Na era clássica do cinema, era quase manante serem feitos filmes sobre personagens menores. “Subida Tensão”, por exemplo, versava sobre especialistas em religar grandes redes elétricas. Foi feito em 1941 por Raoul Walsh com vigor incomum. Em “Pressão”, estamos mais ou menos no mesmo caso, só que quase 90 anos depois. O mundo mudou, e o filme aproveita essa mudança.
Cá, o meio de tudo é o meteorologista James Stagg, papel de Andrew Scott, encarregado pelos Aliados —Reino Uno, Estados Unidos, Rússia e França— de prever uma vez que estaria o tempo no dia programado para a invasão da Normandia, o famoso Dia D. Estamos em 1944 e, nessa fundura do mundo, as previsões meteorológicas não eram tão mais precisas que as da bruxaria.
Não havia satélites nem computadores ou telefones celulares, zero. Exclusivamente estações de reparo cá e ali, balões e análises dos poucos dados. Mas Stagg era um gênio, dizia-se, e Eisenhower, papel de Brendan Fraser, vulgo Ike, director militar dos Aliados ocidentais, o convoca a seu quartel-general para fazer suas previsões.
Seguem-se conflitos. Começando pelo mais rudimentar: Ike já tem um meteorologista do coração, Krick, que enxerga o tempo de maneira muito dissemelhante de Stagg. Diverte-se ao piano, enquanto Stagg derrama suor e lágrimas sobre os mapas que se acumulam em sua mesa.
Isso ajuda a explicar certas minúcias da ciência, é evidente, mas sobretudo torna palatável ao público a personalidade antissocial de Stagg. Serve também para ele ter um contraditor na sua extensão. Mas Krick será um rival, somente. O verdadeiro contraditor de Stagg é Eisenhower. O poderoso general precisa de tempo bom para o Dia D não ser um sinistro. Ele praticamente encomenda um clima bom a Stagg. O problema é que Stagg prevê um quase dilúvio.
E Ike já tem uma rima de problemas com seus generais-estrela, além dos problemas logísticos, que não são pequenos. E Stagg, munido de seus poucos recursos, terá que concertar a previsão do tempo na mosca ou introduzir o rabo entre as pernas. O comando não está numa situação muito melhor que a dele. Depende de um varão que nunca dá certeza absoluta do clima que pode fazer.
Há alguns aspectos que tornam o tema do filme oportuno. O primeiro é que os imponderáveis de 1944 tornaram-se, hoje, a tormenta climática sob a qual vivemos no dia a dia. Voltar no tempo, nesse sentido, além de oportuno, é um delícia. Serve para constatar à meteorologia mais precisa de 2026 e perguntar quais, enfim, são as reais virtudes do progresso tecnológico —quando existem e se é que existem.
O segundo é que, uma vez que a essa fundura já conhecemos ou pensamos saber a Segunda Guerra de cor e salteado, podemos observar os fatos a partir de personagens inusuais, pessoas comuns e civis, não heróis militares. Outro exemplo disso é “O Jogo da Imitação”, de 2014, que tratou dos feitos do matemático Alan Turing. Pequenos personagens, digamos assim, sem os quais a vida seria muito difícil: uma vez que os eletricistas de “Subida Tensão”.
Com isso, o australiano Anthony Maras faz um filme que tem seus méritos. Assim, ao fazer de Stagg um ser meio taciturno, que precisa impor sua personalidade ao meio hostil, ganha de faceta a simpatia do testemunha. Na verdade, deve muito disso a Andrew Scott, que está muito muito no papel.
Alguns momentos são discutíveis. Porquê o projecto de rombo, indiscutivelmente ruim, fechado no rosto de um soldado morto. Ele não significa, não impressiona, não amedronta. Zero. O projecto seguinte, em contrapartida, é muito bom. Uma imagem do mar mostra também os pés, depois as pernas, depois o mar de soldados mortos. Podia muito muito ter sido o projecto de rombo. Pena.
Mais tarde, os melhores momentos do filme são mesmo de Andrew Scott. Por exemplo, há um longo projecto em seu rosto, num momento grave, com a câmera se deslocando muito lentamente, e mal notamos o que está no fundo, tal a tensão que o ator transmite.
Entre altos e baixos, Maras entrega um filme que tem a audácia de introduzir a meteorologia —e, no caso, aproximar ciência de superstição, conhecimento de adivinhação, natureza de sobrenatural— num momento em que vaidosos generais —para variar, o inglês Montgomery se destaca nesse quesito— enchem-se de humildade e oram, de verdade, na igreja, para que a chuva dê um tempo.
Não dá para apostar que um filme de Maras esteja tão atual daqui a centena anos quanto um de Walsh. Mas tem qualquer feitiço hoje, no seu tempo.
“Pressão” não é um bom título. Na língua portuguesa, do Brasil ao menos, refere-se mais a problemas cardiológicos do que bélicos.





