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Salvo por Senna, Érik Comas enfim sorri ao recordar ídolo
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Salvo por Senna, Érik Comas enfim sorri ao recordar ídolo – 06/11/2026 – Esporte

Há 34 anos, em agosto de 1992, já consagrado uma vez que tricampeão mundial de Fórmula 1, Ayrton Senna participava dos treinos livres para o GP da Bélgica quando o gálico Érik Comas sofreu um grave acidente no rotação de Spa-Francorchamps.

O brasiliano não hesitou em saltar de sua McLaren para passar em direção a Comas, que estava desacordado a bordo de uma Ligier atravessada no meio da pista. Senna desligou o motor do monoposto, que continuava em aceleração, ainda referto de combustível. Em seguida, ajoelhou-se ao lado do cockpit e sustentou a cabeça do gálico, mantendo-a na posição adequada até a chegada da equipe de resgate.

Passadas mais de três décadas do incidente, Comas fala com bastante emoção e carinho ao recordar o gesto daquele que já era seu grande ídolo no automobilismo. Ele já foi atoardado pelas memórias, sobretudo posteriormente a morte de Senna, porém hoje consegue sorrir ao tratar do tema.

“Para minha sorte, Ayrton parou. Perdi a consciência quando a roda vanguarda se soltou e atingiu minha cabeça”, afirmou Comas à Folha.

“Uma coisa é certa: se ele não tivesse parado —e foi ele quem parou—, provavelmente não teria sobrevivido. Levaria mais uns dois minutos para os fiscais chegarem. Eles só se aproximavam quando todos os outros já estavam nos boxes. Portanto, o vestuário de ele ter parado foi realmente decisivo. Na estação, os carros levavam muito combustível, 180 litros, e os tubos de chuva e óleo já estavam rompidos. Até o sege pegar incêndio ou explodir, faltava muito pouco…”, acrescentou o gálico de 63 anos.

Comas afirmou que sua assombro pelo piloto brasiliano havia começado oito anos antes, quando esteve em Monte Carlo e acompanhou uma das grandes apresentações de Senna na chuva, no GP de Mônaco —largou em 13º, com a Toleman, e terminou em segundo.

Depois, em 1990, quando o piloto gálico se sagrou vencedor mundial de Fórmula 3000 e Senna foi bicampeão de Fórmula 1, o brasiliano foi o único piloto da principal categoria a parabenizá-lo por sua conquista.

“O piloto que eu tinha visto passar seis anos antes em Monte Carlo, e que desde aquele dia era meu herói, meu ídolo, veio proferir que admirava o trabalho e o desempenho que eu havia apresentado na Fórmula 3000. Para mim, foi uma conversa curta, mas muito emocionante.”

Comas acrescentou que a reverência que tinha por Senna o impediu de buscar uma relação de maior proximidade.

“Ele era meu ídolo, e eu sentia tanta assombro e reverência que isso me fez estabelecer certos limites que nunca ultrapassaria. Nunca o incomodaria por pouca coisa. Ele nunca tinha tempo, porque era muito procurado pela prensa, pela equipe, pelos fotógrafos e pelos fãs. Nunca acrescentaria mais uma nascente de estresse”, afirmou.

Segundo ele, um encontro estava marcado para Londres, em 1994, logo posteriormente o GP de San Marino, em Ímola —aquele em que Ayrton Senna sofreu o acidente trágico, em 1º de maio.

“Seria a única vez em que nos encontraríamos fora de um autódromo, mas isso nunca aconteceu”, recordou Comas. O tópico da conversa seria o risco crescente corrido pelos pilotos e a urgência de carros mais seguros.

Comas também participou do GP na Itália em 1994, a bordo da Larrousse, e chegou a parar o sege próximo ao acidente na curva Tamburello, na tentativa de ajudar no socorro, mas foi impedido pelos fiscais de aproximar-se.

“Eu estava lá e não fui capaz de salvá-lo. Foi um pouco muito doloroso de assimilar. Nunca consegui admitir. Muitas vezes me perguntei por que o rumo me colocou ali para ver morrer o varão que eu mais amava, aquele que salvou minha vida. Era uma pergunta permanente em minha mente, que tentava responder”, disse.

Aquele foi o termo de semana mais trágico da história da Fórmula 1. Rubens Barrichello já havia sofrido um acidente impressionante nos treinos de sexta-feira, do qual escapou com unicamente uma fratura no nariz. No sábado, o austríaco Roland Ratzenberger morreu durante o treino classificatório.

O gálico afirmou que, naquele dia, decidiu que não seguiria na categoria ao termo da temporada. Ele entendeu que o risco a que estava exposto, ainda mais dirigindo carros pouco competitivos, deixou de fazer sentido.

Em 1995, em procura de novos ares, mudou-se para o Japão, onde permaneceu por mais de uma dezena e foi bicampeão da competição de carros de turismo GT500.

“Não conseguia falar muito sobre o traumatismo que sofri quando Ayrton morreu diante de mim. Não aguentava mais, precisava fugir. Era um novo mundo, novas pessoas, um novo país. Foi uma lufada de ar fresco. Para mim, o Japão é uma terreno de renascimento, porque nunca mais fui o mesmo depois de 1º de maio de 1994”, afirmou Comas.

Segundo ele, foram necessárias três décadas até que, há poucos anos, ele finalmente conseguisse enxergar além unicamente dos aspectos negativos relacionados a essas memórias.

“Mudei minha maneira de pensar, deixando de olhar unicamente para a perda. Agora, tento transformar isso em uma reflexão mais positiva sobre o privilégio que tive de conhecê-lo, de estar lá quando ele estava em Monte Carlo. Ele salvou minha vida. Portanto, hoje, no termo das contas, transformei em um pouco positivo, no privilégio de ter estado ao lado dele algumas vezes na vida.”

Folha

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