Por que a literatura brasileira não deslancha no exterior?

Por que a literatura brasileira não deslancha no exterior? – 30/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Se o cinema brasílico está desse tamanho lá fora e não tem um táxi que você entre e não toque música brasileira, por que a literatura tem essa dificuldade de se projetar?”

A questão é muito resumida por Gustavo Faraon, editor da Dublinense que há anos vai a feiras internacionais comprar e vender direitos de publicar livros. É evidente que o consumo e a circulação desses produtos culturais são muito diferentes, mas a incerteza é pertinente.

Será que um mundo que acaba de desabar de amores por Fernanda Torres e “O Agente Secreto” pode deslindar também a produção literária do Brasil? O que falta para que esse potencial se cumpra de vez, em seguida lampejos de sucesso bastante distintos porquê Jorge Querido, Clarice Lispector e Paulo Coelho?

Fatores porquê o desinteresse crônico de países hegemônicos pela literatura em português e um histórico vetusto de falta de estrutura para promover sua exportação ajudam a explicar a dificuldade.

Segundo a pesquisa de doutorado da professora Heloisa Gonçalves Barbosa, 164 livros brasileiros de 80 autores foram traduzidos ao inglês de 1886 até 1994. Segundo ela, o número pode parecer cima, mas representa só uma obra e meia por ano, em média.

Agente literária das mais experientes do país, Lucia Riff lembra que, na dezena de 1990, a demanda no exterior por literatura traduzida era muito mais escassa, temperada de descaso. “Naquela quadra, você dizia que era do Brasil e as pessoas não sabiam onde era”, diz. “Aquilo de confundir com Buenos Aires não era piada.”

Em 1991, se estabeleceu o Programa de Espeque à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros, de orçamento dividido hoje entre a Instalação Livraria Pátrio, ligada ao Ministério da Cultura, e o Instituto Guimarães Rosa, braço do Ministério das Relações Exteriores. Com orçamento de R$ 2 milhões, é até hoje o principal fundo a que editoras estrangeiras podem recorrer.

Foi ali que se firmou uma era mais profissional da exportação da literatura brasileira, com protagonistas porquê Riff, que abriu sua escritório ao lado da lendária espanhola Carmen Balcells, e Luiz Schwarcz, que fundou a Companhia das Letras já pensando em uma separação interna de vendas de direitos, alguma coisa incomum para o mercado da quadra.

“Esse trabalho voltado para fora do Brasil até hoje depende de alguns agentes habituados a oferecer nossa literatura com credibilidade. Ainda não tem uma rede muito estabelecida”, diz Marianna Teixeira Soares, dona da MTS Filial, também de atuação relevante. “Quem faz isso, além de pouquíssimos agentes literários, são editoras com tradição de estarem nas feiras internacionais.”

O projeto Brazilian Publishers, parceria da Câmara Brasileira do Livro com a Filial Brasileira de Promoção de Exportações, a Apex, abre oportunidades frequentes para levar editores brasileiros a esses grandes eventos comerciais. No ano pretérito, deu escora a 131 participações em feiras fora do Brasil, a maior delas em Frankfurt, com a salvaguarda de que não mesa passagens aéreas ou hospedagens.

Para se candidatar, é preciso estar em dia com a mensalidade de R$ 500 do Brazilian Publishers, e são selecionadas as primeiras editoras que se inscrevem. A diretora da CBL, Sevani Matos, diz que é uma medida de democratização, permitindo que editoras pequenas e médias possam ocupar esses espaços.

Muitos profissionais vão de forma independente fazer seus negócios por lá. Cinco editores de casas relevantes, com quem a reportagem falou em suplente, disseram não se candidatar à Brazilian Publishers por não se identificarem com a representação da literatura brasileira feita naquele estande solene. Preferem seguir autônomos.

Um dos maiores gargalos do negócio é a tradução. O edital da Livraria Pátrio oferece a editoras estrangeiras um subvenção de até US$ 6.000 para trasladar livros inéditos e até US$ 3.000 para reedições. O programa também apoia a publicação de livros em outros países de língua portuguesa.

O concurso é anual e 133 projetos foram aprovados em 2025, incluindo oito publicações estrangeiras de Machado de Assis, traduções de Conceição Evaristo na Grécia, no México e no Reino Unificado e uma versão iraniana de Carla Madeira.

Diretor do Instituto Guimarães Rosa, o legado Marco Antonio Nakata não disfarça o orgulho da bolsa, que já apoiou a tradução de 1.595 obras brasileiras em 51 idiomas desde 1991, média de 47 projetos por ano.

A verificação com países de outras tradições ajuda a matizar o número. O programa de tradução do Instituto Goethe, na Alemanha, afirma ter bem 7.000 projetos em 50 anos, média anual de 140. Já o programa do Instituto Francesismo diz ter oferecido suporte à tradução de 26 milénio livros desde 1990, ou 742 por ano.

“A literatura brasileira ainda não alcançou o reconhecimento que merece”, pondera o diplomata. “Poderíamos fazer mais se tivéssemos orçamento e equipe maior, mas em termos do que fazemos, tem sido bastante satisfatório.”

Os editores com quem a reportagem conversou elogiam a bolsa porquê fundamental, ainda que reclamem por uma frequência maior. Segundo Verônica Lessa, coordenadora do Núcleo de Cooperação e Divulgação da Livraria Pátrio, a instituição tem buscado “o fortalecimento contínuo do programa, com a ampliação progressiva dos recursos destinados a ele”.

Lessa pondera que a literatura precisa vencer etapas mais longas de distribuição e construção de público que outras artes, o que torna “a repercussão mais gradual”. “Ainda assim, muitas vezes é a origem de obras com grande alcance, porquê é o caso do livro ‘Ainda Estou Cá’, também fortalecido pelo cinema brasílico.”

Adaptada por Walter Salles para o filme vencedor do Oscar, a obra de Marcelo Rubens Paiva passou a ser representada pela Filial Riff e teve seus direitos vendidos para sete traduções. Na Itália, foi publicada pela La Nuova Frontiera, editora especializada em literatura em português e espanhol.

Seu editor, Lorenzo Ribaldi, afirma que para tornar um livro sabido é cada vez mais importante a presença do responsável em lançamentos e festivais. Está tentando levar a paulista Aline Bei para fazer a divulgação de sua tradução recente de “Uma Delicada Coleção de Ausências”, mas tem tido problemas.

“Nós temos poucos recursos e os festivais daqui dizem que, se o país não ajuda, é muito difícil, porque a passagem do Brasil [para a Europa] é rostro”, afirma o italiano. “Se houvesse um programa evidente de ajuda ao deslocamento de artistas, seria mais simples para todos.”

O Instituto Guimarães Rosa oferece esse tipo de auxílio e o diretor do órgão, Marco Antonio Nakata, diz que o processo para essas solicitações “é a coisa menos burocrática provável”.

O exemplo da pequena Nuova Frontiera corrobora o que diz Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia. “Antigamente, nós vendíamos para grandes editoras. Hoje há casas independentes que têm feito um ótimo trabalho para ficção em língua estrangeira, o que não é fácil.”

Existem motivos para otimismo. Há dois anos, Itamar Vieira Junior viu seu “Torto Arado” ser indicado ao Booker Internacional, pela tradução ao inglês de Johnny Lorenz para a Verso Books. Hoje, o baiano é um raríssimo responsável brasílico representado por uma escritório estrangeira poderosa, a Wylie. Seu romance mais famoso tem traduções em 33 idiomas, chegando a 55 países.

No ano anterior, o cearense Stênio Gardel foi o primeiro brasílico a vencer o National Book Award, nos Estados Unidos, pela tradução do romance “A Vocábulo que Resta” feita por Bruna Dantas Lobato para a New Vessel Press. A obra está hoje em outros seis países.

É evidente que um livro ser publicado lá fora não quer expressar que ele terá muitos leitores. Mas uma coisa em que os editores parecem concordar é que o mercado está mais crédulo hoje à literatura brasileira, alguma coisa favorecido por um mundo mais multipolar, que permite conexões menos mediadas pelas potências anglófonas.

Porquê escreveu o diplomata Guimarães Rosa, “o caminho da gente é resvaloso”. E Rita Mattar, sócia da Fósforo, emenda uma graçola com um fundinho de seriedade. “O dia que criadores de teor de livros estrangeiros entenderem o engajamento que a literatura brasileira gera, vai ser o nosso petróleo.”

Folha

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