo e, ao mesmo tempo, almeja a mudança de status social, simbolizada por uma moto de luxo pilotada com virilidade. Na trama, ele divide as atenções amorosas entre uma namorada e um professor universitário —personagem que parece justificar a opção do responsável pela autoficção.
O texto tem trechos de violência explícita ao abordar a rotina de matanças de Alex, cooptado por uma organização criminosa semelhante às milícias.
Em um conspiração cênico, a direção criou pequenas intervenções para evidenciar que ali, no núcleo do palco, há um ator contando uma história —Torinni recebe o público, anuncia os atos e faz menções à dramaturgia, em uma estratégia para desapoquentar a tensão.
Ele foi convidado pelo próprio Blanco para o projeto, quando o dramaturgo esteve no Brasil para observar a um experiência de “Tebas Land”. O texto o conquistou, mas o processo da montagem não foi fácil. Torinni pensou em desistir, levou bronca do diretor prateado, superou o que labareda de “pitis de ator” e, por termo, levou a história adiante.
A geração incluiu pesquisas sobre as trajetórias de garotos em situações vulneráveis e sobre crimes nas grandes cidades. Teve também preparação física para ressaltar os músculos e procura de informações sobre o comportamento de quem consome cocaína, porquê Alex.
A fala rápida, o corpo ansioso e a sensualidade violenta são alguns dos resultados do trabalho. Nas temporadas no Rio, o ator chegou a ir para o hospital depois de algumas apresentações para ser medicado. Sentia dores e exaustão.
Nas plateias, tem quem não aguente permanecer até o termo do espetáculo. Em uma cena que envolve crianças, por exemplo, uma espectadora deixou o teatro e esperou o marido do lado de fora. Depois, pediu desculpa e contou que tem filhos pequenos, por isso não conseguiu digerir o que acontece em uma das cenas.
“Sentimo-nos, no final, que as pessoas estão quebradas. É uma viagem a um buraco muito grande, uma história difícil de ser contada”, diz Torinni. “Ao ler sobre organizações criminosas no mundo, comecei a me dar conta de que não tem mais volta. Quando você se dá conta da verdade, isso amedronta.”
No Rio, em conversas com jovens criminosos que fizeram secção de seus estudos, ele ouviu sobre o libido de comprar tênis, bonés e celulares caros porquê uma ponte para a privilegiada zona sul carioca. Ter os produtos seria uma tentativa de superar as desigualdades. Na peça, a moto luxuosa faz esse papel na vida do personagem.
Peralta considera uma vitória constatar que o público torce por uma resgate de Alex, apesar de sentir horror à violência que ele protagoniza. “As pessoas não querem que ele morra”, afirma.
“A partir dos dois espetáculos do Blanco, sinto que fiquei mais empático do que era. Olho mais para as pessoas que geralmente condenamos”, continua. “A peça fala sobre pessoas sem chances na vida, que acabam tendo que seguir caminhos violentos, e da prevaricação dos poderosos. A história de Alex é a história de muitos no Brasil”.
Ator e diretor planejam trabalhar novamente juntos em duas montagens teatrais, uma delas o solilóquio “O Varão de Aço”, do prateado Juan Francisco Dasso, sobre um pai que aprende a amar o fruto autista.
Depois disso, Torinni pensa em testar outras direções e pediu indicações de nomes a Peralta, com quem criou uma potente relação de amizade. Antes disso, há o projecto de uma curso internacional para “Tráfico”, que deve ser levada levante ano aos festivais de Avignon, na França, e Edimburgo, na Escócia.
