Sob as águas do Rio Grande do Setentrião e do Ceará, repousam montanhas gigantes de até 5 milénio metros de fundura. Elas superam o Pico da Neblina, no Amazonas, a maior formação terrestre do país, que tem murado de 3 milénio metros, e são moradia para mais de 100 espécies de peixes, tubarões, corais e esponjas.
Os chamados Montes Oceânicos também funcionam porquê galeria ecológico para tartarugas, aves e outras espécies migratórias.
A proteção desses ecossistemas avançou para mais uma lanço nesta sexta-feira (6), com a realização da primeira consulta pública do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Natal. A próxima ocorrerá na segunda-feira (9), em Fortaleza.
As reuniões servem para que diferentes instituições e representantes da sociedade se manifestem sobre a proposta de geração de três Unidades de Conservação (UC): os Refúgios de Vida Silvestre (REVIS) Prisão Fernando de Noronha e Prisão Setentrião do Brasil, e a Superfície de Proteção Ambiental (APA) dos Montes Oceânicos. Juntas, elas somam pouco mais de 18 milhões de hectares (18.219.322), ou 180 milénio km².
Os estudos para geração das UCs começaram em 2016 e foram desenvolvidos por pesquisadores da Universidade Federalista de Pernambuco (UFPE), do Núcleo Pátrio de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (CEPENE/ICMBio) e do Instituto Recifes Costeiros (IRCOS).
A atividade com maior impacto sobre a biodiversidade é a pesca industrial, feita por embarcações de médio e grande porte, com foco nos atuns. Estima-se que o setor movimente entre R$ 100 milhões e R$ 127 milhões por ano.
O coordenador do CEPENE, Leonardo Messias, destaca que há um histórico de danos provocados por nascente tipo de pesca.
“Operações de arrasto de fundo realizadas no pretérito causaram uma perda estimada de até 85% da biomassa de peixes de topo em alguns bancos. É um impacto que se reflete até hoje no fundo do mar”, diz Leonardo.
Outra potencial ameaço aos ecossistemas é o setor de robustez. Há sobreposição entre as UCs propostas e blocos ofertados para exploração de petróleo. Porém, os pesquisadores dizem que, por terem formação geológica vulcânica e não sedimentar, a extração nos montes oceânicos é praticamente inviável do ponto de vista econômico e tecnológico.
No caso da mineração marinha, há projetos de extração de fosfato para fertilizantes no topo dos montes. O que, para a coordenadora-geral de geração e planejamento das UCs do ICMBio, Kelen Leite, representa um risco ecológico maior.
Ela diz que há negociações diretamente com o Ministério de Minas e Vigor (MME) para que a conservação seja priorizada em relação aos interesses econômicos.
“A mineração marinha acaba com tudo. Não tem porquê regenerar rodolitos e corais destruídos. A mineração é incompatível com a conservação e com a manutenção dos estoques pesqueiros. Aí, é uma escolha de país: é a biodiversidade e a pesca ou a produção de excremento?”, indaga Kelen.
No caso das unidades de conservação do tipo REVIS, de proteção integral, nenhuma destas atividades será permitida. No caso da APA, mais maleável, será necessária uma estudo de viabilidade socioambiental para autorizar qualquer atividade econômica.
Participação social
Durante a consulta pública desta sexta-feira, a assessora jurídica da Federação dos Pescadores do Rio Grande do Setentrião (Fepern), Adriana Silva, expressou a preocupação de que as UCs interfiram no trabalho e na renda da categoria.
Ela escutou dos representantes do ICMBio que a pesca artesanal não sofrerá restrições, por intercorrer mais próxima da costa e não estar, portanto, inserida no polígono das unidades propostas. Adriana sugeriu que o órgão intensifique o diálogo com os pescadores por meio de visitas às comunidades, para que eles abracem a proposta.
“Os pescadores precisam encarregar na teoria do ICMBio. Eles são ressabiados com os órgãos ambientais. Vocês precisam se aproximar dos pescadores e mostrar que a teoria do ICMBio não é proibir, é proteger”, disse Adriana.
A representante do povo Potiguara Sagi, Eva Potiguara, que vive entre o Rio Grande do Setentrião e a Paraíba, defendeu uma maior participação das comunidades tradicionais nos processos ambientais e chamou a atenção para os riscos de priorização do capital sobre os ecossistemas.
“Nós devemos nos unir na luta por esse planeta, porque a terreno é viva, a natureza é mãe e nós precisamos respeitá-la”, disse Eva.
A técnico em oceanos do WWF-Brasil, Marina Corrêa, disse que a proteção dos montes submarinos fortalece a resiliência do oceano brasílico diante de mudanças ambientais.
“A saúde dos ecossistemas marinhos está diretamente relacionada à manutenção dos estoques pesqueiros, à segurança nutrir e à sobrevivência das comunidades que dependem da pesca e do turismo. Proteger essa região é proteger a pesca, o maná e a própria resiliência do oceano”, disse Marina.
Meta 30×30
A geração de unidades de conservação marinha também faz secção de um compromisso global estabelecido formalmente em dezembro de 2022 durante a COP15 da Biodiversidade, no Canadá. Um conjunto de países, dos quais o Brasil faz secção, concordaram em proteger, pelo menos, 30% das áreas marinhas e terrestres até 2030.
O ICMBio contabiliza murado de 28% de cobertura marinha protegida, ao considerar o Sistema Pátrio de Unidades de Conservação (SNUC) de forma integrada (federais, estaduais e municipais), descontando sobreposições com terras indígenas e quilombos.
A unidade criada mais recentemente foi o Parque Pátrio do Albardão, no Rio Grande do Sul, em março de 2026. Há outras quatro propostas de UCs marinhas em estágio mais avançado no Ministério do Meio Envolvente (MMA) e na Mansão Social: a Suplente Biológica de Colinas Coralinas (ES), Suplente Extrativista Rio Formoso (PE), Suplente Extrativista Itacaré (BA) e a Suplente Extrativista Tauá Mirim (MA).
A coordenadora do ICMBio, Kelen Leite, reforça, no entanto, que o objetivo não é edificar somente números. Atingir as metas internacionais exige representatividade ecossistêmica ao longo dos 8.000 km de costa e eficiência na gestão, para evitar a existência dos chamados “parques de papel”, que só funcionam na teoria.
“É preciso tomar um pouco de zelo, porque a meta 30×30 não é só descrever superfície. Precisam ser 30% de áreas representativas e efetivamente geridas. Produzir é um grande passo, mas precisamos projecto de manejo e juízo consultivo. Se você mobiliza os atores e não dá respostas de gestão, vai criando condições para conflitos”, diz Kelen.











