Polifônica faz 10 anos com diálogo entre livros e teatro

Polifônica faz 10 anos com diálogo entre livros e teatro – 07/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ao completar 10 anos, a Polifônica Cia. consolida-se uma vez que um dos grupos teatrais mais originais e premiados do país, destacando-se por sua capacidade de transfigurar grandes obras da literatura contemporânea em experiências cênicas inovadoras —onde vida e arte se entrelaçam de forma tão radical quanto nos textos de Roberto Bolaño, um de seus interlocutores recentes.

Fundada em 2015 pelo diretor e dramaturgo Luiz Felipe Reis e pela atriz e performer Julia Lund, a companhia construiu uma história marcada por reconhecimento artístico e crítico, com espetáculos que desafiam a linearidade narrativa, privilegiando a força da termo em diálogo com dispositivos visuais e performáticos.

O ano de 2025 encontra a Polifônica em plena atividade criativa. Enquanto prepara a estreia de “Deserto” no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 18 de julho, “Eddy — Violência & Transmutação” segue em papeleta no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Espetáculo que além de festejar a primeira dez da companhia, representa outro eixo fundamental da pesquisa da Polifônica: uma vez que o corpo registra a violência.

Com as atuações de João Côrtes, Julia Lund e Igor Fortunato, a peça baseada na obra de Édouard Louis aprofunda questões presentes em montagens anteriores, uma vez que “Paixão em Dois Atos”, de 2016, e “Tudo que Brilha no Escuro”, de 2020. Essa dupla programação revela não unicamente a vitalidade do grupo, mas sua vocação para dialogar com vozes literárias distintas.

“Deserto” chega a São Paulo já com um histórico de reconhecimento —três indicações ao prêmio APTR e uma ao prêmio Shell, refletindo a maturidade da linguagem da Polifônica. A encenação investiga Bolaño não uma vez que uma biografia linear, mas uma vez que um mosaico cênico onde jornalista e personagem se confundem. Monólogos interrompidos, projeções de texto e movimentos em slow motion compõem uma dramaturgia fragmentada, espelhando a estética do responsável chileno.

Sobre a gênese do projeto, Luiz Felipe Reis explica: “O fascínio pela obra de Bolaño começou com ‘Os Detetives Selvagens’ e se intensificou com ‘2666’. O projeto original era encenar ‘2666’, mas diante das dificuldades, reimaginei uma dramaturgia mais especulativa sobre seus últimos anos de vida, enquanto ele lidava com uma doença hepática e finalizava sua obra-prima. Me interessava essa tensão entre geração e devastação, Eros e Tânatos, que atravessa nossa trajetória e a dele.”

Renato Livera, protagonista da peça, reflete sobre o processo. “Talvez o mais importante para nós nessa montagem fosse levantar a questão do estado de trova no ser humano. Bolaño estava atravessado por camadas políticas e pessoais brutais. A arte surge uma vez que ressignificação da vida —são ‘os músculos da trova’, uma vez que ele diz, que iluminam o caminho até o limite da material humana.”

A abordagem do grupo é emblemática de sua filosofia: em vez de ajustar, cria diálogos profundos entre literatura e teatro. Em “Deserto”, cenas íntimas justapõem-se a trechos de suas obras, além de palestras fictícias abruptamente interrompidas.

A encenação radicaliza a anfibologia do responsável —ser de músculos e tinta— através de dispositivos que questionam a autoria: seja nos closes iluminados que isolam gestos mínimos do ator, seja no uso de câmeras que registram e projetam a ação em tempo real. Quando palavras projetadas num telão contradizem o exposição do ator, ou quando Renato Livera interage com sua própria imagem filmada ao vivo, o espetáculo nos lembra que o “Bolaño” em cena é sempre uma construção.

Essa linguagem visual dialoga intensamente com o cinema, recursos técnicos que ecoam a preocupação bolañiana por dispositivos de registro uma vez que testemunhas precárias contra o esquecimento. A cena em que o personagem grava uma mensagem para o fruto é paradigmática: o vídeo funciona uma vez que invólucro do tempo de um pai que sabe não verá seu fruto crescer.

“A variedade da linguagem em ‘Deserto’ vem dessa pluralidade de ferramentas —audiovisual, sons, luz. É um campo vasto de notícia, com protestos, cartas, ensaios. Esses universos que atravessavam Bolaño são secção da peça.”, diz Livera. E o diretor detalha: “Desde 2015, pesquiso Polifonia Cênica e Contra-cenas ao Antropoceno. Em ‘Deserto’, articulamos teatro, literatura, vídeo e som para questionar o lugar da arte num mundo neoliberal.”

“Para além do trabalho com o corpo, com o texto e a com a atuação, portanto, buscamos potencializar a dimensão visual e sonora do evento teatral, um tanto que marca a experimentação teatral contemporânea, mas que também constitui o teatro clássico, heleno, concebido justamente uma vez que somatória do “espaço da visão”, o theatron, e do “espaço da audição”, auditorium.

Sobre a colaboração com Livera, Reis destaca, “precisávamos de um ator-performer com força específica, um tanto entre Bolaño e os personagens de ‘Os Detetives Selvagens’. O Renato trouxe não só atuação, mas contribuições para a dramaturgia. Trabalhamos na fricção entre texto e corpo, sem buscar mimetismo.”

O ator acrescenta: “Com Luiz, havia um espaço seguro para vagar no ruína da incerteza. Essa co-criação entre tradutor e diretor foi vital. ‘Deserto’ tornou-se um projeto que dialoga com minha premência artística de refletir sobre a América Latina. Acho que se fosse somente para decorar um texto e interpretar, talvez não me interessasse muito.”

“O que resulta [dessa co-criação] é um Bolaño indissociável do performer e da pessoa Renato Livera. O corpo do Renato, sua personalidade, suas memórias, tudo é atravessado pelas palavras do Bolaño e resultam numa terceira coisa, que não é nem só Bolaño e nem só Renato, mas o resultado dessa transfusão”, conclui o dramaturgo.

Em meio às duas encenações, a Polifônica já prepara “Banzeiro”, adaptação do livro de Eliane Brum prevista para 2026. “Não queremos unicamente ajustar textos, mas gerar um espaço onde a termo escrita e a linguagem teatral se encontrem em pé de paridade”, conclui Reis.

Entre prêmios e uma programação que não para de crescer, a Polifônica celebra sua primeira dez de existência uma vez que um coletivo que prospera no cenário cultural brasiliano. Seja através de Bolaño, Louis ou Brum, o grupo mantém viva uma pergunta necessário: uma vez que transformar grandes narrativas em experiências cênicas que falem diretamente ao nosso tempo?

A resposta está na coragem de testar —e na ousadia de, uma vez que em “Deserto”, grafar entre o biográfico e o ficcional, e na crença de que o teatro ainda é um espaço privilegiado para refletir sobre quem somos.

Folha

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