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SP: mostra abriu as portas para o cinema mundial
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SP: mostra abriu as portas para o cinema mundial

Em 1992, o jornalista Ubiratan Brasil, o Bira, foi até o Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, para escoltar uma sessão da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Era uma produção estadunidense e o diretor do filme estava na sessão, acompanhando a exibição, mas pouquíssimas pessoas estavam na sala para testemunhar.

Naquele ano, a mostra de cinema chegava à 16ª edição. “Eu fui em uma sessão em um sábado de manhã, ao meio-dia, lá no Masp. Se tinha 16 pessoas era muito. E o diretor do filme estava lá. Antes de principiar o filme, ele elogiou a gente e disse: ‘Obrigado. Lá fora está um sol, é sábado e vocês estão cá dentro vendo o meu filme’”.

Na saída da sessão, o diretor ainda conversou com o público e trocou impressões sobre seu filme, embora ele ainda fosse bastante incógnito pelas pessoas. “Ninguém tinha ouvido falar dele”, contou Bira à Dependência Brasil.

O filme era Cães de Aluguel e o diretor, até portanto um incógnito, era Quentin Tarantino. “Naquele dia a gente conheceu Quentin Tarantino que nunca voltará a ter um filme [exibido] com unicamente 16 pessoas presentes em uma sala. A mostra trazia isso, essas boas surpresas que depois se confirmariam no horizonte”, disse ele.

Neste ano, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chega aos 50 anos de existência. Durante oriente tempo, ela conseguiu exibir 11.692 filmes de 8.474 cineastas de diversos países do mundo. Nomes porquê Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Manoel de Oliveira, Amos Gitai e Jafar Panahi chegaram em São Paulo para participar do festival e apresentar seus filmes.

“Uma vez que muitas pessoas falam, a mostra abriu as portas do cinema mundial para nós, paulistas principalmente. Os cinemas cá passavam só blockbusters, só os americanos. Você nunca tinha a chance de ver um filme chinês, um filme coreano, um filme cubano. E a mostra era realmente uma proeza porque hoje é muito mais fácil, tudo é legendado. Naquela idade, você entrava pra ver um filme indiano com legendas em italiano. Eu não falo italiano, portanto eu ficava mais observando as imagens e tentando entender um pouco da história. Tinha um pouco esse intensidade de proeza e de descobertas, que era muito gostoso”, disse Bira.

História

A primeira Mostra Internacional de Cinema em São Paulo aconteceu em outubro de 1977. Organizada pelo crítico Leon Cakoff, portanto diretor do departamento de cinema do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), a iniciativa integrou as comemorações dos 30 anos de instalação do museu.

Apesar da divulgação limitada e da cobertura discreta da prensa, os 11 dias de exibição atraíram mais de 15 milénio espectadores. Naquela edição foram exibidos 23 filmes de 17 países, entre eles, Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, cuja sessão foi amplamente ovacionada.

Bira passou a escoltar a mostra quando ela entrava em sua 4ª edição. Naquela oportunidade viu unicamente dois filmes, Cidade das Mulheres, de Fellini, e O Tambor, de Volker Schlöndorff. Desde portanto, ela se tornou secção de sua vida cultural, ininterruptamente.

“Aí comecei a entrar nesse ritmo de, todos os anos tirar férias [durante o evento, para aproveitá-lo], porquê muita gente faz até hoje”.

A aposentada Vanda Sanae Hamanaka Serizawa acompanha a mostra desde sua primeira edição. “Apesar de poucos filmes, comparado ao que ela agora se tornou, esta foi uma janela extraordinária para o mundo que não conhecíamos. Aquele era um período de ditadura e tudo era censurado. O Cakoff contornou aquela situação magistralmente e foi aprimorando a mostra a cada ano”, disse ela à reportagem. “Era um portal de alumbramento. Quem experimentava aquela vivência, via de regra, retornava nos próximos anos. Nos primórdios, os filmes eram de perdão”, recordou.

Para ela, que já chegou a testemunhar sete filmes em um mesmo dia durante o evento, a mostra é também “uma usina de ideias”, contribuindo para a formação de profissionais do cinema.

“Vários ‘mostreiros’ [como são chamados os frequentadores do festival] se profissionalizaram porquê diretores ou críticos de cinema. Até o ano 2000, quase não tínhamos entrada à internet. Isso era alguma coisa restrito para a dimensão de tecnologia. Portanto, o diferencial da mostra sempre foram os filmes fora do mainstream [da corrente predominante]. Ela era um via para a gente ter contato com imagens, linguagens e comportamentos de outras paragens e, sobretudo, ter a percepção sátira além da tela”, disse ela.

Outrossim, destacou Vanda, a mostra ajudou a formar novos públicos por meio de suas sessões gratuitas ou que acontecem em periferias e também se transformou em uma grande confraternização, possibilitando o encontro com outros cinéfilos. “Todo ano eu faço questão de fazer um jantar ou almoço [para os amigos cinéfilos]. Mas isso sempre depois da mostra porque durante ninguém quer saber, todo mundo prioriza o cinema. Virou uma confraria de afetos”, falou.

Para Bira, outra grande qualidade desse festival é poder testemunhar a um filme no cinema. “As pessoas estão habituadas a permanecer em lar e ver [filme] em televisão, celular ou tablet. A experiência de ir ao cinema está ficando um pouco rara, as pessoas tão abrindo mão disso. Mas na mostra você tem a chance de saber um filme novo, um cineasta dissemelhante e tudo isso numa sala de cinema”, destacou.

Sem interrupções

Desde que surgiu, a mostra nunca deixou de ser realizada. Nem mesmo entre os anos de pandemia e de fechamentos de salas de cinema, quando ela se reinventou e adotou o modo de exibição online ou de exibição em cinemas drive-in.


Renata de Almeita, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Filho
Renata de Almeita, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Filho

Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Fruto

Teve anos em que ela foi grandiosa, exibindo mais de 460 filmes em uma única edição. E teve anos em que ela aconteceu em formato menor, por dificuldades de patrocínio. Mesmo assim, nunca deixou de viver. “Acho que o sigilo da mostra é que ela é elástica, ela pode ser mega ou enorme, porquê neste ano em que estamos comemorando 50 anos, porquê ela também pode ser pequenininha. Eu acho que a gente tem que saber dançar conforme a música”, disse Renata de Almeida, diretora da Mostra, em entrevista à Dependência Brasil.

Neste ano em que completa 50 edições, a mostra vai exibir 380 filmes de 93 países. E porquê forma de celebração, ela ainda apresentará exposições, shows, debates e lançamentos de uma plataforma de ror e de livros. Entre eles, Antes Que Eu Me Esqueça: Um Experimento de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, escrito por Renata de Almeida. “É um livro sobre as histórias da mostra, mas também sobre a minha vida e sobre as minhas histórias dentro da mostra. É um livro de encontros. Foi também um retrospecto de entender várias coisas que aconteceram com a vida e me revisitar em outras épocas e outras idades”.

Esta sua história com o evento, relembra Renata, teve início em 1989, em sua 13ª edição. “Estou há 37 anos fazendo isso”, diz. “Primeiro começou porquê um trabalho, teve o divertimento e agora é um pouco da minha vida. Tudo junto e misturado, não dá mais nem pra saber o que é uma coisa ou outra”, ressaltou.

 


Fonte EBC

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