O documentário “O Engraxate que Escalou o Everest”, que conta a história de Rosier Alexandre, 58, estreia nesta quinta-feira (10) no Meato OFF. A obra levou o prêmio de Melhor Longa-Metragem Pátrio no Festival Internacional YVY, em Teresópolis (RJ) e o Troféu Corcovado de Melhor Filme pelo júri popular no Rio Mountain Festival. O documentário narra a trajetória de um menino que nasceu e cresceu numa morada de taipa no sertão cearense, e se tornou o primeiro nordestino a inferir o cume da serra mais subida do mundo.
Filmado em quatro países e três continentes, o filme combina depoimentos de nomes do montanhismo mundial com imagens de expedições realizadas em condições extremas.
“Nasci em meio à escassez, na caatinga sertaneja, acreditando que o trabalho poderia me levar para uma vida dissemelhante”, diz Alexandre. “Mas nunca imaginei que chegaria tão longe a ponto de minha história virar um filme”.
E, porquê a história é boa, a poste foi ouvir o que Alexandre tem a racontar.
O que levou o menino de Monsenhor Tabosa, no Ceará, a deliberar ir para o Everest?
Eu tinha 9 anos de idade, morava num lugar longe, sedento, com muita miséria. Um dia, um médico da cidade que tinha morado na Europa levou um boche para visitar minha cidade. Aquele momento foi porquê ver um extraterrestre. Eu sou indígena, minha mãe é indígena, todos eram assim por lá. Aí apareceu na minha frente aquele rostro branquinho, de olho azul, cabelo encaracoladinho, só podia ser um extraterrestre. Eu o ouvia conversando com o médico e perguntei por que ele não sabia falar…
Ele não falava português.
Não, o médico me explicou que o que ele falava era outro linguagem. Eu não sabia o que era linguagem. Explicou que era o que pessoas de outros países falavam. Eu não sabia o que eram países. Aí explicou que a Terreno, redonda porquê uma globo de futebol, tinha vários países. Aquilo foi uma pancada na minha cabeça, eu acreditava que a Terreno era plana, imagine, era um terraplanista de 9 anos no interno do nordeste, para quem o sol girava ao volta de Monsenhor Tabosa. Quando o médico foi me dando aquela lição de geografia, eu ainda duvidei, me perguntava porquê as pessoas não caíam da secção de insignificante da globo. Aquela chave que virou e me fez entender o tal mundo rotundo, fez nascer minha paixão. Em todos os meus escritórios e cômodos da minha morada, hoje, tenho um orbe terrestre. E mesmo sem saber o que era um propósito, naquele dia eu estabeleci um propósito para minha vida: viajar para saber tudo aquilo.
Porquê foi pular do terraplanismo ao cume do Everest?
Logo… Aos 16 anos, fui estudar em Fortaleza, no curso de técnico agrícola. Até entrei na faculdade, mas tive que parar para trabalhar. Só com mais de 30 anos fiz faculdade de governo. Mas, aos 28, eu estava quebrado, devendo um monte de quantia, emocionalmente concluído e tirei da manga aquele projeto do menininho de 9 anos que queria viajar o mundo inteiro. Resolvi que realizaria o sonho maluco de escalar os sete cumes mais altos, um de cada continente. Passei mais de cinco anos estudando, lendo, aprendendo a escalar, até que, em 2002, chamei a prensa cearense para anunciar que os escalaria. O jornalista duvidou, achou que era maluquice, nenhum nordestino tinha feito isso… mas eu não queria desistir de meu sonho e não queria um sonho pequeno.
Você fez os sete cumes?
Não, nem vou fazer, a prioridade agora é a família. Eu trabalhava dois turnos e, no terceiro vez, procurava embaixada, licença de escalada, parceiro para dividir o dispêndio da expedição, enfim, tempo para família eu não tinha. Logo, não, não vou fazer os sete cumes. Mas o Everest eu subi.
E porquê foi isso?
A serra não me quis nem na primeira, nem na segunda tentativa de chegar ao cume. A primeira foi em 2014, quando uma geleira se rompeu e matou 16 pessoas, incluindo três colegas meus. O governo nepalês fechou a serra e mandou todo mundo de volta para morada. Na segunda, em 2015, houve o maior terremoto em 85 anos, que deixou mais de 12 milénio mortos no Nepal, 19 deles só no campo-base do Everest.
E, apesar de tudo, você insistiu.
Pois é, voltei mais uma vez para o Brasil com essa frustração no coração. E aí, toda reportagem que saía comigo o pessoal se perguntava: será que esse maluco vai ter coragem de voltar? Acabei ficando recluso um bom tempo, me recusava a falar com jornalistas, havia comentários muito cruéis. Mas insisti no meu projeto e, em 2016, viabilizei uma novidade expedição e cheguei ao cume no dia 21 de maio daquele ano.
E porquê sua história chegou ao cinema?
Fazer o filme foi muito mais difícil, foi um novo Everest. Depois que voltei de lá, algumas empresas me procuraram para fazer um filme, mas todos queriam fazer ficção, o que eu não queria. Aquela era a minha história! O tempo foi passando e um dia, vendo um filme do diretor Ian Ruas sobre o Oswaldo Montenegro, achei lícito a forma porquê ele contava a história e mandei uma mensagem para ele. Conversamos, ele gostou da proposta e me mandou um orçamento que eu não tinha porquê bancar. Ele gostou tanto do projeto que disse que tiraria o dispêndio de todo o equipamento, que só precisaria remunerar os custos diretos de equipe. Aí começamos a filmar, fomos à Bolívia, aos Estados Unidos, ao Nepal, entrevistamos alguns dos melhores montanhistas da atualidade, colegas de escola, professora da minha puerícia, enfim, acabou ficando muito melhor do que eu tinha imaginado.
Vocês ganharam vários prêmios, não?
Pois é, fomos selecionados para quatro festivais vencemos dois, sendo o Rio Mountain Festival e o Festival de Teresópolis, 100% bancado do meu bolso, até agora estou pagando para cada exibição, pela divulgação, tudo. Mas ficou muito bonito.
Serviço
- O que é: “O Engraxate que Escalou o Everest”
- Quem: direção de Ian Ruas, música de Oswaldo Montenegro
- Onde: no meio OFF, estreia nesta quinta (10) às 23h, com reprise na sexta (11) às 17h e no sábado (12) às 15h
- E mais: a partir do dia 11, a produção estará disponível no Globoplay
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