Romance de julia codo resgata ossadas da vala de perus

Romance de Julia Codo resgata ossadas da vala de Perus – 10/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Quando a protagonista do livro “Caderno de Ossos”, primeiro romance de Julia Codo, visitante o Meio de Antropologia e Arqueologia Judiciario da Universidade Federalista de São Paulo, ela olha acanhada para os ossos dispostos em mesas cobertas por mantos azuis.

Eram seres humanos “excessivamente nus, despidos de mesocarpo e pele”, e todos muito semelhantes em suas versões esqueletizadas. Na parede ao lado, retratos em preto e branco identificavam quem eles provavelmente tinham sido. Rostos que se recusavam a ser esquecidos, escreve a autora.

As ossadas descobertas em 1990 na vala clandestina de Perus, no cemitério Dom Bosco, na zona setentrião de São Paulo, são 1.049 e teriam sido enterradas ali nos anos 1970.

Entre elas, 41 seriam de opositores da ditadura militar mortos nos porões do regime. São pessoas que simplesmente desapareceram naquele período, assim porquê a tia Eva, que a personagem do romance conhece unicamente pelos retratos e diários.

Memória e esquecimento, ficção e verdade se tensionam e se entrelaçam na obra. Conhecida pelo livro de contos “Você Não Vai Expressar Zero”, lançado em 2021 pela editora Nós, Codo reúne elementos de sua história familiar e da história do Brasil para edificar uma narrativa ficcional tão verossímil que fez muita gente encontrar que se tratava de mais uma obra do gênero da voga, a autoficção.

A protagonista é uma mulher jovem que deixa a Inglaterra e o marido para retornar ao Brasil e encarar os primeiros anos do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, a doença que degenera o avô querido e as lembranças da puerícia na vivenda, agora decadente, da família, que serve de cenário para acontecimentos de ontem e de hoje.

“Acho normal a curiosidade das pessoas em saber se a história de um romance é baseada ou não na vida do responsável. Uma vez que meu livro trabalha com muitos acontecimentos reais, existe uma tendência a encontrar que a história da personagem e de Eva também existiram”, diz a escritora. “São personagens fictícias, mas que simbolizam a história de muitas famílias.”

“Caderno de Ossos” simboliza centenas de famílias que tiveram qualquer integrante recluso, torturado, morto ou perdido durante a ditadura. Dialoga também com a história retratada no premiado “Ainda Estou Cá”, que narra o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva durante a ditadura. De certa forma, o livro também simboliza a própria família da autora.

Nascida em 1983 de pais e tios que integraram o MR-8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que participou da luta armada contra a ditadura, Codo cresceu ouvindo relatos da resistência ao regime militar. “Parecia uma coisa muito aventuresca e fantástica. Todos foram detidos, mas já quando o regime estava um pouco menos violento, e não existe nenhuma história trágica porquê a que eu narrativa no livro.”

De tão presentes, esses relatos inspiraram as brincadeiras de párvulo de Codo com as primas, em outra cena que sua ficção tomou emprestada da verdade. “Eu realmente brincava de ditadura com minhas primas. Era porquê trebelhar de mocinho e bandido, ou um pouco assim”, lembra ela.

Em “Caderno de Ossos”, no entanto, o desaparecimento de Eva é um grande tabu familiar. Ao encontrar cadernos da tia perdidos em gavetas esquecidas da vivenda, a protagonista fica obcecada pela parente enquanto acompanha o noticiário sobre a polarização do país e a exaltação da ditadura por lideranças políticas.

Para isso, Codo lança mão de uma narrativa fragmentada que intercala sonhos, lembranças da puerícia, notícias do momento, histórias do avô e a procura da protagonista por informações sobre Eva.

“Eu queria fazer uma história em pedacinhos, em fragmentos, que fossem se unindo para constituir um sentido maior, porquê um quebra-cabeça”, afirma a autora, num diálogo com as ossadas da vala de Perus. “Despedaçadas, elas são objeto de um trabalho de reconhecimento que vai unindo cada segmento para constituir um tipo.”

Codo pretende patentear os efeitos dessa tragédia nos envolvidos. “É um treino de alteridade. Entrar em outra pessoa e pensar porquê seria se eu tivesse perdido alguém, nessa situação de ter de mourejar com uma carência eterna sem sequer ter tido um momento de luto, de elaboração da perda de alguém.”

A autora vai além da esfera privada de Eva e procura investigar também os efeitos do período no Brasil da redemocratização, num momento em que decisões de ministros do Supremo Tribunal Federalista sobre casos ligados aos crimes cometidos durante a ditadura avançam no sentido contrário ao da anistia.

“Crimes contra a humanidade cometidos por agentes de Estado, porquê sequestro, estupro e ocultação de defunto, não deveriam ser passíveis de anistia nunca”, afirma Codo. “E não punir quem cometeu esses atos tão graves em nome do Estado é um invitação para que coisas assim continuem acontecendo.”

Folha

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