Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

Profissionais de saúde vencem desafios para vacinação em área indígena
Brasil

Profissionais de saúde vencem desafios para vacinação em área indígena

Na dimensão atendida pelo Província Sanitário Peculiar Indígena (DSEI) Cimo Rio Purus, unidade descentralizada do Sistema Único de Saúde (SUS), vivem 11 milénio pessoas das etnias Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Kaxarari, Kaxinawá / Huni Kuin, Madiha / Kulina e Manchineri.

São 155 aldeias, com populações que variam de 30 a 300 pessoas, onde idiomas de três troncos linguísticos diferentes dividem espaço com o português, ou dão conta da informação por completo.

A depender da povoado, se está no Acre, Amazonas ou Rondônia, é verosímil chegar de caminhonete ou embarcação quando o clima está bom, ou somente de quadriciclo, botes ou helicópteros quando as condições são desfavoráveis.


Alto Rio Purus (AC), 22/05/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Curso de vacinação em áreas indígenas. Foto: Kislane de Araújo Dias/Arquivo Pessoal
Alto Rio Purus (AC), 22/05/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Curso de vacinação em áreas indígenas. Foto: Kislane de Araújo Dias/Arquivo Pessoal

Curso de vacinação em áreas indígenas. Foto:  – Kislane de Araújo Dias/Registo Pessoal

Há também as peculiaridades culturais. O atendimento é descentralizado, respeitando crenças e práticas tradicionais de cada etnia.

Evangelista Apurinã, coordenador do DSEI, explica que não dá, por exemplo, para impor um ritmo aos Madijá e Kulina, com os quais é preciso negociar. “E outra coisa: você os segura em um lugar por, no sumo, umas 3, 4 horas. Depois disso, não segura mais”, afirma. 

Os Jamamadi se organizam politicamente ao volta de 11 clans principais, mas um impera sobre os outros dez. “Logo, se você atingir um pouco com um cacique que não é do clã principal, você pode transpor do território achando que está tudo combinado e, quando voltar lá, vai ver que voltou à estaca zero”, alerta Apurinã.

“Se a gente não souber desses detalhes, e de traje entender uma vez que é a estrutura de cada povo, a gente vai estar colocando a carroça na frente dos bois, e não vai conseguir fazer o serviço”, conclui o coordenador sobre os desafios de levar uma das principais estratégias de saúde pública – a vacinação – aos territórios indígenas.

Ainda assim, a turma do Zé Gotinha consegue chegar. Uma vez que é inviável manter unidades de saúde em todas as aldeias, cada região tem um polo base, de onde os profissionais saem para atender as comunidades, passando até 40 dias trabalhando de forma itinerante.

A localização das aldeias não impõe um repto só de trajectória, mas também de armazenagem: os frascos de vacina precisam permanecer incessantemente refrigerados, em uma temperatura entre 2º e 8º celsius para manter sua eficiência. Freezers instalados nos barcos, caixas térmicas e bobinas de gelo é que garantem esse padrão.

Quem planeja as atividades no DSEI Cimo Rio Purus é a enfermeira Kislane de Araújo Dias, responsável técnica pela dimensão de Imunizações e Doenças Imunopreveníveis do Dsei. Ela explica que todo trabalho é fundamentado no recenseamento vacinal, uma grande planilha com os dados de todas as famílias, onde as equipes monitoram quem vai precisar tomar qual vacina a cada irrupção.

“É mal a gente sabe também quantas doses de cada vacina vamos usar em cada povoado, para transferir só esse quantitativo exato do estoque para a caixa de movimento quotidiano. Geralmente, a equipe escolhe um lugar meão na povoado, onde as pessoas são atendidas, mas a gente também vai de mansão em mansão se precisar, e faz procura ativa dos faltosos.”

Todas as questões logísticas e culturais demandam um planejamento minucioso, de concórdia com a enfermeira Evelin Plácido, que atuou em territórios indígenas por muitos anos e hoje oferece capacitações em imunização para outros profissionais de saúde, a frente da CapacitaImune.

“Ao contrário do contexto urbano em que as pessoas vão até a imunização, nas áreas indígenas é a vacina que precisa ir até as pessoas. Logo, a gente tem que saber muito os equipamentos, quantas horas vão insistir cada trajectória e as rotas precisam ser muito muito estabelecidas antes de ir para o território, para que a gente não exponha a vacina a uma temperatura inadequada, por exemplo.”

No início de maio, Evelin esteve em Rio Branco, capital do Acre, ministrando um curso para profissionais que atendem as populações indígenas do estado, e também outras comunidades de difícil chegada.

Além de repassar com eles as normas técnicas mais atualizadas e as formas corretas de armazenar, utilizar e descartar os frascos de vacina, a enfermeira compilou uma série de informações, que sentia falta quando atuava na ponta.

“Um teor forçoso são as informações sobre as bases imunológicas, para eles entenderem uma vez que cada vacina interage com o sistema imune, e a segmento sobre os efeitos adversos. Até para o profissional conseguir explicar para as pessoas que elas são uma segmento normal de um processo que está prevenindo uma coisa muito maior”, diz a enfermeira, que também é Diretora da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Ela complementa: “Fui percebendo que, ao longo do tempo, que não adianta você ser um profissional óptimo, ter o melhor equipamento, saber tudo das vacinas, entender sobre técnicas de emprego, se você não souber se falar com as pessoas.”

Por isso, os profissionais também aprenderam técnicas para falar melhor as informações à população. Kislane, responsável técnica do DSEI Cimo Rio Purus, diz que isso é principalmente importante na saúde indígena.

“Eu não posso simplesmente chegar lá e manifestar: ‘É isso cá e você vai ter que admitir’.  A gente orienta as equipes a fazer uma roda de conversa e explicar para a comunidade que é um imunobiológico que vai conferir proteção contra aquela doença que os povos indígenas estão suscetíveis.”

O curso é oferecido pela farmacêutica MSD, que fornece quatro vacinas ao Programa Vernáculo de Imunizações do Sistema Único de Saúde: HPV, ⁠Hepatite A, ⁠Varicela e Pneumo-23. A gerente-médica de vacinas da empresa, Aline Okuma, explica que esta é a quarta capacitação oferecida para profissionais que atuam na saúde indígena ou em áreas remotas.

“Todo mundo precisa de capacitação, só que nas grandes capitais, a chance dos profissionais receberem isso é muito maior do que em áreas mais remotas. A gente identifica muito que algumas práticas não são harmonizadas e acho que essa é a grande valia desse curso: harmonizar práticas, adaptando para o cenário lugar”


Alto Rio Purus (AC), 22/05/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Curso de vacinação em áreas indígenas. Foto: Kislane de Araújo Dias/Arquivo Pessoal
Alto Rio Purus (AC), 22/05/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Curso de vacinação em áreas indígenas. Foto: Kislane de Araújo Dias/Arquivo Pessoal

Povos que vivem em áreas de difícil chegada já estão sendo vacinados – Foto: Kislane de Araújo Dias/Registo Pessoal

Até um dos maiores trunfos do Programa Vernáculo de Imunizações do Sus acaba sendo um repto para a atualização dos profissionais. O calendário fundamental de vacinação oferece mais de 20 vacinas e não para de crescer ou de se sublimar: só nos últimos meses, foram incorporadas as novas vacinas contra a dengue e o vírus sincicial respiratório.

Grupos vulneráveis, uma vez que a população indígena, ainda seguem alguns esquemas diferenciados. Todos os anos devem ser vacinados contra a influenza e a covid-19, por exemplo, independente da idade.

Uma experiência recente demonstra a relevância disso. Em 2024, em meio à seca recorde registrada na região amazônica, que inviabilizou a navegação até das equipes de saúde, uma das aldeias da região viveu um surto de influenza. Duas crianças morreram.

“Nós mobilizamos o governo federalista e o governo estadual e antecipamos em dois meses a vacinação de influenza dentro desse território, com um pompa para levar as vacinas por via aérea, usando canoinhas de madeira pra chegar nas casas, deslocando profissionais de outro polos. Foi um projecto de contingência e emergência, porque um dano desse pode matar uma comunidade inteira”, afirma Kislane.

Povos indígenas que vivem em áreas de difícil chegada, assim uma vez que populações ribeirinhas, quilombola e rurais, também já estão sendo vacinados contra a raiva, por desculpa do risco maior de comprar a doença depois mordida de animais silvestres.

Natália Diniz, que atua no polo da cidade de Boca do Acre, no Amazonas, também participou do curso em Rio Branco. Ela reconhece que é reptador ter que passar mais de um mês longe de mansão, a cada irrupção, depois de velejar dias para chegar às comunidades, mas também revela uma satisfação próprio:

“No território extramuro, a gente é um convidado. E toda vez que chegamos uma vez que convidado na mansão de alguém, precisamos pedir permissão, e tem que ter reverência com a rotina dessa mansão. Quando a gente faz vacina nos territórios, não é só uma vacina. A gente está dando oportunidade para aquela pessoa ter um horizonte com saúde e feliz”

* Equipe viajou a invitação da empresa MSD.

Fonte EBC

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *