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Todo Mundo em Pânico volta testando novos limites do humor
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Todo Mundo em Pânico volta testando novos limites do humor – 03/06/2026 – Ilustrada

Não demorou muito para que o sexto filme da franquia “Todo Mundo em Pânico” causasse polêmica na internet. Na verdade, não foi preciso nem um trailer completo para que a comédia passasse por seu primeiro grande teste, depois um hiato de 13 anos.

Uma cena de poucos segundos num teaser já aborreceu alguns, enquanto deixou outros aliviados por saberem que a saga de comédia não abandonaria suas raízes ao parir um novo volume numa cena cultural desnorteada por polarização e cancelamento nas redes sociais.

Na sequência em questão, o sicário em série da franquia –uma versão atrapalhada e usuária de maconha de Ghostface, de “Pânico”– enfia uma faca numa pessoa no metrô. “Ele esfaqueou ela!”, grita uma passageira. “Ela, não. Meus pronomes são elu e delu. Ele esfaqueou elu!”, responde a vítima, ignorando a dor por alguns segundos.

Dedos foram ligeiros para reclamar em redes uma vez que X e Instagram, dizendo que a fala era de mau palato e fruto de um humor preguiçoso, fundamentado em clichês. Alguns outros, porém, logo lotaram o TikTok com clipes não menos controversos dos longas anteriores. E assim nascia uma campanha de lançamento que, não importa o motivo, capturou a atenção.

“Nós somos democráticos nas nossas ofensas”, diz Marlon Wayans, um dos roteiristas, atores e criadores da franquia, que, vale expor, tem um fruto trans e costuma defender pelos direitos LGBTQIA+.

“Eu não deixo as pessoas ditarem o que é engraçado ou não. Eu história a piada. Não fico implorando para gostarem dela. O problema da geração de hoje é que as redes sociais programam as pessoas para terem sentimentos negativos que nem existem de verdade.”

À troça com pronomes neutros se junta uma miríade de cenas também sensíveis, uma vez que aquela em que um Papai Noel de shopping distribui braços e testículos decepados para criancinhas ou o primeiro diálogo, neste novo filme, das protagonistas Cindy e Brenda.

“Eu gostaria de te abraçar, mas eu sou republicana agora e deveria ser racista”, diz a loira interpretada por Anna Faris. “Para mim todo branco é racista, vem cá”, responde a personagem de Regina Hall, estendendo os braços.

“Nós basicamente ignoramos o clima atual e fizemos o filme mais engraçado que conseguimos”, diz Shawn Wayans, também roteirista, ator e fundador. “Eu nem leio os comentários nas redes, porque a internet transformou as pessoas em fiscais da comédia. Nós só pusemos esses filmes no mundo –se as pessoas curtirem, ótimo. A teoria é zoar todo mundo, nunca um só grupo, assim todos podem se sentir uma merda juntos.”

O amplexo que as personagens de Faris e Hall trocam em cena era aguardado há anos pelos criadores e pelos fãs. A dupla estrelou outros quatro filmes da saga, mas não o mais recente deles, mal recebido e responsável por enterrar “Todo Mundo em Pânico” por mais de uma dez.

Esse hiato veio na esteira do isolamento da família Wayans –composta pelos produtores Marlon, Shawn, Craig e Keenen Ivory, além dos atores Damon, Kim e Gregg– da saga, depois disputas financeiras e divergências criativas com os coprodutores Bob e Harvey Weinstein.

Agora, numa Hollywood em que o último se tornou persona non grata, eles enfim retomaram controle de sua cria. “Quando o Marlon me ligou para avisar que eles haviam restaurado ‘Todo Mundo em Pânico’ eu fiquei emocionada, porque eu não imaginei que voltaria para essa franquia, que definiu a minha vida profissional e pessoal”, diz Faris.

Para ela, que continuou fazendo humor em longas uma vez que “Para Maiores” e “O Ditador”, trabalhar no sexto filme foi uma libertação, um retorno a um tipo de comédia sem tantas restrições. “Essa é uma franquia que, ao ofender todo mundo, dá um pouco de respiro para todos e acaba se conectando com diferentes pessoas e culturas.”

Esse apelo aparentemente universal ainda tem respaldo no espírito de paródia dos filmes. Mais do que uma tentativa de tirar sarro de tudo e de todos, “Todo Mundo em Pânico” tem em seu cerne a proposta de recrear com grandes sucessos do terror. Isso já fica simples no nome deste sexto capítulo –que não carrega o número seis, numa referência à vaga de refilmagens de Hollywood.

Para o novo longa, os Wayans tinham um bufê cinematográfico montado ao longo de 13 anos, numa repleção que tornou difícil o processo de escolha de quem seria parodiado. Entraram no roteiro oscarizados uma vez que “Pecadores” e “A Substância”; sucessos de bilheteria uma vez que “A Hora do Mal” e “M3gan”; indies uma vez que “Midsommar” e “Backrooms” e até séries uma vez que “Wandinha” e “Round 6”.

Assim, o sexto capítulo chega aos cinemas depois mudanças bruscas tanto na comédia, quanto no horror, que ganhou contornos mais psicológicos com uma safra de cineastas que mexeu com as fórmulas do gênero na última dez. Os irmãos Wayans garantem, porém, que a lógica da franquia segue a mesma.

Marlon espera, porém, que o retorno de “Todo Mundo em Pânico” não signifique, também, um retorno das paródias. Nos anos 2000, muitos produtores tentaram replicar o sucesso da franquia em longas uma vez que “Deu a Louca em Hollywood” e “Super-Herói: O Filme” –com resultados em universal medíocres.

“A paródia saiu dos trilhos quando achou que não precisava pensar numa trama, que bastava gerar um monte de esquetes idiotas e aleatórias, sem relação entre si”, diz Marlon. “Eu não penso que precisamos pôr 62 filmes dentro de um, mas que meus personagens têm um caminho a trilhar e, se por contingência esbarrarem em alguma referência, ótimo.”

Por mais que não queiram um retorno do subgênero, os irmãos torcem para que seu “Todo Mundo em Pânico” seja uma exceção e continue vivo em capítulos futuros. No que depender dos fãs brasileiros, eles acreditam, isso não deve ser um problema.

Responsáveis também por outras comédias que ganharam tração entre os espectadores daqui, em versões dubladas com muito tempero brasílico e que foram exibidas aos montes na TV ocasião, uma vez que “As Branquelas”, os Wayans lamentam não terem levado a turnê de divulgação de “Todo Mundo em Pânico” ao país. Eles não descartam, porém, o peso da base de fãs virente e amarela.

“Eu sei que vocês no Brasil ficam vendo os clipes dos filmes nas redes sociais, mas saiam de mansão e vão ao cinema. Rir no celular é uma coisa, rir numa sala enxurrada é outra completamente dissemelhante”, brinca Marlon.

Folha

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