Rita Lee vira monólogo com Lilia Cabral no Teatro Faap – 09/07/2026 – Mise-en-scène
O fole do acordeom está lá, no meio do palco do Teatro Faap, inflando e esvaziando num ritmo que parece o de uma respiração que teima em continuar. Na montagem de Beatriz Barros para “Rita Lee – Balada da Louca”, a falta de ar que silenciou a cantora transforma-se em material de trova concreta. O que o corpo perdeu em fôlego, o instrumento devolve em som. Trata-se de uma escolha formal que define o tom do espetáculo, estruturado por Guilherme Samora, que não se rende à biografia convencional nem ao melodrama. Instala-se ali, firme, no território do tentativa cênico sobre a despedida.
Samora escreve o declínio sem concessões. O texto transita pelos dias confusos da pandemia, pela vacina que demorava, pelo vistoria de Covid-19 que trouxe um diagnóstico pior. Mas o prontuário médico não domina a cena, é subvertido por uma espécie de pundonor irônica. A personagem enfrenta a quimioterapia com o distanciamento de quem estuda o próprio organização em dissolução, mantendo viva aquela perceptibilidade ácida que sempre fez da vida pessoal combustível para a arte. Essa crônica do isolamento ganha uma categoria extra de afeto com as bases de piano gravadas por Roberto de Roble em moradia, que entram em off porquê uma moldura sonora e íntima.
Beatriz Barros dirige com mão ligeiro, operando por subtração. O cenário de Pedro Levorin recria o sítio dos últimos anos de Rita Lee, mas sem o acúmulo de objetos que remetem à trajetória. Resta somente o espaço limpo, quase uma tela vazia, iluminado com precisão por Ana Luzia Molinari de Simoni. É uma ambientação que aposta todas as fichas na vocábulo e no trabalho da atriz.
E que trabalho! Lilia Cabral retorna ao solilóquio, depois de um longo autoexílio do gênero, com uma atuação de golpe sedento, sem permissões ao pranto fácil ou ao gesto largo. Sua voz adota aquele tom reles, sussurrado, tão característico de Rita Lee. A mesma voz que podia ser venenosa num momento e frágil no seguinte, sem que uma coisa anulasse a outra. O corpo acompanha essa dualidade, sustentado pelo figurino em azul transparente de Walério Araujo.
O momento mais frágil da montagem vem no final. Quando Lilia deixa a persona de Rita para falar porquê ela mesma, a ilusão dramática se rompe. Mas essa fratura não é um deslize – é o próprio coração do espetáculo. O teatro se revela logo porquê um ritual de luto coletivo, um espaço onde a plateia pode elaborar a privação. Ao chorar as lágrimas que Rita escondia detrás do descaramento em suas memórias, Lilia expõe o artifício sem esvaziá-lo. Ela empresta o corpo para que outros possam sentir, e o palco se torna o lugar permitido para o espanto diante da perda.
Três perguntas para…
… Beatriz Barros
Porquê você ancorou temas tão densos (morte, envelhecimento, espiritualidade) sem perder a leveza, o humor e a ironia que marcam a escrita de Rita Lee?
A própria Rita nos ensinou o caminho ao ortografar sobre a finitude sem furar mão do humor. Essa convívio entre o trágico e o cômico foi a bússola da nossa encenação. Porquê pesquiso a adaptação da literatura para o teatro, busco a lógica de encenação que cada obra pede. No caso da Rita, entendemos que não fazia sentido tornar a narrativa excessivamente solene.
A força da escrita dela está em cruzar uma situação dolorosa e, logo em seguida, produzir um deslocamento pela ironia. Buscamos edificar com a Lília esse relevo emocional, onde o riso não ameniza a dor, mas permite que ela seja vivida com mais humanidade. Preservar essa alternância era uma forma de preservar a própria voz da Rita.
Porquê surgiu a teoria do acordeom para simbolizar os pulmões de Rita, e porquê foi preparar Lilia Cabral para dar organicidade a esse gesto em cena?
Sabíamos que não queríamos um teatro ilustrativo, mas sim estimular a imaginação do testemunha. Durante o processo de geração, eu, Sol Mennezes e Pedro Levorin investigamos a linguagem do espetáculo no Rio de Janeiro, movidos pelas ideias de Peter Brook de que a plateia completa o que a cena somente sugere.
Estabelecemos que os objetos não precisariam satisfazer sua função original; um instrumento poderia se transformar em um órgão do corpo ou em um estado de espírito, assumindo um delírio poético muito característico da Rita.
Foi dentro dessa pesquisa que a Lília trouxe um acordeom ao tentativa e propôs que o movimento de furar e fechar representasse os pulmões da Rita. Vimos imediatamente a potência dessa metáfora simples, profundamente teatral e emocionante.
Qual foi o trabalho com Lilia Cabral para desconstruir seu registro vocal imponente e encontrar o tom sussurrado e confessional da personagem?
Mais do que encontrar uma voz, precisávamos encontrar uma intimidade. A partir da seleção de trechos do livro feita pelo Guilherme Samora, eu e a Lília construímos a dramaturgia em sala de tentativa. Meu trabalho era organizar a trajetória da personagem e a arquitetura da encenação, enquanto a Lília mergulhava na construção e trazia novas possibilidades diariamente.
Nunca pensamos em imitar a Rita, o duelo era encontrar uma presença cênica que preservasse sua perceptibilidade, irreverência e vulnerabilidade. A voz sussurrada nasceu dessa pesquisa da intimidade, compartilhando um pensamento quase ao pé do ouvido do testemunha.
Teatro Faap – Rua Alagoas, 903, Higienópolis, região oeste. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 17h. Até 9/8. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ingressos esgotados
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