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Simplicidade supera excessos na semana de moda de Paris
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Simplicidade supera excessos na semana de moda de Paris – 30/06/2026 – Ilustrada

Uma instalação de névoa, uma vaga de quase dez metros de fundura, picolés e leques abanando nas primeiras filas. Tudo vale para amenizar o calor escaldante —quase insuportável— que tomou conta de Paris nos dias que sucederam o solstício e mar caram a temporada de verão 2027 de tendência masculina francesa, concluída neste domingo (28).

A mensagem da estação, entretanto, não estava em uma leitura tradicional dos códigos de verão. A simplicidade, entendida uma vez que um manobra de refinamento —um olhar para a tradição capaz de oferecer um contraponto à veras—, eleva o vestuário masculino supra do prosaico por encontrar força no domínio do principal.

Em outras palavras, a forma de abotoar uma camisa ou um casaco interessa mais do que qualquer cenografia grandiosa. Um pouco que, posteriormente a era Karl Lagerfeld, marcada por sua preocupação por cenários apoteóticos, se tornou um tanto anacrônica.

Na Saint Laurent, Anthony Vaccarello entendeu que não precisa se render ao histrionismo. Depurar, por fim, é um manobra rudimentar para erigir a imagem da Saint Laurent hoje. Mais limpa, misteriosa e contida, a coleção surge e desaparece entre a neblina da “Cloud #07156”, instalação imersiva de Fujiko Nakaya, na Rotunda da Bourse de Commerce.

Os rapazes são palimpsestos ambulantes, carregando uma imagem construída —e desconstruída— pelo estilista ao longo de sua primeira dez na maison. Há uma ironia nisso, a sensação de que ele sempre esteve ali, uma vez que único sucessor verosímil do fundador.

A sedução de sua alfaiataria é a pilar vertebral da coleção. Mesmo distendido e de aspecto sisuda, o blazer de três botões, essencialmente, convida à cerimônia do desabotoar. Na maioria dos looks, ele está recluso somente pelo primeiro.

Alguns deles, que lembram joias, recontam o incidente em que Tina Chow –amiga de Yves Saint Laurent– certa vez usou um brinco uma vez que fecho de casaco. Vaccarello, inteligentemente, ofereceu sua perspectiva sobre a narrativa.

Há também calças de pregas e cós altíssimo, numa construção quase antiquada. Num piscar de olhos, elas se tornam soberbamente elegantes —ou desaparecem, deixando os modelos somente de cuecas, suéteres de decote V e casacos.

As calças voltam a contracenar com casacos esportivos, feitos com tafetá, por plebeu da cintura ajustada, assim uma vez que malhas caneladas justíssimas, usadas com os sapatos translúcidos brilhantes que parecem ser esculpidos. O uso e o sobretudo, mesmo dourados, não ofuscam a serenidade do guarda-roupa em tons esfumaçados.

As lentes enevoadas de Julian Klausner tornaram o desfile da Dries van Noten um refresco para o público –apesar dos picolés servidos serem o item mais gelado do Tennis Club de Paris. Ainda que leveza e delicadeza não pareçam características muito revolucionárias em uma coleção de verão, ele sabe inverter essa lógica.

Inspirado no poema “A Tarde de um Fauno”, de Stéphane Mallarmé, publicado em 1876, o diretor criativo construiu uma coleção vista por um olhar recém-desperto de uma soneca ao ar livre. Não é por possibilidade que seus modelos parecem ter acordado e entrado na passarela.

As diferentes camadas de masculinidade e feminilidade coexistem sem jerarquia, uma vez que propõe a silabário da grife. Uma parka pode ser confeccionada em seda pongé lavada e uma jaqueta típica de caça pode ter sua silhueta marcada por um cinto de gorgorão —e as pernas podem permanecer à mostra, com shorts curtos.

“Essa teoria de sensualidade guiou muitas de nossas escolhas, das cores aos tecidos, transformando peças essenciais do guarda-roupa em roupas de toque macio e intimidade quase tátil”, diz Klausner no texto de apresentação da coleção.

O elefante branco, finalmente, desapareceu da sala da Celine. Para o desfile masculino, Michael Rider não ignorou a imagem do garoto burguês estabelecida por Hedi Slimane, mas a reinterpretou. Os códigos mais reconhecíveis da maison permanecem ali, agora atravessados por um olhar mais pessoal.

A alfaiataria skinny de Slimane permanece viva, mas passa a conviver com calças e casacos de volumes amplos, que remetem aos anos de Phoebe Philo. Fios de correntes douradas, gravatas estampadas desfiadas, coletes desalinhados e jaquetas cropped completam um guarda-roupa escoltado por tênis brancos, botas ou sapatos de epiderme preto macio. Até mesmo a cartela de cores evoca o período de Philo, sugerindo que Rider compreende que não é preciso extinguir a história da Celine para inaugurar um novo capítulo.

Apesar dos antídotos mais variados para “desfossilizar” a tendência masculina serem um esforço quase coletivo na capital parisiense, o que mais surpreende é a Louis Vuitton de Pharrell Williams. E não é a sua vaga de tapume de dez metros de fundura.

O guarda-roupa do dândi que ora surfa, ora atravessa o deserto parece incapaz de evoluir e escoltar a filosofia que a maison construiu nas últimas décadas. Se Marc Jacobs, Kim Jones, Virgil Abloh e Nicolas Ghesquière recorreram a linguagens distintas, todos compartilhavam um compromisso com a construção do libido por meio da inovação —ainda que essa experimentação fosse traduzida em versões mais comerciais para as lojas.

A fragilidade aparece justamente quando Williams permanece leal a uma fórmula estética, ancorada em códigos tradicionais de ostentação —ouro, diamantes e peles exóticas, incluindo crocodilos e raposas.

O contraste ficou mais evidente quando Ghesquière apresentou, em seu desfile de inverno 2026 para a traço feminina, a Savian, pele vegetal desenvolvida pela BioFluff para reproduzir a aspecto de peles nobres.

Williams, em contrapartida, permanece interessado em reafirmar símbolos empoeirados de status. Talvez a boa notícia ainda seja que a Louis Vuitton vai concordar a Coral Gardeners uma vez que secção de seu roteiro de sustentabilidade Regeneration 2030.

Segundo a grife, por servir de inspiração para a coleção, a iniciativa apoiará o plantio de milénio corais e ajudará a restaurar 250 metros quadrados de habitat de recifes neste ano. Um pouco bom em meio a uma coleção menos persuasivo.

Folha

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