Rodrigo Portella dirige drama sobre ética e família – 25/08/2026 – Mise-en-scène
O testemunha que entra no teatro para ver a “Inter Alia” perde de repentino a posição de mero observador. Sob a meio primorosa de Rodrigo Portella, a montagem brasileira da dramaturgia da australiana Suzie Miller elimina o distanciamento analítico e constrói um envolvente de intensa fardo psíquica, no qual a plateia é arrastada para o núcleo de um julgamento sem veredito simples.
Portella opera na chave do importante. A cenografia de linhas retas, cadeiras e grades de madeira, idealizada por Mina Quental e pelo próprio diretor, funde a solenidade de um tribunal de justiça com a claustrofobia de um lar em processo de ruinoso moral.
A luz de Ana Luzia de Simoni, articulada em focos brancos e penumbras sufocantes, acompanha a perda da perspicuidade institucional, enquanto o traçado de som de Federico Puppi, injeta uma tensão contínua que acelera o pulso da cena. Toda essa arquitetura cênica funciona porquê extensão do colapso interno dos personagens.
É no desempenho do trio de atores, porém, que a montagem ganha sua sentença mais subtil. Drica Moraes constrói uma Jessica Parks de precisão milimétrica. A atriz vivencia o sinistro sem histrionismo, revelando ao público o terror de uma mente analítica que vê suas estruturas ruírem.
A curva dramática de sua atuação expõe o desgaste invisível de uma mulher que tenta lastrar múltiplos papéis de superioridade —a jurista combativa em guerra contra violência sexual, a mãe devotada, a articuladora do lar— até o momento em que a denunciação de estupro contra o fruto destrói essa ilusão de controle.
Ver a personagem tentar, passo a passo, instrumentalizar a mesma lógica jurídica que sempre combateu para salvar seu herdeiro configura um dos momentos de maior tensão da cena recente.
Ao seu lado, Caco Ciocler dá corpo ao marido, Michael, porquê um varão marcado pelo ressentimento velado diante do sucesso da esposa e por uma indiferença que se manifesta na recusa em assumir a responsabilidade pela formação do fruto. Na contracena com Drica, Ciocler deixa transparecer as fendas de um himeneu sustentado por compromissos superficiais de paridade.
Completando o núcleo, Caio Cesar Passos interpreta o jovem Harry com a dosagem exata de anfibologia. O jovem ator demonstra uma desatino empática, típica de uma juventude moldada por telas e subculturas virtuais, incapaz de compreender as assimetrias de poder e o significado do consentimento.
Ao ler a dedicação do elenco a uma regência sem concessões, a montagem revela a velocidade com que discursos progressistas e princípios garantistas se deterioram diante da ameaço pessoal. O impacto da montagem não deriva de uma tese enunciada em cena, mas do mal-estar provocado pela constatação de porquê a moral se prova frágil quando confrontada pelo instinto de preservação da própria família.
Três perguntas para…
… Drica Moraes e Caco Ciocler
Quando a denunciação contra o fruto se concretiza, sua atuação foge do desespero histriônico e caminha pela tentativa desesperada de usar a lógica para organizar o caos. De que maneira você e o Portella dosaram essa contenção para que o sonido interno da personagem chegasse com tanta força à plateia?
Drica Moraes: Aos 57 anos, uma atriz já viveu tanta coisa, qualquer pessoa já viveu tanta coisa na vida… Já temos uma bagagem acumulada e a sensação de que você já passou das comédias mais rasgadas aos dramas ordinários e às tragédias mais profundas. Eu já passei por todos esses campos energéticos e de linguagem.
Passei por tudo isso e o Rodrigo, junto com a Bianca Ramoneda, foram muito precisos no ponto que queriam para essa cena final. Eles me pediram essa contenção para possuir a explosão emocional somente no ponto final. E aí eu tinha esse repertório de vida que me permitia fazer escolhas mais assertivas de congraçamento com o pedido tanto do diretor quanto da Bianca, dramaturga que foi imprescindível nessa jornada.
A peça coloca no núcleo do debate a velocidade com que princípios sólidos podem ruir diante de uma ameaço ao núcleo familiar. Para você, porquê atriz, qual é o momento mais difícil de proteger em cena nessa transição em que a jurista garantista cede espaço à mãe que cogita usar as brechas do sistema?
Drica Moraes: O momento da revelação do fruto à mãe e o pedido de ajuda dele a ela é o ponto de incisão da dramaturgia onde, porquê tradutor, entro na tragédia.
É o momento da queda radical do Olimpo ao Inferno, em que a juíza engole o próprio coração, arranca os olhos e se torna o ser humano mais impotente diante dos fatos. Não há saída provável sem encarar e passar pela pior dor. Nesse momento a peça não faz mais concessões à qualquer sugestão de humor, drama, thriller, filme de tribunal… é tragédia mesmo. É duro.
O embate entre Jessica e o marido, Michael, expõe um himeneu atravessado por ressentimentos silenciosos e por uma repartição desigual da fardo mental. Uma vez que foi edificar com a Drica essa fricção cotidiana entre duas pessoas que acreditavam viver uma relação de paridade?
Caco Ciocler: Os personagens são narrados pela Jessica, ou seja, o que se escuta sobre Michael é a visão que ela tem do marido e do himeneu. Mas sempre nos pareceu mais rico complexificar esse jogo, gerar ruídos, até contrapontos a essa visão, justamente para que o público pudesse ter a percepção de um varão e de um himeneu atravessados por sentimentos silenciados, porquê você diz.
Para isso, recheamos os improvisos, as intenções e as marcas com muita conversa e colocamos na roda referências pessoais. Era importante que se visse nesse parelha também paixão, que se visse no Michael um varão numa tentativa lacuna mas honesta de ser e fazer o melhor.
Teatro Vivo – Av. Chucri Zaidan, 2.460, Vila Cordeiro, zona sul. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Até 25/9. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ingressos esgotados.
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