Três Graças: Sophie Charlotte, a Gerluce, se diz vaidosa – 14/05/2026 – Ilustrada
Sophie Charlotte entendeu que havia derrubado nas graças dos noveleiros quando descobriu que uma recém-nascida recebeu os nomes Gerluce e Angelina. É porquê chamam as personagens mais importantes que a atriz já fez —Angelina, sua primeira mocinha de todas, numa “Malhação” de 19 anos detrás, e Gerluce, sua primeira protagonista no horário transcendente, a heroína de “Três Graças”, que chega ao término nesta sexta-feira (15).
Prestes a compreender seu final feliz, Gerluce rendeu a Charlotte elogios do público, dos colegas de elenco e do responsável da romance, Aguinaldo Silva. Mais importante, talvez, é que, aos 37, a atriz diz estar finalmente se permitindo um pouco de vaidade.
“Passei muito tempo, uns 20 anos, calçando as sandálias da humildade. Pensava ‘não, calma, o trabalho é coletivo’. Mas, pô, vibrar essa conquista tem sido um aprendizagem. Agora a romance acaba e vou ter que parar de flutuar”, afirma ela, por vídeo, em meio a uma brecha dos últimos dias de gravação.
Para exercitar a pompa recém-descoberta —ou potencialmente rematar com ela—, Charlotte acessava o X, ex-Twitter, para pesquisar o nome de Gerluce e espionar o que estavam achando da sua performance. Decisão arriscada, segundo ela, mas muito pensada.
“Três Graças” teve 10,5 milhões de menções espontâneas nas redes sociais, o duplo da antecessora “Vale Tudo”, segundo a Mundo, numa conta que abarca X, Instagram, Facebook e YouTube.
“Não é simples, precisa entender a dinâmica das redes sociais. Ali tudo é repentino, não passa por filtros, logo os comentários carregam muita paixão”, diz a atriz. “Mas são tempos diferentes e esse é o termômetro ao qual eu tenho entrada. O Ibope só chega depois, e a gente também não tem entrada aos números de quem vê pelo streaming. Só sabemos o que nos contam.”
A audiência acompanhou a repercussão. A uma semana do capítulo final, “Três Graças” empatou em audiência com o remake de “Vale Tudo”, chegando a 25 pontos na Grande São Paulo.
Gerluce ganhou uma espécie de resguardo organizada, tipo de torcida que há tempos não existia por uma mocinha de romance das nove. Entre o dramalhão e o bom humor, a heroína virou uma espécie de contraveneno contra o desgaste das últimas protagonistas das nove —tirou a má sentimento deixada pela Raquel de “Vale Tudo”, nem terminou apagada, porquê a Aline de “Terreno e Paixão”.
Mas houve uma polêmica. Na premiação Melhores do Ano, do Domingão com Huck, que contempla exclusivamente obras da moradia, “Três Graças” foi eleita pelo público a romance do ano, batendo “Vale Tudo”.
Na internet, porém, a vitória acabou ofuscada pelo novo tropa de Charlotte, que se indignou porque ela não havia sido indicada nem convidada —o troféu de melhor atriz foi para Grazi Massafera, a vilã de “Três Graças”.
Charlotte diz que não ficou magoada com a emissora, mas impressionada com a repercussão, principalmente posteriormente o vídeo em que gravou, do sofá de moradia, para festejar o prêmio. Por isso, Aguinaldo Silva, o responsável, foi depois ao Instagram destinar a Charlotte o troféu da romance, dizendo que seu prêmio era todo dela.
Em entrevista por email, Aguinaldo diz que criou Gerluce pensando nas heroínas que a italiana Sophia Loren fez nos filmes de Vittorio De Sica —populares e barulhentas, distantes da elegância contida das divas dos anos 1960. “Foi exatamente o que ela me deu. Uma Sophia revista e ampliada por Sophie.”
Para conceber Gerluce, Charlotte seguiu um registro passional, com espaço para leveza, mas não menos dramático. Diz que pareceu ser esse o caminho mais realista para retratar a lida de mães solteiras —na trama, sua filha vive uma gravidez precoce posteriormente a própria Gerluce e sua mãe engravidarem quando adolescentes.
Não é a primeira vez que Charlotte encarna um tipo meão no debate social. Há quatro anos, ela interpretou uma jovem com deficiência visual, Maíra, a protagonista de “Todas as Flores”, romance do Globoplay. Mas a escalação de uma atriz que enxerga foi escopo de questionamentos. “Era frágil”, ela relembra. “Tinha um compromisso com a questão do capacitismo.”
A contraditor de Maíra é Vanessa, vivida por Letícia Colin, que agora substitui Charlotte na liderança das nove com “Quem Nutriz Cuida”, que estreia nesta segunda-feira, 18. “Sophie é harmónico, profunda. Tem um estado de escuta, de verdade”, diz Colin.
Em “Todas as Flores”, Charlotte contracenou também com Caio Castro, que conheceu lá detrás, quando fizeram um parelha em “Malhação”. Sua primeira protagonista era apaixonada por música, e Charlotte cantava de verdade nas gravações. Ali nasceu uma faceta que só depois viraria natividade de renda.
Em 2014, ela gravou “Sua Estupidez”, clássico de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, para a romance “O Rebu”. No término do ano, o Rei convidou a atriz para apresentar a cantiga no seu tradicional privativo da Mundo.
Mas foi só oito anos depois que Charlotte perdeu de vez a vergonha dos palcos, graças à cinebiografia “Meu Nome É Gal”, em que interpreta a cantora Gal Gosta.
No final do ano pretérito, a atriz encarnou Gal num protesto contra o PL da Dosimetria, em Copacabana, no qual cantou “Vapor Barato”, clássico da cantora baiana. Na última eleição presidencial, Charlotte declarou voto em Lula.
“Isso vem de uma urgência. O outro caminho é desumano, retrógrado. A subida da extrema direita é impensável. Um Estado não leigo é impensável, os direitos das mulheres estarem ameaçados é impensável. Mas é o que estamos vivendo.”
Charlotte volta a trovar envolta em menos tensão, nos shows que marcam o término de “Três Graças”, ao lado de músicos que integraram o elenco da romance, porquê Belo e o rapper Xamã —com quem Charlotte já namorou. A primeira apresentação aconteceu no Rio de Janeiro, na semana passada, e a outra ocorre nesta sexta, em São Paulo, na moradia de shows Vibra.
Outro espaço em que Charlotte se aventurou foi o set de gravações de um filme internacional, “O Malfeitor”, do americano David Fincher, diretor de “Clube da Luta” e “A Rede Social”.
Ela conseguiu o papel por intermédio de um empresário americano que abria uma produtora no Brasil e vinha sondando atores do país. Achou que Charlotte combinava com a personagem —a namorada do protagonista, feito por Michael Fassbender—, e a pôs em contato com Fincher. Tempos depois, ela se viu almoçando e jantando com as estrelas de Hollywood na República Dominicana.
“Sei que só tenho duas cenas, mas foram momentos importantes para o David, que refizemos várias vezes porque cada pormenor importava”, diz ela. Porquê o longa saiu em 2023, em plena greve dos atores americanos, Charlotte ficou impossibilitada de promover a obra, que acabou esquecida rapidamente. “O mais lícito foi entender que tenho um ofício que comunga com outras línguas.”
Charlotte é fluente em boche. Nasceu em Hamburgo, filha de um pai paraense e mãe alemã, se mudou para o Brasil aos sete anos —os avós se encantaram por Búzios, e o pai sentia falta da terreno natal. Morou em Niterói até a puberdade, fez os primeiros trabalhos porquê atriz em “Malhação” e se mudou para o Rio de Janeiro, para se aproximar da fábrica de televisão, em procura dos seus momentos de perdão.





