Redes transformam ressentimento masculino em identidade – 16/07/2026 – Djamila Ribeiro
Enquanto aguardava meu voo de volta para São Paulo, no aeroporto de Confins, conversei com a repórter Nathalia Durval, da Folha, sobre o 15 de julho, Dia do Varão —data cuja existência, confesso, eu desconhecia.
A tarifa, no entanto, se tratava da chamada crise da masculinidade e o progressão dos discursos “red pill”, tema do livro que estou escrevendo neste momento.
Entre os dados apresentados pela jornalista, está a pesquisa realizada em 2023 pelo Instituto Papo de Varão, em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil, a qual mostrou que nove em cada dez homens adultos gostariam de participar de programas que os ajudassem a desenvolver estabilidade emocional, responsabilidade, zelo e saudação.
Entre adolescentes de 13 a 17 anos, seis em cada dez disseram não ter praticamente nenhuma referência masculina no cotidiano, e sete em cada dez afirmaram querer aprender a tratar meninas e mulheres com saudação, paridade e sem violência.
Os dados revelam um aparente paradoxo. Se tantos adolescentes afirmam querer aprender a tratar meninas e mulheres com saudação e sem violência, por que isso continua sendo tão difícil?
Segmento da resposta pode estar em pesquisas que, há anos, vêm mapeando comunidades organizadas em torno da misoginia, capazes de transformar ressentimentos em identidades coletivas.
A prelo brasileira passou a destinar crescente atenção ao fenômeno da “machosfera”, impulsionada por casos recentes: do estupro coletivo em Copacabana —em que um dos investigados apresentou-se à polícia vestindo uma camiseta das lojas Renner associada ao influenciador Andrew Tate— à investigação sobre o homicídio da policial militar Gisele Alves Santana, tal qual principal suspeito, um tenente-coronel da Polícia Militar, descrevia a si mesmo porquê “másculo estreia” e a companheira porquê uma “fêmea beta submisso e submissa”.
A misoginia, evidentemente, é muito mais antiga do que qualquer plataforma do dedo. O que mudou com as redes sociais foi sua capacidade de circulação.
Os antigos fóruns masculinistas, observados durante mais de uma dezena pela pesquisadora Lola Aronovich, deram lugar a plataformas nas quais vídeos de poucos segundos, de possante apelo narrativo, já são suficientes para iniciar um trajectória de radicalização. É provável que até mesmo um juvenil que nunca procure um grupo masculinista se depare com um incisão de podcast de um “coach” “red pill” atribuindo ao feminismo a responsabilidade por suas frustrações.
O algoritmo faz boa secção do trabalho. Pesquisas da NetLab da Universidade Federalista do Rio de Janeiro ajudam a dimensionar esse ecossistema. O laboratório identificou mais de 76 milénio vídeos relacionados à “machosfera”, que, juntos, ultrapassam 4 bilhões de visualizações. Segmento desse teor ensina ou justifica formas de violência contra mulheres.
O professor Luiz Valério Trindade observa há mais de dez anos a proliferação de discursos de ódio misóginos e racistas dirigidos a mulheres negras em subida social no Facebook, Instagram, YouTube —da Meta— e no Twitter, atual X, de propriedade de Elon Musk. Já a escritora feminista Yasmin Morais observa que o TikTok se tornou uma das principais portas de ingresso porque adapta a misoginia à linguagem das “trends”, dos memes e de vídeos curtos.
É justamente por isso que me preocupa quando tratamos esse fenômeno unicamente porquê “culpa da geração dos pais”, ou ainda, porquê é mais generalidade, “culpa das mães”, outra formulação misógina. Há uma estrutura em curso que precisa seguir sendo enfrentada e com muito mais força.
Um exemplo ocorreu há dois anos, durante a série “Juvenilidade”, que despertou o debate público sobre a misoginia do dedo.Todavia, em cláusula publicado, as pesquisadoras Victória Nobica Marques do Promanação e Constantina Xavier Filha demonstram que boa secção da repercussão da série nas redes sociais acabou produzindo um efeito contrário às mensagens da série, pois grande secção dos comentários no Instagram passou a responsabilizar quase exclusivamente pais, mães e escolas pela radicalização dos adolescentes.
Segundo as autoras, cria-se uma pedagogia moral dirigida às famílias, ao mesmo tempo em que permanecem praticamente invisíveis as responsabilidades das “big techs”, de seus algoritmos e da falta de regulação das plataformas.
Hoje, famílias, escolas, intelectuais e comunidades disputam a formação de uma geração inteira com plataformas desenhadas para tomar atenção, produzir engajamento e moldar comportamentos em um envolvente que fomenta a misoginia. Trata-se de uma guerra a ser enfrentada, mas ainda assim uma disputa desigual. Por isso, neste Dia do Varão, perguntemos: quem, de indumento, está educando nossos meninos para o mundo?
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