Em uma vigorosa montagem, o Grupo Galpão ocupa o Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, com sua adaptação do romance de José Saramago (1922-2010), “(Um) Experimento Sobre a Fanatismo”. Sob a direção de Rodrigo Portella, a companhia mineira cria uma experiência cênica da distopia saramaguiana que dialoga diretamente com as urgências e a brutalidade do nosso tempo. O resultado é um espetáculo que aposta na crueza da teatralidade e na força do trabalho coletivo para confrontar o público com sua própria facciosismo.
A direção de Portella, que também assina a dramaturgia, faz uma escolha fundamental ao despir o fazer teatral. Em cena, os atores do Galpão –um elenco bastante coeso e devotado ao ofício– manipulam a luz, movem objetos e constroem as paisagens da narrativa à vista da plateia. Essa metalinguagem não distancia, pelo contrário, reforça a teoria de que a história que está sendo contada é uma construção, um tentativa, assim uma vez que as estruturas sociais que normalizam o contraditório.
A “treva branca” que acomete a sociedade no romance de Saramago é traduzida por Portella uma vez que uma metáfora da atualidade: a incapacidade de enxergar o outro em meio a um bombardeio de imagens e desinformação. A montagem atualiza a distopia para um tempo de polarização e desumanização, onde a empatia se torna uma prova de perseverança. Essa visão é potencializada por uma encenação que valoriza o gesto simbólico em detrimento do naturalismo. Uma simples garrafa de chuva ou o vento de um ventilador folheando um livro adquirem densidade e múltiplos significados.
Um dos grandes trunfos da montagem é a geração de uma experiência imersiva. O espetáculo oferece a possibilidade de o testemunha participar da cena de olhos vendados, no que é chamado de “ingresso experiência”. Essa submersão sensorial radicaliza a proposta do romance, colocando o público uma vez que participante ativo da epidemia, sentindo na pele o desamparo e a subordinação do outro.
A paisagem sonora, com direção músico e trilha original de Federico Puppi, executada ao vivo pelo elenco, funciona uma vez que um organização pulsante que dita o ritmo e a atmosfera da encenação. A música não é unicamente um adorno, mas um elemento dramatúrgico que sustenta a tensão, a angústia e os raros momentos de respiro da narrativa.
A cenografia de Marcelo Alvarenga e o figurino de Gilma Oliveira colaboram para a construção de um universo asséptico e opressor, que gradualmente se deteriora junto com as relações humanas. A iluminação, assinada por Rodrigo Marçal e pelo próprio diretor, é precisa ao produzir os contrastes entre a luz excessiva da facciosismo branca e as sombras da quesito humana que ela revela.
“(Um) Experimento Sobre a Fanatismo” do Grupo Galpão é um teatro que exige entrega. Com mais de duas horas de duração, a montagem é um mergulho denso e, por vezes, desconfortável naquilo que o ser humano tem de mais primitivo e, paradoxalmente, na sua capacidade de encontrar humanidade em meio ao caos. Ao final, a sensação é de ter sobrevivido a uma experiência que reafirma o valor do encontro, da escuta e, sobretudo, do ato de ver.
Três perguntas para…
…Rodrigo Portella
O que no romance “Experimento sobre a Fanatismo” de José Saramago mais lhe atraiu para transformá-lo em uma peça de teatro, e que aspectos da história você sentiu que eram urgentes para se dialogar com o público hoje?
O que mais me atraiu foram os muitos temas que dialogam com a atualidade. Mas se eu pudesse ressaltar um elemento, seria a relação entre o individual e o coletivo.
Li o romance em 1999, perto da viradela do milênio, quando tínhamos uma expectativa muito dissemelhante de horizonte. Havia uma perspectiva mais coletiva, que contrasta profundamente com o que vivemos hoje. Não tínhamos vivido a pandemia, essa polarização ou a suspeição nas instituições uma vez que agora.
Quando li o romance naquela era, apesar de toda sua crueza e violência, enxerguei nele uma perspectiva de insurgência do coletivo. Agora, ao retomar a obra para o teatro, meu libido é tentar restaurar um pouco daquele sentimento, porque Saramago cria uma distopia justamente para nos mostrar que a saída para a dor do mundo está no encontro com o outro. É esse siso de coletividade que cada vez nos falta mais, e isso para mim é muito importante.
A peça deixa os mecanismos do teatro bastante expostos, com atores manipulando luz e cenário. Uma vez que essa escolha estética dialoga com o tema mediano da facciosismo e da percepção?
Essa escolha estética de deixar os mecanismos do teatro expostos dialoga com o tema da facciosismo de duas formas fundamentais.
Primeiro, funciona uma vez que uma metáfora direta da proposta do Saramago. Ao revelar o que normalmente está oculto –os cabos, as lâmpadas, os atores operando a cena– estamos praticando esse “ver além” que a obra propõe. Assim uma vez que o romance nos convida a questionar o que está por trás das aparências, a encenação revela seus próprios processos de construção. É uma semelhança potente com nosso tempo: recebemos informações sempre, mas raramente nos perguntamos sobre o que há por trás delas.
Segundo, essa opção reflete minha concepção do teatro uma vez que arte da imaginação. Dissemelhante do cinema, que constrói uma verdade completa para o testemunha, o teatro –uma vez que a literatura– acontece na mente de quem observa. Ao não esconder os mecanismos, estabelecemos um pacto com o público: nós sugerimos, mas é cada testemunha quem constrói seu próprio manicômio, sua própria quarentena. Os atores, ao interpretarem múltiplos personagens sem transformações radicais, mantêm sua identidade para que o público complete a geração. Essa experiência coletiva mas individualizada ecoa profundamente o que Saramago propõe: enxergar requer participação ativa, requer o manobra manente de imaginar o outro.
A opção de oferecer uma experiência imersiva com vendas nos olhos para segmento do público é bastante ousada. O que você espera que essa vivência sensorial dissemelhante provoque no testemunha?
A opção pela experiência imersiva com vendas nos olhos vai muito além do sensorial. Meu objetivo mediano é transfixar espaço para o coletivo, dissolver essa fronteira entre palco e plateia, que serve uma vez que metáfora para todas as fronteiras que erguemos hoje, não unicamente territoriais ou culturais, mas principalmente as ideológicas.
Tenho um libido genuíno de trazer o público para dentro da experiência, criando um espaço generalidade onde até mesmo quem permanece na plateia se sinta representado dentro da história, segmento integrante da fábula e do jogo cênico.
Na prática, simples, a experiência sensorial esteve presente durante todo o processo – investimos bastante na sonoridade e na visualidade do espetáculo. Mas, honestamente, o paisagem sensorial é o que menos me interessa. O que verdadeiramente me move é essa possibilidade de irmandade, esse encontro entre palco e plateia. Isso, para mim, é o ponto mediano e mais significativo da proposta.
Teatro Carlos Gomes – terreiro Tiradentes s/nº – Núcleo, Rio de Janeiro. Qua. a sex., 19h; sáb. e dom., 17h. Até 14/9. Duração: 140 minutos. A partir de R$ 17 (meia-entrada / ingresso promocional). Ingresso experiência: R$ 40 (meia-entrada) em ingressosriocultura.com.br
