Em 2026, o Rock in Rio não teve uma de suas melhores edições. Ainda que tenha tido noites memoráveis, caso do show de Elton John e do dia do k-pop, o festival, encerrado no domingo (13), sofreu com as chuvas, que castigaram o Parque Olímpico do Rio de Janeiro em boa secção do evento, apresentações esvaziadas e uma perda de interesse do público.
Isso pôde ser observado nas vendas de ingressos. Desde que passou a suceder a cada dois anos, a partir de 2011, o Rock in Rio raramente abria seus portões sem ter esgotado todas as entradas disponíveis. Desta vez, em 4 dos 7 dias do festival, ainda era provável comprar tíquetes para o evento quando os shows já estavam rolando.
A organização considera um público solene de 700 milénio pessoas no totalidade, sendo 100 milénio por dia. Mas isso só seria provável se todos os dias os ingressos estivessem esgotados. A percepção, impossível de se confirmar, é de que talvez nascente seja o Rock in Rio com menos público, pelo menos desde 2013 —quando passou a ter sete dias de duração.
Há várias explicações para isso, mas nenhuma delas é maior do que a escalação das atrações. Neste ano, aprofundou-se a perda gradativa da capacidade do Rock in Rio de atrair os shows mais quentes da música popular ao volta do mundo.
Seja no pop —com Taylor Swift e Harry Styles, para reportar alguns— ou no rock —Oasis, System of a Down—, há anos que esses artistas preferem trazer suas turnês para shows solo em estádios brasileiros. No caso do Rio, até os eventos gratuitos na praia de Copacabana se tornaram mais atrativos para as estrelas —basta lembrar do furor causado por Lady Gaga e Madonna recentemente.
Neste ano, os headliners foram Foo Fighters, Avenged Sevenfold, Calvin Harris, Elton John, Stray Kids, Maroon 5 e Twenty One Pilots. Com exceção do cantor britânico, todos eles vieram ao Brasil há no sumo três anos, sendo que um deles —o Avenged— esteve na última edição do próprio Rock in Rio.
Foo Fighters e Maroon 5, que tocam com frequência maior no país, apresentaram-se no The Town, o irmão paulistano do Rock in Rio, em 2023. Harris, o primeiro DJ a ser a atração principal do palco Mundo, o maior do evento, na história do festival, tocou em um trio no último Carnaval, em São Paulo. O Stray Kids lotou estádios nas duas grandes metrópoles brasileiras no ano pretérito, quando o Twenty One Pilots também fez uma mini-turnê no país.
Não à toa, Elton John fez o show mais emblemático do festival, emocionado pela despedida dos palcos do Brasil, e emocionando dezenas de milhares de pessoas com isso. O dia em que ele foi escalado, inclusive, foi também o melhor do evento, com outra despedida comovente, a de Gilberto Gil, e shows inesperadamente celebrados de Roupa Novidade com Guilherme Arantes e Péricles cantando sucessos da gravadora Motown.
O sucesso desses brasileiros, inclusive, pode mostrar caminhos para o Rock in Rio superar a dificuldade de renovar a escalação dos gringos. Há dois anos, o festival tentou ampliar a participação vernáculo com um “dia Brasil”, que não funcionou porquê se esperava, mas trouxe ótimos shows de ritmos escanteados no evento, porquê o samba.
Se para as estrelas internacionais o festival não é mais uma coqueluche, para as nacionais é porquê ser convocado para a seleção brasileira. É quando eles se preparam para ocasiões especiais e dão tudo de si no palco.
João Gomes levou um cortejo de frevo e maracatu com dezenas de pessoas ao solo do evento e fez uma celebração marcante das várias vertentes do forró. Ivete Sangalo consegue renovar conspiração, palco e repertório a cada vez que canta no Rock in Rio. Gilberto Gil levou mais gente ao palco Mundo do que grande secção dos estrangeiros. Joelma mostrou que tem poder de lume para encher —e sustentar— o palco Sunset com o brega paraense.
Nunca na história tantos músicos brasileiros fizeram turnês em estádios e grandes arenas. Isso pode valer alguma coisa para o Rock in Rio, que tem a capacidade de reunir multidões em seu DNA.
Em contrapartida, diversos nomes de fora fizeram shows esvaziados ou aquém da capacidade dos palcos. Foram os casos de Novidade Twins, The Hives, PJ Morton, Jon Batiste, Mgk, Poppy e Halsey, só para reportar alguns. O prateado Milo J, escondido no palco Supernova, foi uma grata surpresa.
O Rock in Rio não precisa virar um evento de música brasileira para ampliar, variar e dar maior destaque aos artistas daqui, que podem aproveitar a oportunidade para fazer shows exclusivos, diferentes de suas turnês usuais. Quanto aos estrangeiros, eles podem até vir em menor quantidade se isso valer maior qualidade, urgência e apelo.
Grande novidade desta edição, o k-pop trouxe shows marcantes —caso da cantora Hwasa— e introduziu uma geração à experiência de ir a um festival para ver seus cantores favoritos. O público foi provavelmente o mais jovem da história do Rock in Rio, pleno de crianças e adolescentes.
Faltou, no entanto, uma maior integração com o resto do evento. Quem foi pelo k-pop só queria ver esses artistas e passou a maior secção do tempo sentado esperando pelos shows, ao ponto de obstruir a passagem das pessoas. No palco Sunset, o Jamiroquai mostrou seu groove irresistível para uma plateia pequena, formada só por quem não era fã do Stray Kids.
Neste ano, não deixou de ser verdade que o Rock in Rio tem a melhor estrutura dos megafestivais do país, incluindo os banheiros, o gravura dos palcos e a potência do som. A pista premium recém-inaugurada, um cercadinho pequeno com bar e banheiros próprios na frente do palco Mundo, não atrapalhou, mas também não deu a sensação de valer a riqueza que custou.
Já a chuva, alguma coisa que está fora do alcance da organização, castigou o Parque Olímpico na maioria dos dias e atrapalhou a experiência. Muita gente largou o show de Calvin Harris antes do termo porque não aguentava mais permanecer tantas horas molhada e várias poças d’chuva se formaram.
A poucas semanas de uma eleição acirrada, e em meio a um noticiário de Brasília fervendo, o Rock in Rio foi uma ilhéu deslocada no tempo e espaço. Se em 2022 houve algumas manifestações nos palcos e na plateia, desta vez a política foi praticamente ausente do evento —que em sua primeira edição, em 1985, abrigou hinos de uma juventude que clamava pelo termo da ditadura militar.
Daniela Mercury botou um cavalo preto, aludindo a “Dark Horse” —o filme sobre Jair Bolsonaro financiado pelo banqueiro Daniel Vorcaro—, distribuindo moeda no palco, mas não disse zero sobre o matéria no show. O rapper Delacruz usou uma camiseta com uma discretíssima foto do presidente Lula no palco Supernova, um dos menores do Rock in Rio. Salvo alguma exceção, não passou muito disso.
Chamou a atenção ainda porquê o Parque Olímpico não ficou tão pleno nos dias do rock e do heavy metal —os gêneros mais identificados com o Rock in Rio. Houve shows muito prestigiados, porquê os de Bring Me the Horizon e Foo Fighters, mas a sonolência dominou na maior secção do tempo.
Com ou sem rock, a edição de 2026 deixa a sensação de que a bem-sucedida fórmula estabelecida pelo Rock in Rio desde 2011 está chegando a um esgotamento. Dadas as mudanças na indústria de música ao vivo no Brasil desde o termo da pandemia, surge a premência de uma reformulação —se não para restabelecer a relevância de outrora, pelo menos para voltar a atrair público.





