Pista de dança volta ao pop elegante e com música erudita – 29/10/2026 – Ilustrada
Madonna convoca um dança de corpos suados na melodia “Danceteria”, carro-chefe do álbum “Confessions II”, lançado neste ano. Nele, a cantora clama por um retorno à pista de dança depois de a introspecção e a melancolia invadirem a música pop.
Não é só Madonna quem deseja voltar a dançar. Artistas de diferentes gerações vêm recuperando a música de boate, agora com sonoridades experimentais e letras confessionais. A boate ressurge porquê espaço para libertar o corpo e sítio de expurgo emocional.
O próprio disco de Madonna narra uma noitada que começa em êxtase e termina com reflexões sobre isolamento e envelhecimento. A tira “Fragile”, por exemplo, fala de luto ao som de batidas dançantes. “Muitos pensam que música para dançar é superficial. Estão enganados. A pista é um espaço de rituais, onde movimento substitui linguagem”, ela canta em “One Step Away”.
Essa mistura de dança e experimentação marcou ainda os shows recentes de Rosalía, artista que uniu música erudita e ritmos eletrônicos no disco “Lux”, do ano pretérito. No Rio de Janeiro, há dois meses, a espanhola pôs uma orquestra para dançar, com instrumentistas rompendo o decoro tradicional da música sinfônica. A maestra chegou até a rebolar enquanto regia.
Harry Styles também se rendeu a essa novidade teoria de balada. Em São Paulo, há três meses, o britânico bailou sem recorrer às coreografias tradicionais de shows de música pop. Ele defendeu que os fãs ali presentes se movimentassem sem amarras a passos ensaiados.
Trespassar para boates ajudou Styles a se reconectar com a arte, ele vem dizendo. Suas canções novas dialogam com a música eletrônica e com o dance-punk da cena escolha. Há faixas que combinam percussão marcada e vocais falados, numa sonoridade que pode toar estranha nos fones de ouvido, mas que fica contagiante no palco.
A cultura da noite ganhou novos significados diante das relações modernas entre corpo e mente, segundo Thiago Soares, pesquisador de música e cultura pop da Universidade Federalista de Pernambuco, no Recife, e responsável do livro “Divas Pop”, lançado há cinco anos.
Segundo ele, Madonna agora usa a dança na intenção de transbordar questões ligadas ao envelhecimento, enquanto Styles aproxima o dança da cultura “wellness”, associada ao bem-estar e aos exercícios físicos. O cantor britânico se tornou um galeria de maratonas no ano pretérito.
“O Harry Styles cria uma pista que rivaliza com a antiga cultura da boate da madrugada, das drogas”, diz Soares. “Se a pessoa acorda cedo para decorrer, provavelmente não vai à balada à noite. Essa ruptura é interessante.”
O disco recente de Madonna, “Confessions II”, dá sequência a um dos mais conhecidos dela, o “Confessions on a Dance Floor”, de 2005. À estação, a artista cantava sobre libertação e sarau, sem o tom dramático da obra atual.
Nos anos 2000 e 2010, a música dance ocupou o núcleo do pop com canções que privilegiavam o libido e a celebração do corpo. Britney Spears, Rihanna e Lady Gaga também cantavam sobre sentimentos, mas quase sempre o faziam a partir de uma fórmula, com refrões pensados para ficarem ecoando na cabeça. Hoje isso não tem o mesmo peso.
Beyoncé voltou à vigor da boate com uma abordagem experimental ao lançar “Renaissance”, há quatro anos. O house e o disco, gêneros fundamentais para a história da música dançante, estão entre as referências do álbum. Esses sons foram criados em cenas marcadas pela presença de pessoas negras, latinas e LGBTQIA+ nos Estados Unidos.
Com homenagens a artistas e DJs que ajudaram a edificar as baladas, “Renaissance” reivindica o legado de grupos historicamente marginalizados. O disco ganhou o Grammy de melhor álbum de música eletrônica. “A pista serve também porquê refúgio nostálgico”, diz Soares, o pesquisador.
No Brasil, Pabllo Vittar engrossa essa retomada. Em seu disco recém-lançado “Lost in Lust”, a drag queen aposta em referências a nomes da música eletrônica escolha, porquê Cofre, venezuelana, e Sophie, britânica. As duas subverteram convenções do pop com texturas inusitadas e estruturas distorcidas. “Senhoril incrementar a boate, porquê a Rosalía fez ao trazer o erudito”, diz Pabllo.
A mistura de sinfonia e pop de Rosalía ajudou a popularizar a maestra cubana Yudania Gómez Heredia, que labareda a atenção pelas danças frenéticas nos shows.
Segundo a artista, a música pop cria, por meio do movimento, uma conexão com o público que a música sinfônica ainda não conseguiu. “Precisamos desenredar porquê fazer as pessoas se sentirem secção das apresentações de música clássica, mesmo que elas não cantem”, afirma a regente.
Essa catarse coletiva está no horizonte da roqueira Pitty, que buscou uma sonoridade dançante para o disco que leva seu próprio nome, lançado neste mês. “Fiquei nessa brisa de unir a roda de ‘pogo’ à pista de dança e ver porquê se comporta”, diz ela, em referência às rodas de bate-cabeça comuns nos shows de rock.
O australiano Troye Sivan, por sua vez, vem explorando os inferninhos porquê espaço de libido e celebração do paixão entre homens. No novo álbum “She’s the Best”, ele aposta em sintetizadores e referências ao house em vez de depender de refrões explosivos.
Há um mês, Sivan entregou um troféu a Madonna no Video Music Awards, premiação de videoclipes da MTV, escoltado da britânica Charli XCX, outra artista ligada à música eletrônica. “Encontrei minha comunidade na pista de dança. Somos todos iguais nela”, disse Madonna, na cerimônia, ao lado dos dois artistas mais jovens.
Isso é simbólico. Charli XCX foi fundamental na reformulação da música dos clubes noturnos e no retorno do gênero ao núcleo da cultura pop. Há dois anos, ela lançou o disco “Brat”, que combina batidas de rave, sintetizadores ásperos e composições sobre inseguranças.
Um dos álbuns mais comentados daquele ano, a obra fez de Charli uma artista pop, não mais escolha. Ela virou fissura para além da bolha. A cor verde-limão da cobertura do álbum viralizou nas redes, chegou às vitrines de lojas de roupa, a desfiles e propagandas de grandes marcas.
Até a democrata Kamala Harris, à estação disputando a Moradia Branca com Donald Trump, adotou a cor para sua fracassada campanha política.
Charli deu vazão a um libido de libertação que ganhou força depois da pandemia, diz Pedro Athie, produtor da Tesãozinha Inicial, sarau de música eletrônica em São Paulo. “Ela quis mostrar uma pista de dança crua, não militante porquê a da Beyoncé.”
Essa vulnerabilidade, no entanto, sempre fez secção da identidade artística de Charli XCX. Ela estreou em 2013 com “True Romance”, álbum de atmosfera sombria, e voltou a abordar impaciência e isolamento num disco lançado em 2020. No recente “Brat”, a confissão convive com a dança.
A introspecção que marcou Charli XCX ganhou força com Billie Eilish, hoje um dos principais nomes do pop. O álbum de estreia dela, sobre sofrimento e depressão, levou em 2020 os quatro principais prêmios do Grammy.
Curiosamente, a própria Eilish se aproximou das batidas da noite. Há dois anos, ela participou de “Guess”, de Charli XCX, tira eletrônica de letra sensual.
Agora, outras artistas voltam a apostar nessa estética. No mês pretérito, Miley Cyrus lançou “Bass Persuades”, em que canta sobre se inebriar em boates. “As crianças pararam de dançar”, ela lamenta num refrão frenético.
Na mesma semana, a americana Demi Lovato transformou o Rock in Rio em boate ao ar livre com um show devotado a “It’s Not that Deep”, disco de música eletrônica que sucede um de rock.
Em “Here All Night”, Lovato faz uma reverência à DJ que aumenta as batidas, o que, na letra, ajuda alguém a superar um vetusto amante. É exemplo de porquê a figura do DJ, antes associada a homens, ganhou protagonismo entre as divas pop.
A drag Pabllo Vittar, por exemplo, tem trabalhado porquê DJ em festas ao volta do mundo. Já a britânica Charli XCX viajou a São Paulo só para discotecar na boate Zig. Não cantou no evento. Foi sua última passagem pelo país, há dois anos. Ela deve retornar com um show completo no festival Lollapalooza do ano que vem.
Em abril deste ano, Charli XCX afirmou que as boates já haviam morrido, às vésperas de lançar um disco voltado à música escolha. A enunciação foi criticada por seus fãs e até por Madonna.
Fosse só uma provocação ou estratégia de divulgação, a própria Charli parece ter revisto essa sensação. No mês pretérito, ela se uniu a Madonna num remix da tira “Danceteria”. As duas vinham saindo juntas para curtir noitadas.





