Poesia no Centro debate memória e política na literatura – 17/05/2026 – Ilustrada
“A luta política está nos significados. O poeta é o primeiro a se levantar diante da ruinoso deles.” A asseveração do poeta chileno Raúl Zurita marcou a mesa de fechamento do Festival Trova no Núcleo neste sábado (16), em São Paulo.
As discussões sobre corpo, memória e linguagem atravessaram o segundo dia do evento promovido pela Megafauna no Teatro Cultura Artística, no meio da capital paulista.
A programação da tarde foi oportunidade com uma performance baseada em “Neca: Romance em bajubá”, da escritora Amara Moira.
O trabalho é resultado de uma residência artística realizada no Sesc 24 de Maio, em que um elenco voluntário mergulhou durante oito dias na obra de Moira para adaptá-la ao teatro. A direção e dramaturgia da apresentação são assinadas por Ave Terrena e Leonarda Glück.
“Neca” acompanha a travesti Simona que, ao reencontrar um vetusto paixão, revisita memórias do período em que se prostituía no Brasil e na Europa.
As histórias relatam episódios rotineiros de mulheres trans que trabalham na rua, expondo os contrastes entre suas experiências dentro e fora do Brasil.
Escrito em bajubá —também chamado pajubá, dialeto criado e esparso pela comunidade trans brasileira—, o romance também estabelece diálogo com autores e obras do cânone literário. Moira é doutora em teoria e sátira literária pela Unicamp.
“O livro é muito corporal. Pessoas trans muitas vezes são privadas de um espaço seguro para entender o próprio corpo, logo fizemos um trabalho de consciência corporal para ajudá-las a se soltarem”, afirmou Ave Terrena.
Na sequência, a mesa “Um Modo de Escavar” reuniu o poeta e tradutor Guilherme Gontijo Flores e a escritora portuguesa Tatiana Faia, com mediação de Dirceu Villa.
Pesquisadores da trova antiga, Flores e Faia discutiram porquê o repertório clássico ecoa na literatura contemporânea. “O que me interessa no clássico é porquê ele pode ser subvertido, porquê ele falta, porquê pretexto estranheza”, disse Faia.
Enquanto a autora portuguesa relacionou o interesse pelos clássicos a um libido estável de retrocesso histórica, Flores defendeu a tradução porquê uma operação do contemporâneo. “Transcrever é sempre uma ação do presente. Só estando cá, agora, eu posso olhar para trás dessa forma”, afirmou.
Na sequência, a mesa “A marcha das cordilheiras” recebeu o poeta chileno Raúl Zurita para conversa com a pesquisadora e poeta Francesca Cricelli, tradutora de sua obra para o português, e com o redactor Joca Reiners Terron.
Recluso e torturado durante o regime militar de Augusto Pinochet, Raúl Zurita se tornou um dos nomes mais importantes da cena poético-política de seu país e de toda a América Latina.
Ao comentar “Purgatorio” (1979), livro ilustrado com fotografias de cicatrizes em seu próprio corpo, Zurita afirmou que sua escrita nasceu da premência de restabelecer os significados sequestrados pela ditadura. “Dentro e fora da linguagem, lutei para restabelecer as formas e os sentidos do meu país”, disse.
O poeta também comentou a profunda relação de sua obra com a paisagem chilena. Segundo ele, sua linguagem poética nasceu da sensação estável de fragilidade provocada por terremotos e catástrofes naturais na região. “Todo paixão é urgente porque vamos morrer”, afirmou. “O grito de horror diante da morte começa na linguagem.”
Depois a conversa, Zurita leu ao público poesias de seus livros “La Vida Nueva” (1993), “Anteparaiso” (1982) e “Esquina a Su Paixão Perdido” (1985).
Em sua segunda edição, o Festival Trova no Núcleo procura ampliar o debate sobre trova contemporânea e ocupar diferentes espaços culturais da região medial paulistana. A programação começou ainda na primeira quinzena de maio, com oficinas, leituras e apresentações no Museu da Língua Portuguesa e na Livraria Mário de Andrade.
Neste domingo (17), a agenda continua no Cultura Artística com a presença de autores porquê Eileen Myles, Mar Becker, Cida Pedrosa e Ricardo Domeneck.
Há ainda o espaço Megafone, do lado de fora do teatro, que abre o microfone para performances e leituras por convidados especiais.
Depois a programação paulistana, o festival seguirá para uma itinerância por Brasília: a Livraria Platô receberá alguns dos convidados do Palco para uma série de encontros na capital do país.





