Raphael montes, de dias perfeitos, reina na tv e em

Raphael Montes, de Dias Perfeitos, reina na TV e em livros – 13/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Há três anos, Raphael Montes se preparava para encontrar seus leitores num evento da Bienal do Livro de São Paulo, em seu primeiro grande evento depois da pandemia. Quatro horas antes do horário marcado, recebeu uma relação da Companhia das Letras.

Era melhor ele já ir correndo para lá —tinha uma fileira causando aglomeração em torno do estande da editora na Bienal. Montes saiu mais cedo, encontrou seus fãs e autografou por quase nove horas seguidas, até depois de o pavilhão fechar.

“Foi a primeira vez que a coisa saiu do controle”, brinca ele, um jovem elétrico de 34 anos e brinco na ouvido, durante entrevista em um escritório na avenida Paulista, escoltado sempre de sua assessora de prensa e seu gerente de redes sociais.

Foi naquele momento que sua glória mudou de patamar. Os dois autores mais vendidos da Companhia naquela Bienal de 2022 ainda foram Clara Alves e Pedro Rhuas. Já na Bienal do Rio de dois meses detrás, dos cinco livros mais vendidos pela maior editora do país, cinco eram de Raphael Montes.

O primeiro do pódio foi “Jantar Secreto”, enredo sobre uma seita canibal promovida pela escol carioca com mesocarpo de gente pobre e marginalizada compondo um menu grã-fino. Já vendeu 200 milénio exemplares. Logo em seguida veio a edição próprio de “Dias Perfeitos”, livro que já chega a 80 milénio cópias e vira agora uma série com estreia nesta quinta-feira no Globoplay.

Explicar o que produz sucesso tão fora da curva é sempre aventuroso, mas no caso de Montes tem a ver com sua interlocução poderoso com o audiovisual, capaz de projetar suas tramas e sua assinatura, e um boca a boca virtual que contaminou o público jovem principalmente no boom literário da quarentena.

“Quando eu comecei, além do preconceito da sátira, tinha o preconceito do leitor”, diz, em referência ao início da dezena passada. “O brasílio falava, ah, literatura de suspense é americano que sabe fazer. Hoje o leitor brasílio descobriu o prazer de ler histórias brasileiras.”

O romancista cita colegas uma vez que Carla Madeira, Itamar Vieira Junior, Socorro Acioli, lista de best-sellers parecida com a que o editor Luiz Schwarcz levanta justamente para frisar que o caso de Montes “não é generalizável”.

“Hoje o Raphael divide seu tempo uma vez que roteirista, sempre teve um pé nisso e foi crescendo”, aponta o fundador da Companhia das Letras, que participou ativamente da edição de “Dias Perfeitos”, primeiro original do responsável comprado pela morada há 11 anos. “Muita gente vira roteirista e passa décadas sem ortografar. Vão para a Orbe e não voltam para o livro. Não é o caso dele.”

Montes se firmou no streaming em parcerias com a Netflix, uma vez que o filme “Uma Família Feliz” e a série “Bom Dia, Verônica”, feita com a amiga Ilana Casoy. Mas explodiu de vez com sua primeira romance, “Venustidade Irremissível”, escrita sob a bênção do ídolo Silvio de Abreu na HBO Max.

Agora ele abre terreno no Globoplay com a adaptação de uma de suas obras mais muito acabadas. “Dias Perfeitos” conta a história de Téo, estudante de medicina metódico e retraído que se apaixona —ou se obceca— por Clarice, roteirista libertária que goza de uma sexualidade mais oportunidade.

A história é menos “Romeu e Julieta” que “Misery”, de Stephen King —já no início do livro, Téo espanca Clarice e a leva dentro de uma mala para sua morada, onde a dopa por dias até determinar que o mais seguro era viajar com a pequena para uma pousada no meio do zero em Teresópolis, no interno do Rio de Janeiro.

“Preferia conquistá-la discretamente, nos pequenos gestos, mostrando uma vez que podiam ser felizes juntos”, pensa o Téo do livro, justificando sua violência uma vez que um meio para a gentileza, à voga da figura tão contemporânea do varão “incel” rejeitado.

Na série, ele é vivido por Jaffar Bambirra —nos dois episódios disponibilizados à Folha, o ator se mostra hábil em emular o psicopata entre olhares petrificados e tom de voz suave. O livro é todo exposto pela perspectiva dele, numa preocupação distorcida que recorre às aulas de Vladimir Nabokov para obrigar o leitor a desmontar o narrador criminoso que o conduz.

Aí está a maior diferença entre obra literária e audiovisual —a série se divide entre a perspectiva de Téo e a de Clarice, feita por uma Julia Dalavia imbuída de carisma e vitalidade inédita.

A teoria de oferecer o ponto de vista de Clarice para expandir a obra foi de Claudia Jouvin, roteirista que comanda a adaptação. “O livro é maravilhoso e funciona, mas hoje em dia você precisa de outros discursos”, afirma.

“O problema não é o personagem ser misógino, é a série ser misógina”, aponta. “Quando você dá mais filial à personagem, vê que ela tem um raciocínio, faz com que ela não seja só uma vítima. Uma série que é só violência fica indigesta, e o universo da Clarice é de esperança.”

Num evento ao lado de Jouvin no ano pretérito, Montes anunciou empolgado à plateia que a colega ia mudar o final da história —o que era tétrico na página deve ser mais animador na tela. O responsável nunca teve problema com adaptações bruscas na sua obra, sisudo a leitores com quem tem uma relação de estabilidade entre aprazer e provocar.

A Companhia das Letras não foi sua primeira editora, apesar de Montes ter tentado. O violentíssimo “Suicidas”, sobre um grupo de jovens que se mata num porão posteriormente se desafiar numa roleta-russa, acabou saindo pela Saraiva posteriormente ser selecionado em um prêmio interno chamado Benvirá. O responsável tinha 19 anos.

“Um jornalista só ganha dimensão quando entra em alguma vaga social”, diz Thales Guaracy, que foi seu primeiro editor. “A obra do Raphael vai além do thriller. Fala da falta de perspectiva do jovem de hoje, um mundo que não apresenta porvir, carreiras que se desfazem rapidamente.”

Guaracy lembra que, ao ler “Suicidas”, viu “um jovem de Copacabana que era um daqueles personagens, se perguntando o que fazer da vida”. Hoje sua obra já está em período adulta, aponta o editor, tendo ganhado o Jabuti de melhor romance de entretenimento com “Uma Mulher no Escuro” em 2020.

“A literatura de gênero é considerada pela sátira, às vezes pela prensa, uma literatura menor, uma coisa descartável”, afirma Montes. “Existem livros que são mero entretenimento mesmo, que você lê no avião, fecha e nunca mais pensa naquela história. Mas existe entretenimento que cutuca você em qualquer lugar, que instiga, faz pensar.”

O responsável diz que agora está explorando um novo gênero, o thriller erótico. Sabe aqueles filmes dos anos 1980 e 1990, uma vez que “Atração Irremissível” e “Instinto Selvagem”? Pois é. Mas ele não quer dar mais detalhes sobre o próximo livro.

O que dá para recontar é que Montes acaba de fechar um contrato de seis dígitos para ter dois livros editados nos Estados Unidos pela Celadon Books, repartição da editora MacMillan com curadoria afiada para thrillers.

Não é a primeira vez que ele é publicado lá fora —sua obra chega hoje a 25 países—, mas agora quer ser muito editado. Não ser só mais um na turba.

“Eu tenho muito orgulho de ser brasílio. Já me disseram que se eu fosse americano, estaria milionário —e eu falei, ‘mas aí eu não teria Carnaval’. Quando um responsável brasílio é traduzido, a primeira particularidade dele é ser exótico. O que eu adoraria é ser publicado uma vez que um bom responsável de thrillers”, diz ele. “E que é brasílio.”

Folha

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