A austríaca Elfriede Jelinek, ganhadora do Nobel de Literatura de 2004 e pouco conhecida no Brasil, acaba de lançar cá uma novidade coletânea de peças teatrais: “Elfriede Jelinek: do Texto Impotente ao Teatro Impossível”, pela editora Perspectiva e organizada por Artur Sartori Kon.
Jelinek foi premiada, segundo o Nobel, “por seu fluxo músico de vozes e contravozes em romances e peças que, com inédito zelo linguístico, revelam o contraditório dos clichês da sociedade e seu poder subjugador.” Na Áustria, é chamada de “sujadora de ninho”, insulto reservado a quem fala mal do país. Seu prêmio, admite ela, não é “uma flor para a Áustria colocar na lapela”.
Um de seus grandes temas é a “infinita escassez de culpa” da Áustria, que nunca encarou de frente sua cumplicidade com o nazismo. Seu mira maior, porém, é o capitalismo ocidental: o horror, as perversões, a crueldade que se escondem debaixo da venerando vida burguesa europeia.
A literatura de Jelinek, de um pessimismo sem concessões, nunca foi fácil e se tornou ainda mais difícil em nossos tempos de leituras simplistas. O leitor atual, habituado a procurar por personagens positivos ou por bons modelos de conduta, ou até mesmo por anti-heróis falhos, mas com qualidades redentoras, sairá goro. Jelinek não nos oferece esperanças. Sem nenhum interesse por dramas psicológicos, o que Jelinek parece querer mostrar é uma vez que os seres humanos são determinados por seu envolvente social e discursivo.
Um de seus temas principais é o feminismo, mas um feminismo fundamentado em ódio e animosidade, sem perspectiva de conciliação, onde as mulheres são sempre, ao mesmo tempo, vítimas e cúmplices do patriarcado, tão amorais e bestializadas quanto seus algozes.
Muitos de seus críticos mais incisivos acusam Jelinek de ser pornográfica. Mas o sadismo e o masoquismo em suas obras não são nunca excitantes, atraentes, sedutores.
A personagem título do romance “A Pianista”, seu maior sucesso, se autoflagela cortando a própria pele, visitante locais de sexo furtivo para farejar o sêmen entornado no soalho, pega o bonde lotado carregando enormes instrumentos e sente um prazer compulsivo em usá-los para machucar os outros passageiros. A obra de Jelinek nunca procura o gozo: ela é antipornográfica do prelúdios ao término.
Desde a dezena de 1990, Elfriede Jelinek tem escrito mais para os palcos, uma “literatura antidramática” que pouco tem a ver com a teoria tradicional de drama. É um teatro sem personagens, sem diálogos, sem rubricas dramáticas, sem indicações de tempo ou de espaço, sem nenhum dos marcadores tradicionalmente relacionados a textos dramáticos: sobram unicamente palavras sendo ditas. Mas quem está falando? Nunca se sabe.
Algumas de suas peças, uma vez que “País.das.nuvens”, “As Implicantes” e “Rechnitz (O Querubim Exterminador)”, são formadas por blocos de parágrafos de texto em prosa completamente indistinguíveis de contos. Na verdade, só “sabemos” que são peças teatrais porque a autora assim nos informou.
Jelinek admite que a única diferença está no modo de recepção escolhido por ela: leitura silenciosa para alguns textos, fala coletiva para outros. Seu teatro se caracteriza justamente por tensionar a separação entre prosa e dramaturgia, página e palco.
Tanto vanguardismo teatral certamente não é para todo mundo, e pode se tornar ainda mais estéril quando lido a sedento. A coletânea da editora Perspectiva é uma leitura indispensável para qualquer pessoa que estude ou pratique teatro contemporâneo, e os ensaios de Arthur Sartori Kon, que acompanham as peças, são brilhantes, originais, elucidativos.
Entretanto, para leitores do público universal que unicamente querem saber a autora, a melhor recomendação é entrar em sua obra por seus primeiros romances, escritos na dezena de 1980: “A Pianista” (1983) e “Libido” (1989), publicados pela Tordesilhas em 2011 e 2013 e que muito poderiam ser reeditados, e “Os Excluídos” (1980), que merece uma edição brasileira. Apesar de duríssimos e violentos, são mais convencionais e amigáveis do que a obra recente da autora.
Jelinek, dotada de uma consciência autodestrutiva feroz, expõe a incapacidade da arte de se transmudar em ação política significativa: “escrevo a futilidade da minha própria escrita”.
Autores da negatividade uma vez que ela cumprem a tarefa de impelir a imaginação para um lugar de recusa de todo e qualquer compromisso com a sociedade, abrindo assim caminho para novos futuros possíveis. Jelinek pode ser muitas coisas, mas nunca cúmplice.
