Sambas de Paulinho da Viola acompanham memórias felizes – 04/06/2026 – Djamila Ribeiro
No coche, ouvindo “Meu Mundo É Hoje”, do gênio Wilson Baptista, inconfundível na voz de Paulinho da Viola, tive a teoria desta pilastra. Era termo de noite e o trânsito se arrastava na saída do aeroporto de Guarulhos para vivenda, depois de nove meses longe do Brasil. Contemplativa, dentro do coche o tempo tinha outra velocidade, a mesma de um samba que não envelhece, que anda com o vagar de quem já aprendeu que a pressa é inimiga da ritmo.
“Eu sou assim, assim morrerei um dia/ não levarei arrependimentos, nem o peso da hipocrisia/ tenho pena daqueles que se agacham até o pavimento/ enganando a si mesmo por quantia ou posição / nunca tomei segmento desse enorme batalhão/ pois sei que além de flores zero mais vai no caixão.”
Meu pai, que tinha essa música porquê lema de vida, foi estivador do porto de Santos. Ali, no apartamento térreo do Conduto 5, o samba entrava com a maré e não saía mais. Ele tinha uma coleção única de vinis, que começava a esquentar o som pela manhã e ia noite adentro. Com seu reco-reco, tirava sarro de que era sambista, arriscava passos desengonçados e tentava fazer seu partido sobranceiro, levando a mim, minha mãe e meus irmãos às gargalhadas. Os clássicos sambas de Paulinho são companhia dessas memórias felizes.
Já em outros momentos, meu pai ouvia seus vinis sozinho na sala com a luz apagada, mergulhado em alguma memorandum distante que não sabíamos qual era. Paulinho, ali, também era companhia.
Trinta anos depois, quis o sorte que eu, filha daquele estivador, tivesse a honra de receber o artista no palco do Pina Ball, o dança da Pinacoteca. Ele chegou com o violão e nós ficamos um tanto tímidos. Ele, pela simplicidade que acompanha a realeza. Eu, por ser fã demais. Sentado num banquinho, Paulinho cantou e o povo do salão dançou e ouviu seus clássicos que atravessam décadas: “Coração Leviano”, “Timoneiro” e tantas canções que ele compôs e gravou, ou que visitou de outros compositores.
Fruto de Benedicto Cesar, violonista do lendário Quadra de Ouro, e de Paulina Batista, cuidadora de pessoas com necessidades especiais e jogadora de futebol, Paulinho é fruto de peixe: um menino que brincava com violão e futebol de botões; que sonhava em jogar globo e trovar.
Na sala de vivenda, sentado aos pés do pai, acompanhou a visitante de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Tia Amélia e tantos outros que construíram a música brasileira. O pranto, o samba, o partido sobranceiro eram o ar que se respirava. O sorte de estar junto a gigantes da ancestralidade brasileira o acompanhou durante a vida, porquê quando subiu aos palcos durante anos com Clementina de Jesus, a rainha Quelé, a quem segue homenageando até os dias de hoje, ecoando o esquina dos ancestrais.
Logo moço, Paulinho começou a viver da música. No Zicartola, recebeu seu primeiro cachê das mãos do próprio rabi Cartola, voz imemorial da Estação Primeira de Mangueira — escola para a qual compôs, em 1968, junto ao camarada Hermínio Bello de Roble, o samba “Sei Lá Mangueira” —hino cantado desde portanto e que continuará sendo entoado enquanto a virente e rosa viver.
Mas é na Portela que mora o coração de Paulinho. Imagine: só os grandes da história podem conceber hinos para escolas diferentes. E Paulinho fez, honrando sua missão de vida junto à grémio de Oswaldo Cruz. Era uma responsabilidade e tanto, pois, depois daquela cantiga para a Mangueira, o hino para a Portela haveria de ser histórico. Esse dilema —que para ele deve ter sido angustiante— tornou-se um presente para nós quando do lançamento, em 1970, da música que trouxe a alvorada para a majestade do samba. “Foi um Rio que Passou em Minha Vida” mexe com nossos corações até hoje, um sucesso de dez em cada dez rodas de samba.
Entre o paixão pela música e por sua família, entre o tamborim e a globo, Paulinho também dedicou sua vida a uma grande paixão: o Clube de Regatas Vasco da Gama, time de futebol que faz inveja a todos os outros por ter sido pioneiro na luta antirracista no esporte e também por narrar com um dos mais ilustres torcedores. Paulinho da Viola um dia foi fã do goleiro Barbosa, do atacante Ademir Menezes e de craques dos anos 1950 e 1960. Foi fã e camarada de Roberto Dinamite e de tantos que vestiram a camisa do Vasco. A arquibancada e a roda de samba se encontram no mesmo pavimento: o da reverência, prática geral a quem, no nosso povo, carrega uma grinalda.
A propósito, onde quer que esteja, dedico oriente texto a meu pai, um de seus maiores fãs. Seja ao voltar para vivenda, seja ao vincular a vitrola numa tarde de domingo, a música de Paulinho o traz de volta. Volta a maré, volta o porto, volta o amplexo. É por esses momentos que, além de pasmo, sinto por esse gênio da música brasileira uma imensa gratidão. Vida longa a nosso rabi Paulinho da Viola!
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