Teatro: Dona Lola critica influencers sem repertório – 02/05/2026 – Mise-en-scène
Imagine uma senhora de 70 e poucos anos que, entre um ponto de crochê e uma receita de família, vira, sem querer, a novidade preocupação de milhões de desconhecidos. Ela não pediu engajamento, nunca estudou algoritmo e, muito menos, sabe o que é uma trend. Mas o mundo inteiro quer um pedaço dela. Nesse novo solo, “Dona Lola”, Marcelo Médici faz uma necropsia afetuosa e ácida sobre o que é envelhecer num mundo que só enxerga o que brilha na tela do celular.
Com 35 anos de curso, transitando entre o drama clássico e a comédia popular, Médici repete a parceria com Ricardo Rathsam, seu companheiro de vida e trabalho, numa empreitada de fôlego. Se em “Cada Um Com Seus Pobrema” o show era na troca rápida de personagens, cá a aposta é na permanência. Durante quase 80 minutos, o público mergulha na vida de Lola: uma dona de mansão inspirada na avó de verdade do ator, mas que vira quase um estudo sociológico. É um retrato sobre a invisibilidade e sobre aquela urgência de validação do dedo que chega de repente, e que pode ser muito perigosa.
A história tem um pouco de paradoxal: empurrada pelo sucesso de um vídeo que a neta Thais gravou, Lola resolve se apresentar num teatro de verdade. O conflito começa quando suas duas melhores amigas, Marli e Olga, que tinham incentivado o show, não aparecem na estreia. O vazio que elas deixam transforma o que seria uma apresentação de variedades numa espécie de “vingança deliciosa”. Sozinha no palco, Lola resolve furar o baú de segredos das amigas ausentes. E ali vêm à tona mazelas, hipocrisias e verdades que desarmam a plateia.
O zelo da produção aparece nos detalhes e em um jogo de vozes certeiro: Tony Ramos e Antonio Fagundes interpretam as amigas que nunca chegam. Ter dois gigantes da dramaturgia no espetáculo não é só um luxo; é um recurso que deixa Lola ainda mais isolada e real no palco. Enquanto ela dança e se movimenta, Médici vai quebrando aquela imagem da “vovozinha” boazinha e previsível. A atuação é construída no pormenor — um jeito de olhar, uma pausa na fala ou um gesto que ele buscou nas mulheres da sua própria família. O resultado é um riso que vem da identificação imediata que só acontece quando a gente reconhece a verdade em cena.
A sátira social é certeira, principalmente quando fala do etarismo e dessa nossa sede por atenção. O espetáculo questiona uma vez que o teatro tem sido ocupado por influenciadores que têm muito engajamento, mas pouco repertório de palco. Lola, ao contrário, tem história.
É um teatro de reparo agudo, herdeiro de uma tradição que vai de Procópio Ferreira a Chico Anysio e Jô Soares, onde o “tipo brasílio” serve para escancarar as contradições da nossa formação social.
Três perguntas para…
… Marcelo Médici
O texto fala em “humor com verdade”, onde o riso vem da densidade dramática, e não do deboche. Uma vez que você equilibra a comédia e o drama para que a plateia ria sem sentir que está rindo da personagem, mas sim com ela?
Essa foi uma grande preocupação nossa, principalmente quando, durante os ensaios, a personagem recebe o nome da minha avó. queríamos relatar um pouco da história daquela senhora, vivendo aquela situação quase trágica, sem tombar nos clichês de piadas sobre vetustez, até porque eu e Ricardo também estamos envelhecendo e mudando muito nosso olhar sobre tudo.
Acho que tudo segmento daí, é portanto chega a Mira Haar com todo seu bom paladar no cenário e principalmente no figurino. Na minha opinião e acredito que na do Ricardo também, Mira deixou a personagem elegante sem perder a teatralidade necessária. ela contribuiu de forma definitiva para que não caíssemos numa caricatura.
A peça faz uma sátira ácida à “sanha por atenção” e ao etarismo. Na sua opinião, o teatro brasílio e a indústria cultural uma vez que um todo ainda têm dificuldade em enxergar pessoas mais velhas uma vez que protagonistas de histórias complexas?
Com toda certeza! Embora não seja meu lugar de fala, isso é mais cruel com mulheres. O mundo está envelhecendo e pessoas mais velhas não estão mais sentadas em mansão fazendo tricô ou na terreiro jogando dominó! Querem consumir tudo: roupas, carros, viagens, bons restaurantes, arte e querem se identificar com tudo isso.
Essa é mais uma parceria sua com Ricardo Rathsam. Uma vez que funciona a dinâmica criativa de vocês dois? Em que momentos um puxa o outro para o risco ou para o zelo?
O tempo todo! Tudo acontece durante os ensaios, a partir de improvisos, e vamos nos complementando com ideias, sempre muito focados na história que queremos relatar, na certeza que o mundo muda o tempo todo, e que aquilo que desejamos fazer nos palcos consiga escoltar esses avanços.
Teatro dos 4 | Shopping Gávea – rua Marquês de São Vicente, 52 (2º piso) – Gávea. Domingo, 17h. Até 17/5. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 70 (meia-entrada) em sympla.com.br
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