'Rejeição' capta era digital com solidão e desejos insanos

‘Rejeição’ capta era digital com solidão e desejos insanos – 20/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“A internet é composta de milhões de solidões piscantes, existindo e desaparecendo, cada uma sonhando as outras.”

A frase aparece no finzinho de “Repudiação”, a coletânea de contos do americano Tony Tulathimutte que tem repercutido no meio literário, mas poderia muito servir uma vez que seu cartão de visitas.

Não é que o livro descreva uma vez que são as relações no mundo do dedo —ele é uma das primeiras empreitadas editoriais de sucesso a nascer nesse origem, estruturada uma vez que postagens de Reddit, “shitposting” sem noção no X, cá ainda chamado de Twitter, e confissões viscerais repletas de emojis em grupos de WhatsApp.

A solidão perpassa todos os protagonistas e, uma vez que adianta o título do livro, todos eles são recusados seja por seus interesses românticos, por seus rolos de só uma noite ou pelas boas normas da sociedade.

Mas Tulathimutte, que nasceu nos Estados Unidos com progénie tailandesa, não acha que estamos mais solitários e deprimidos hoje por razão da internet.

“Não tenho certeza de que a solidão seja mais geral do que antes, mas sua visibilidade é certamente maior do que era”, diz o noticiarista de 42 anos por chamada de Zoom. “Parece uma incongruência em termos, mas, se alguém era solitário antigamente, não havia muitas maneiras de saber disso.”

“Só nos últimos anos você pode permanecer, ao mesmo tempo, 100% só e totalmente em contato com todo mundo. Você pode estar na sua leito, sentir uma fisgada de melancolia e postar uma selfie carrancuda para seus milénio seguidores saberem. Pode cultivar essa solidão se convencendo de que o que faz no celular é participar de uma comunidade, mas na verdade não é, né?”

Esse conflito muito contemporâneo está na raiz de todas as histórias. No raconto mais cobiçoso e metalinguístico da obra, “Personagem principal”, a protagonista Bee recusa todo tipo de marcador de identidade, de raça e origem até gênero, e vai se tornando uma espécie de entidade por trás de milhares de contas virtuais anônimas que abarrotam as redes sociais de besteira e de ódio.

“Você pode presumir que sou o tipo de babaca que só tem amigos virtuais —errou!”, escreve Bee no raconto. “Eu não tenho amigos. E era por isso que eu amava o Twitter: um fórum crédulo e rizomático no qual você podia aumentar doenças mentais existentes, comprar novas, violar seus próprios direitos e ser destituído.”

A obra frenética de Tulathimutte, enxurrada de impaciência e da tensão da inabilidade social, analisa uma vez que passar o dia todo na esfera pública da internet afeta o que há de mais privado.

Começa com “O Feminista”, um raconto que já gerou polêmica quando foi publicado pela primeira vez numa revista, sobre um sociólogo que é tão consciente de seus privilégios patriarcais e fala disso com tanta frequência que acaba se tornando um liso, sem conseguir se relacionar com nenhuma mulher. A trama avança para um desfecho na risco da masculinidade redpill, discussão mais em voga do que nunca.

O livro segue com histórias sobre Alison, pequena que entra em um tornado emocional quando seu camarada pede que ela faça um “nude” depois de uma transa inesperada, até um jovem “empreendedor serial” que precisa mourejar com “hate” em seguida descrever sua postura controladora com a namorada em uma postagem.

Essa namorada, por sinal, é Alison, e outra sacada de “Repudiação” é realizar interconexões sutis entre todos os sete contos, que culminam em um texto protagonizado pelo próprio responsável —uma missiva ficcional em que ele próprio é rejeitado por uma editora.

Tulathimutte se aproxima de suas criações, exibindo a mesma teimosia divertida de várias personagens ao comentar a dificuldade alheia de pronunciar seu sobrenome. “As pessoas me chamam de Tony Tula a minha vida inteira”, diz, e esse é de veste o arroba que ele adota nas redes sociais.

“Fiquei pensando em mudar meu nome, porque seria mais fácil, e tive tanta pressão para fazer isso no meu primeiro livro que acabei mantendo o original por puro despeito. Eu não sou zero senão movido por despeito.”

Esse traço também se revela quando o responsável se recusa a embarcar em discursos fáceis, uma vez que o de que o vício em telas e a vitrine manente do Instagram são responsáveis por estragar a saúde mental das novas gerações.

“Há formas de sofrimento que são novas, uma vez que cyberbullying e pornô de vingança. Mas isso é ver as árvores e não a floresta. É uma vez que culpar os videogames violentos pelos assassinatos em escolas. Se você quer saber por que os millennials e a geração Z têm pior qualidade de vida e expectativa no horizonte, é só a economia.”

Segundo o responsável, quase meio século de políticas de austeridade desmantelaram o tecido social nos Estados Unidos. “E se você não tem perspectivas para sua vida real, as redes sociais vão ter consequências muito mais graves sobre você. E você fica mais tempo ali, porque é o que pode remunerar.”

Mas se esse é um livro com muita densidade dramática, não subestime o quanto ele é engraçado.

Kant, o personagem mais imerso em desejos sexuais delirantes, desenvolve uma autoimagem tão deturpada pelos padrões que arruína suas próprias fantasias ao lembrar que ele mesmo estaria na transa. “Quando ele se imagina fazendo sexo, vê um yorkshire comendo um dogue teutónico.”

Um dia, enfim consegue levar para a leito um face que gosta de levar uns tapas, mas fica meio sem jeito. “Ele acerta a bunda do varão com a força que aplicaria a uma torradeira com defeito.”

“Quero esclarecer que não escrevo tanto sobre sexo, mas sobre sexo ruim ou falta de sexo”, diz o responsável. “E sexo é hilário sempre que não é bom.”

O raconto centrado em Kant, “Ahegao ou balada da repressão sexual”, tira seu nome de um fetiche muito específico vindo dos hentais japoneses, em que a pessoa fica tão exasperada pelo sexo que envesga os olhos e põe a língua para fora. Pornografia cronicamente online, uma vez que se diz.

Grafar um livro fincado em tecnologia tão recente é um risco que nem todo responsável quer tomar. Não se sabe o que vai perseverar e o que logo vai parecer obsoleto. Preocupa Tulathimutte que seu livro fique datado? “Não”, responde ele. “Eles já me pagaram.”

Folha

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