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Tony Bellotto dará aula sobre câncer de pâncreas a médicos
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Tony Bellotto dará aula sobre câncer de pâncreas a médicos – 04/11/2026 – Equilíbrio e Saúde

O músico e repórter Tony Bellotto, 66, diz não ter terror da morte, nem antes nem depois de receber o diagnóstico de cancro de pâncreas, em março de 2025. O que o angustia é outra coisa, ele diz: o sofrimento que pode vir no término e a dor que sua morte causaria a quem ele patroa. Por isso, faz questão de mostrar que está muito e pronto para encarar o que vier.

Ele conta que convive de forma pacífica com a doença. Resume essa postura com um verso do poeta Paulo Leminski: “Não discuto com o tramontana, o que pintar eu assino”.

Para o guitarrista dos Titãs, a consciência de que vamos morrer acompanha todo ser humano a vida inteira. A doença exclusivamente a tornou mais concreta e, em vez de paralisá-lo, o fez viver com mais intensidade. “Cada dia que eu combinação é mais peculiar do que era antes do diagnóstico”, diz ele em entrevista à Folha, por mensagens de áudio.

Na próxima sexta-feira (6), Bellotto dará uma lição magna a 4.000 médicos sobre vida, ciência, arte e a dimensão humana do desvelo durante o Congresso Brasílio de Oncologia Clínica, promovido pela Sboc (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica) de quinta (5) a sábado (7), no Rio de Janeiro.

“Os bons médicos te deixam com a esperança. Ou, se for preciso expressar que não há esperança, ainda assim há uma esperança. Porque até o momento de morrer você vai viver.”

Segundo ele, a música tem funcionado porquê remédio. “Enquanto estou tocando, a doença não existe.” A quem acaba de receber um diagnóstico de cancro, aconselha calma e pragmatismo. “É preciso varar o drama. Se você cai no despenhadeiro do drama, não sai mais dele. Vamos ver o que a ciência tem a oferecer.”

O que mais atrapalha o paciente, afirma, é o estigma. Uma vez que repórter, nota que, quando um responsável quer improbar um personagem, costuma dar a ele um cancro, muitas vezes de pâncreas. Bellotto diz esperar que a doença perdida o peso que tem, assim porquê aconteceu com a tuberculose quando a requisito se tornou tratável. Quando o abordam na rua com olhar preocupado, responde: “Estou igual a você, estou vivo”.

Você costuma expressar que não luta contra o cancro, que negocia uma convívio pacífica com ele. Uma vez que se convive em tranquilidade com alguma coisa que pode tirar sua vida? A teoria de que você vai morrer acompanha todo ser humano a vida inteira. A gente consegue, de uma maneira que não consigo entender, deixar de lado essa consciência, que senão talvez impossibilitasse a vida. Imagine estipular todo dia pensando: “Vou morrer, todas as pessoas de quem eu palato vão morrer”.

O ser humano, na sua estrutura psicológica moldada pela evolução, consegue viver sabendo que a morte pode chegar a qualquer momento. Para mim é igual, sempre foi. Talvez a teoria da morte esteja mais concreta. Mas essa concretude acaba motivando um fruir da vida mais intenso. Cada dia que eu combinação é mais peculiar do que era antes do diagnóstico. Penso: “Puxa, estou muito, não estou sentindo nenhuma dor. Que maravilha esse firmamento azul, essa brisa”. O que a gente tem é isso.

Você tem terror da morte? Esse terror mudou depois do diagnóstico? Não tenho terror da morte e já não tinha antes do diagnóstico. Simples que tenho certa angústia de pensar no momento da morte. Você não sabe o quanto vai suportar, e a medicina é muito eficiente em varar as dores, em anestesiar os sintomas mais difíceis desse momento. Mas da morte porquê concepção nunca tive terror.

É simples que não gostaria de morrer, prefiro continuar vivendo, porquê todo mundo. E o que às vezes preocupa, no meu caso, não é a minha morte, é o que ela pode originar às pessoas que gostam de mim, que convivem comigo. Você quer que quem você patroa não sofra. E a melhor maneira é mostrar que está muito e pronto para encarar. Sempre repito uma frase do poeta paranaense Paulo Leminski: “Não discuto com o tramontana, o que pintar eu assino”.

Que reflexão você sugere a alguém que acabou de receber o diagnóstico e está paralisado pelo terror? Muita gente me procura, e a primeira reação é de desespero, de terror de morrer. Eu digo: primeiro, calma. Vamos respirar e ver qual é o problema. Um evidente pragmatismo. É preciso varar o drama. Se você cai no despenhadeiro do drama, não sai mais dele. Vamos ver o que a ciência tem a oferecer.

No cancro de pâncreas tem havido muitos progressos, porquê o daraxonrasib, revalidado pela FDA [agência reguladora dos Estados Unidos] e que aguarda a [liberação da] Anvisa. São remédios que mostram que os pesquisadores estão chegando mais ao profundo do cancro de pâncreas.

É preciso coragem, a mesma que faz a gente transpor da leito e encarar cada dia. Vamos pensar nas coisas essenciais, o que a gente devia fazer mesmo sem diagnóstico nenhum. Acho que o diagnóstico ajuda nessa percepção da núcleo da vida, das coisas que importam.

Você está usando o daraxonrasib? O que pensa sobre a desigualdade no tratamento do cancro no Brasil? Não estou usando o remédio, não, mas é urgente que ele seja logo revalidado pela Anvisa e que possa ser alcançável para todo mundo. Os preços por enquanto são proibitivos e é inadmissível que um remédio tão importante e revolucionário seja inacessível para a maior segmento da população.

O que a sociedade ainda precisa mudar na forma porquê acolhe pessoas com cancro? O que mais atrapalha é o estigma. O cancro assusta. Quando um repórter precisa dar um tramontana repugnante a um personagem, bota um cancro, nem pensa muito.

A forma de destigmatizar é tratar disso sem drama e mostrar que se leva uma vida normal. As pessoas me encontram na rua com aquele olhar: “E aí, você está muito?”. Eu falo: “Estou igual a você, estou vivo”. É uma doença porquê as outras, que tem tratamento, em grande segmento dos casos tem trato e, quando não tem, há tratamento que permite uma vida normal. A tuberculose foi estigmatizada no século 19 e foi perdendo o estigma quando se tornou tratável. Espero que aconteça o mesmo com o cancro.

Uma vez que a equipe médica pode ajudar o paciente a não perder a própria identidade num tratamento longo? Quando você recebe o diagnóstico de uma doença grave, deixa de ser aquilo que é e passa a ser um ser humano em núcleo, naquele terror mais capital, o de morrer. O que os médicos podem fazer, e geralmente fazem, é asilar, mostrar que eles e a ciência estão ali para dar o melhor a esse quidam que agora se debate com a finitude. Foi assim comigo.

Os bons médicos te deixam com a esperança. Ou, se for preciso expressar que não há esperança, ainda assim há uma esperança. Porque até o momento de morrer você vai viver. A atenção que se dá hoje aos cuidados paliativos, ou mesmo as discussões sobre morte assistida, faz segmento desse esforço da medicina para expressar: não fique desesperado, temos cá alguma coisa que vai te ajudar, um tratamento que vai te tratar ou alguma coisa que vai, no mínimo, facilitar a sua morte.

Você falará para uma plateia que lida com dados, protocolos e metas de sobrevida. Qual “utensílio artística” os médicos deveriam adotar? Não me sinto em condições de dar juízo aos médicos, sou eu que aprendo com eles. Mas a utensílio forçoso de qualquer artista é a imaginação. O Einstein dizia que a gente só consegue responder às perguntas que a gente mesmo faz. É ousar fazer uma pergunta que seja surpreendente para você mesmo. E aí, simples, a arte responde de um jeito, a ciência, de outro.



As pessoas me encontram na rua com aquele olhar: ‘E aí, você está muito?’. Eu falo: ‘Estou igual a você, estou vivo’. É uma doença porquê as outras, que tem tratamento, em grande segmento dos casos tem trato e, quando não tem, há tratamento que permite uma vida normal.

Em qualquer momento a ciência falhou em te dar respostas e a arte preencheu esse vazio? Ciência e arte atuam em espaços diferentes. No meu caso, em nenhum momento a ciência me deixou num vazio. Nunca pensei: estou caindo sozinho no despenhadeiro. A arte tem uma função complementar, terapia. Sempre que subo no palco, naquela uma hora e meia, duas horas de show, o terror, qualquer coisa sobre a doença desaparece. A música é um remédio.

Quando não há mais zero a fazer no tratamento, a arte tem uma função muito grande de preencher o vazio, seja pela música, pelo cinema, pelo teatro ou pela literatura. Ou pela filosofia, que não é arte, mas também ajuda muito. Percebo também nos outros doentes uma premência de se concordar na filosofia. Um manda para o outro frases de Marco Aurélio [imperador romano], de Nietzsche [filósofo alemão].

Você já disse que a arte tem a capacidade de “reinventar a vida”. O que você reinventou na sua nos últimos dois anos? Existe alguma música que tenha ganhado outro significado para você? Não, não tem zero que tenha mudado de sentido para mim. É simples que o jeito que você olha a vida depois do diagnóstico é dissemelhante, mas não estou tão dissemelhante do que era. Talvez tenha uma tensão maior ao vestimenta de porquê a própria doença aparece às vezes.

Por exemplo, eu tenho lido vários romances em que quando o responsável quer expressar que um personagem está ferrado, que ele vai morrer, geralmente ele tem cancro de pâncreas. Logo era uma coisa que eu não reparava antes, mas reparei ultimamente. Uma vez que responsável, eu entendo isso, você pensa assim: “Puxa, esse personagem tem que ter uma doença grave, vai morrer, vai suportar. Deixa eu ver que cancro eu vou dar para ele.” O de pâncreas é sempre muito cotado nessas horas.

Você já disse que não se considera livre da doença. Uma vez que é viver sem saber quanto tempo se tem? Isso vale para todo mundo. No meu caso, fica mais aguçado, mas não precisa atrapalhar o fruir da vida. É uma questão de esforço, de uma adequação psicológica que a gente faz naturalmente. Essa força que a gente tem interno, de quando acontece um problema assim muito grande, a gente tem uma capacidade de adaptação incrível.

E acho que é por isso que a gente está no planeta até hoje, né? A gente não se extinguiu porquê raça pela capacidade de se adequar. E a gente se adapta, sim, às doenças graves, às limitações físicas. A vida está enxurrada de exemplos. Logo, eu vivo exatamente porquê vive qualquer outra pessoa que não que não tenha doença. A minha vida é igual, e porquê eu disse, talvez com uma intensidade maior na fruição da vida cotidiana, do dia, do agora, do que tá acontecendo, que aliás é a única coisa que existe, né?

Folha

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