A boa série “Emergência Radioativa”, da Netflix, vem conseguindo bastante repercussão neste mês. Ela aborda o tenebroso acidente radioativo ocorrido em Goiânia. A contaminação começou em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia foi encontrado dentro de uma clínica abandonada, no meio da capital de Goiás. Ao ser franco num ferro velho, causou o maior acidente radioativo do mundo fora de uma usina nuclear.
A série dirigida por Fernando Coimbra tem muitas qualidades e supera em muito a outra produção audiovisual mais famosa sobre o incidente, o filme “Césio 137: o pesadelo de Goiânia”, filmado por Roberto Pires em 1990. Diante do sucesso da novidade produção, a internet se mobilizou mais em discutir sobre o suposto lugar de fala dos produtores da série do que sobre a estética do resultado final. Em nosso tempo parece que nos tornamos monotemáticos do lugar de fala.
Por que a série não foi filmada em Goiânia? Por que não empregar atores e produtores locais? Por que reproduzir em estúdio cenas que poderiam ser filmadas localmente? O sotaque é leal ao modo de falar goiano? Enfim, não é só o Nordeste que reclama da estereotipação linguística sudestina.
Hoje em dia, o excitação lugar parece ser requisito final para avaliação das produções. Esse fenômeno aconteceu recentemente com o filme “O Agente Secreto”, completamente rodado em Pernambuco. Em Recife, virou obrigatório gostar e tutelar o filme de Kleber Mendonça Rebento a qualquer dispêndio. Amigos goianos me relataram que em Goiânia acontece o oposto: virou “proibido” gostar da série. E quase zero se discute para além do lugar de fala.
Goiânia poderia ser mostrada na tela? De vestuário poderia, mas a cidade mudou bastante de lá pra cá. A principiar pelo Estádio Olímpico, cujas reformas modernizantes transformaram completamente. Senti falta do Palácio das Esmeraldas, sede do poder estatal e cenário frequente na série, sem nenhuma referência ao original.
No caso de “Emergência Radioativa”, a escolha de se filmar em São Paulo foi acertada? Aparentemente sim, finalmente os produtores da série escolheram muito muito os lugares substitutos, mantendo o padrão de meio e periferia das cidades brasileiras, que não são assim tão diferentes em cidades modernas porquê São Paulo e Goiânia.
Um roteiro muito atado, boas atuações e promiscuidade de referências cinematográficas sempre dão bons resultados. Em “Emergência Radioativa” labareda a atenção a boa construção dos personagens atingidos pela radiação. Eles não são retratados exclusivamente porquê figuras passivas, porquê meros alvos do acidente. São personagens de vestuário, com comportamentos distintos diante da tragédia. Suas ignorâncias, às vezes amplificadas em outras narrativas, não são retratadas porquê fruto de sua requisito social, mas porquê uma verdade de todos nós brasileiros, que nunca tínhamos vivido alguma coisa semelhante.
Curioso é que a reclamação dos goianos tenha porquê escopo os produtores paulistas da série, mas nunca seus conterrâneos de Goiás. Até hoje não há em Goiânia um museu ou memorial sobre o maior acidente radioativo do mundo. Alguém pode se perguntar: mas por que um povo deveria se associar a tamanho evento traumático? Ora, pretérito o traumatismo, é chegado o momento de rememorar a tragédia para que alguma coisa assim não ocorra de novo.
Goiás tem grandes lacunas em relação à institucionalização da memória. A capital do estado é nacionalmente reconhecida porquê a capital da música sertaneja no Brasil. E tampouco há um museu do gênero músico mais popular do país, lugar de memória que poderia ajudar a estimular o turismo regional e vernáculo.
Ainda que a música sertaneja seja associada à direita, não há pacto capaz de cristalizar uma homenagem. Os governos estadual, nas mãos de Ronaldo Caiado (PSD), e municipal, com Sandro Mabel (União Brasil), não conseguem viabilizar o reconhecimento à música que supostamente é a de seu público sufragista. Parece que a música sertaneja é radioativa aos governantes de fanfarronada, que na prática pouco fazem pela preservação da cultura em sua própria região.
Já houve discussões sobre a geração de um memorial do incidente de Césio 137 na Câmara lugar. Mas depois de quase 40 anos do incidente, zero foi construído. Aí não adianta chorar quando olhares externos dão suas versões sobre o ocorrido. Se o próprio povo não se mostra ativo em recontar sua própria história, outros irão contá-la.
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