Querem nos confinar no identitarismo, diz itamar vieira jr

Querem nos confinar no identitarismo, diz Itamar Vieira Jr – 11/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Itamar Vieira Junior costuma se distanciar da teoria de que “Torto Arado” já seja um livro clássico, mesmo diante do sucesso de público e da trajetória de prêmios que acumulou desde seu lançamento —venceu o Jabuti e foi finalista do Booker Prize, por exemplo. O plumitivo rejeita rótulos e pensa sua obra porquê secção de uma tradição viva e em diálogo com as lutas do povo brasílio. “É um livro que ainda é uma gaiato, tem seis anos de publicação”, diz.

Agora ele encerra a trilogia que iniciou com “Torto Arado”, em 2019, e se desdobrou em “Salvar o Incêndio”, de 2022, com “Coração sem Temor”. A obra, que chega às livrarias na semana que vem, desloca a série do sertão baiano para a capital Salvador e conta a história da protagonista Rita Preta. Vieira Junior diz não ter expectativas de repetir o sucesso da obra incipiente.

“Não tenho nenhuma pretensão. Cada livro é um livro. Quando pensamos na obra do Jorge Estremecido, cada um pode ter seu livro preposto, mas é inegável que ‘Capitães da Areia’ seja o mais popular. Quando a gente pensa no Gabriel García Márquez, é inegável que o que ‘Centena Anos de Solidão’ conseguiu nenhum outro conseguiu depois. Estou resignado, acho que, nesse sentido amadureci, não criei expectativas”, afirma.

“Coração sem Temor” traz a história mais contemporânea da trilogia e narra a saga de uma operadora de caixa de supermercado, mãe solo de três filhos, que tem a vida viradela do avesso quando um deles —o mais velho, Cid— desaparece na comunidade onde a família vive, em Salvador.

A obra não só desloca o cenário do campo para a cidade, porquê passa de uma narrativa sobre uma comunidade abandonada pelo Estado, presente nos dois primeiros livros, para outra que enfrenta a sua vexame. Rita Preta é progénito de Donana, a avó de Bibiana e Belonísia em “Torto Arado”.

“Eles migram para a cidade nesse movimento de êxodo rústico, mas descobrem que lá eles também não têm recta à distinção, não têm recta à vida, à moradia, nem a habitar a cidade de uma maneira democrática”, afirma o responsável.

Em “Coração sem Temor”, a protagonista vive um verdadeiro calvário na procura pelo fruto perdido, vê a sua segurança em risco e tenta seguir mesmo diante das mais extremas violências. Quando questionado sobre a escolha de narrar mais uma história de uma mulher negra sob a perspectiva da dor profunda, o plumitivo avalia que há ainda muitas Ritas da vida real.

“Haverá um tempo em que a gente precisará narrar a vida por uma outra perspectiva, mas, para mim, é impossível fechar os olhos para isso”, diz o responsável. “Quando narro a história de Rita, tenho a sensação de que estou narrando a história de muitas mulheres que ainda têm suas vidas inferiorizadas, subalternizadas, mas que, ainda assim, a exemplo dos avós, encontram força, coragem, propósitos e esperanças.”

Rita Preta, assim porquê em “Torto Arado” e “Salvar o Incêndio”, é mais uma protagonista negra no universo criado pelo plumitivo. “As três histórias têm porquê tecido de fundo o drama do pretérito colonial. Se pensarmos que o mundo colonial foi projetado por homens, ao relatar a história em uma perspectiva decolonial ou contracolonial, o foco muda, vai para os personagens que foram historicamente subalternizados”, diz o romancista.

“Achei justo que elas ocupassem esse espaço nessa trilogia. Até porque é uma parábola sobre a terreno. E a terreno, na nossa língua, é uma vocábulo feminina. A terreno é mãe, a terreno é mulher”, afirma.

Quando Vieira Junior publicou “Torto Arado”, há seis anos, o contexto político era outro. O homicídio da vereadora Marielle Franco ainda estava fresco na memória. Pouco depois, viriam as mortes de George Floyd, nos Estados Unidos, e de João Alberto Freitas, no Brasil. O movimento antirracista vivia portanto seu auge. Nos últimos anos, porém, esse espaço encolheu com o progresso da tarifa “anti-woke”. O responsável faz uma avaliação de porquê é publicar um livro com essa temática agora.

“Parece que mais uma vez estão querendo nos confinar em espaços de controle com o debate de identitarismo. O que está em disputa é o recta à memória, o recta à história. Quem pode ter, quem não pode ter. E as coisas estão se repetindo. Embora estejamos falando de uma faceta da história brasileira, do nosso pretérito escravista e da repercussão desses eventos no nosso cotidiano, no fundo, estamos nos confrontando com a experiência humana.”

Em entrevista recente, a tradutora Aurora Fornoni Bernardini disse que “Torto Arado” não é literatura, mas um resultado de mercado que privilegia o teor em vez da forma. Para Vieira Junior, ela representa um pequeno grupo de críticos tradicionais que não entende o sucesso de um “outsider”.

“Acusaram Lima Barreto da mesma coisa, de que ele não tinha um estilo próprio, que tinha uma linguagem muito direta. Carolina Maria de Jesus nem se fala o quanto ela é estigmatizada e hostilizada até hoje. Muita gente diz que ela não fez literatura.”

Itamar Vieira Junior diz preferir a definição do sociólogo e crítico literário Antonio Candido, que, em seu item “O Recta à Literatura”, diz “chamarei de literatura, da maneira mais ampla verosímil, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade”.

“Veja que coisa mais bela, não confinar a literatura numa caixa, mas torná-la uma frase humana viva e que deve ser recta de todos. Portanto, eu fico com as ideias do professor Antonio Candido sobre literatura”, diz o responsável.

“Um Defeito de Cor”, “Torto Arado” e “O Avesso da Pele”, de autores negros, foram escolhidos os três melhores romances do país no século 21 numa lista deste jornal.

“O Brasil vive neste momento um reencontro com suas origens, com sua multiplicidade, e isso contribui para uma lista porquê essa. Não acho que haja uma preferência pelo teor antes da forma nestas obras. Se fosse exclusivamente teor, as pessoas ficariam com as matérias jornalísticas. Estes autores têm um projeto estético poderoso.”

Folha

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