Tele Tele: Como é a primeira novela original da plataforma – 09/06/2026 – Ilustrada
O audiovisual é um campo que volta e meia entra em crise, mas que nunca se esgota por completo. E a mais recente inovação dessa extensão, as chamadas novelas verticais, que despontaram no Brasil no ano pretérito, contradizem quem achou que seu sucesso seria queimação de palha —continuam mantendo ainda hoje privativo tração entre os consumidores da geração Z e pessoas mais velhas que consumiam telenovelas, mas que perderam o hábito de ver TV.
Foi nesse formato que o noticiarista Antonio Prata, colunista da Folha, resolveu investir em seu mais novo projeto. “A Boa, a Má e o Marido Gigolô” é um microdrama para ser visto em celulares, em 43 capítulos que não ultrapassam três minutos, e que já pode ser conferido no aplicativo Tele Tele, plataforma lançada na semana passada, voltada para teor audiovisual pequeno.
O app, disponível para Android e iOS, foi criado por Prata e pelo diretor Thiago Teitelroit, e oferece oito capítulos da romance gratuitamente. Aos moldes de outros streamings do gênero, porquê o chinês ReelShort, para liberar os episódios seguintes, o testemunha pode escolher entre comprá-los individualmente (R$ 0,99 ou convidando amigos para subtrair o aplicativo), em pacotes de cinco (R$ 3,99) ou liberar todos de uma vez (no preço promocional de R$ 14,99).
A trama capricha nos elementos melodramáticos típicos das novelas. “Fala de duas irmãs gêmeas, Rayane e Marcele, que trocam de lugar. Uma é uma atriz famosa, e a outra é dura e casada com um moleque”, afirma Prata. “A mãe delas mora com a pobre, que pede ajuda à rica para remunerar remédios. Mas Rayane não quer dar e, durante um desentendimento, cai da escada e morre, o que dá a Marcele a teoria de se passar pela mana, assumindo seu papel para remunerar o tratamento da mãe.”
Sim, já vimos essa romance antes, porquê em “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro, mas que surge em tons ainda mais exacerbados no novo formato. Os capítulos são coescritos pelo também roteirista Chico Mattoso, com direção de Teitelroit.
“Acho que não é tão dissemelhante assim da teledramaturgia que já existe”, diz Prata. “Evidente que você tem desafios —seu público é muito volátil. Você tem que conquistá-lo e ser rápido nisso, não tem tempo para uma introdução longa, porquê em novelas de TV e filmes”, afirma, explicando que as tramas verticais obrigam a direção a sempre pensar em tomadas mais fechadas, que, por sua vez, exigem do roteirista menos personagens em uma cena.
As gêmeas são interpretadas por Vitória Strada, e Daniel Rocha dá vida ao marido manipulador de uma delas. “É um boy muito lixo”, diz o ator, sobre Dênis, seu personagem.
“O melodrama sempre se reinventa em histórias que dão perceptível. Sempre fui um ator de processo, de elaboração, portanto é um pedaço dissemelhante disso. Mas já fiz romance das sete, que se parece um pouco nesse sentido com as verticais, com mais leveza e personagens mais estereotipados”, diz Rocha.
O ator acredita que a subida das verticais não representa uma prenúncio às tramas tradicionais, ou sequer à dramaturgia de outras mídias. “Os filmes nacionais estão bombando lá fora, sobretudo os com um perfil mais ‘cinema de arte’, o que é ótimo. Mas também existe esse outro mercado com interesse nessa produção de internet, de melodramas que priorizam segurar a atenção da pessoa. Há espaço para todos.”
Também no elenco, na pele do mocinho Bruno, Jayme Matarazzo concorda com o colega. “As verticais estão abrindo um novo mercado, gerando mais empregos. Ganhamos todos com essa novidade possibilidade de linguagem.”
“A verdade é que ainda estamos todos aprendendo a fazer”, afirma Matarazzo. “E tem aspectos curiosos para o ator: as cenas são mais intensas, você tem menos tempo para descrever o pretérito de um personagem. E, em exclusivamente questão de segundos, despertar o interesse e tiranizar o testemunha.”
O roteirista Antonio Prata acredita que a linguagem veio para permanecer. “Enquanto o celular for esse gadget em que o mundo está concentrado, vai ter filme na vertical. Depois, se tudo transmigrar para, tipo, um par de óculos, aí também vão surgir novas formas nessa prateleira.”
O Tele Tele também traz em seu catálogo a série de comédia e futebol “Trocados FC”, escrita por Bruno Alcantara, e a juvenil “A Minha Primeira Vez”, de Alessandro Cerqueira.
Mas será que os microdramas tendem a ter duração na formatação com a qual têm sido produzidos atualmente, marcada por um proposital excesso de reviravoltas de trama, histrionismo nas atuações e o pronunciado palato pelo caricatural, com foco privativo em incitar no público comoção, gargalhadas e tensão?
“Não faço teoria”, diz o roteirista, rindo. “Mas acho que a gente vai ver muitos gêneros se desenvolverem na vertical no horizonte —documentário, policial, ‘true delito’, e até nos interessamos em fazer isso também. Mas começamos com romance na Tele Tele porque é o que tem feito sucesso. Acho que a telenovela tradicional não morre: essas coisas se acumulam. Ao contrário, pode até liberar a romance para outros caminhos.”





