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Ugo Giorgetti debate documentário sobre Alberto Dines – 04/06/2026 – Ilustrada

Pilhas de livros e documentos sobre cinema, literatura, jornalismo e história dividem espaço com tipos móveis e equipamentos de sentimento tipográfica no idoso escritório de Alberto Dines. No núcleo da sala, onde antes escrevia o jornalista, está o computador diante do qual Norma Couri, sua viúva e também jornalista, trabalha.

A cena encerra “Alberto Dines – Vínculos de Liberdade”, documentário lançado neste ano por Ugo Giorgetti. O filme serviu de ponto de partida para a conversa entre o diretor e o crítico da Folha Inácio Araújo, realizada nesta quarta-feira (3), uma vez que segmento da programação do Festival Cineastas de São Paulo, com suporte da Folha.

Na orifício do encontro, no Espaço Petrobrás de Cinema, na região medial de São Paulo, Araújo destacou a singularidade da obra de Giorgetti no cinema brasílico. Segundo o crítico, seus filmes escapam das classificações mais usuais da historiografia pátrio, sem se encaixar plenamente no Cinema Novo, no cinema marginal ou na tradição acadêmica. Em geral, disse, está a atenção aos ambientes, aos pequenos gestos e às transformações captadas em graduação cotidiana.

Ao comentar títulos exibidos na retrospectiva, Araújo citou mormente “O Príncipe” (2002), que acompanha o retorno de um intelectual a uma São Paulo transformada. Para o crítico, o filme registra um momento específico da cidade e sintetiza uma particularidade recorrente da filmografia do diretor: personagens confrontados com o tempo, a mudança e a desilusão.

O observação serviu de introdução ao documentário sobre Dines, uma das figuras centrais do jornalismo brasílico do século 20. Em muro de uma hora, o filme reúne entrevistas de registro, depoimentos do próprio jornalista e testemunhos de colegas para reconstruir sua trajetória profissional. Entre os episódios abordados estão a publicação da histórica envoltório sem manchete do Jornal do Brasil sobre o golpe militar no Chile, em 1973, e a geração da poste “Jornal dos Jornais” na Folha, precursora da sátira sistemática da mídia no país.

Sem seguir uma cronologia linear, Giorgetti constrói o retrato a partir de depoimentos de nomes uma vez que Eugênio Bucci, Fernando Gabeira, Juca Kfouri e Roberto D’Ávila, além da participação de Norma Couri. Um dos eixos da narrativa é uma longa entrevista concedida por Dines ao Museu da Pessoa.

Foi justamente a construção desse retrato que levou Giorgetti a tutelar, durante o debate, a teoria de que documentário e ficção compartilham o mesmo gesto narrativo.

“Todo filme é ficção”, afirmou. Segundo o diretor, a verdade registrada pela câmera já chega ao testemunha transformada pelas escolhas do realizador, da montagem e da própria forma cinematográfica. “Quando ele passa pela sensibilidade de um diretor, ele é transformado por alguém, é ficção.”

O cineasta contou que chegou a considerar outros caminhos para o documentário, mas mudou de teoria ao se deparar com os depoimentos do próprio Dines. “Eu tinha uma pessoa falando de si mesma com pertinência e verdade de sentimento.”

Ainda assim, rejeitou a teoria de que o filme pudesse oferecer uma verdade definitiva sobre seu personagem. “Não é a verdade sobre o Dines. Nenhum documentário é.”

A partir daí, Giorgetti passou a tutelar a ficção uma vez que uma forma privilegiada de compreensão histórica. Para sustentar o argumento, citou os escritores franceses Honoré de Balzac (1799-1850), Émile Zola (1840-1902) e Marcel Proust (1871-1922). Segundo o cineasta, as obras desses autores permitem compreender aspectos da sociedade francesa de suas respectivas épocas com uma riqueza de detalhes que nem sempre aparece em registros documentais ou estudos históricos.

O debate também percorreu as mudanças tecnológicas no cinema. Giorgetti recordou os tempos da moviola e da película, substituídos em poucas décadas pelo envolvente do dedo. O próprio documentário sobre Dines, segundo o diretor, foi realizado inteiramente com a câmera de um iPhone.

Em um dos momentos mais descontraídos da conversa, Giorgetti apontou uma semelhança entre sua trajetória e a de Alberto Dines, que surgiu conforme mergulhava na trajetória do jornalista. “Eu não tenho graduação também. O Dines não tinha”, disse.

A conversa terminou entre histórias da Boca do Lixo, polo da produção cinematográfica paulistana entre as décadas de 1960 e 1980, lembranças de colaboradores uma vez que o diretor de retrato Walter Roble e referências ao músico Tom Zé, figura medial da tropicália e ator de “Sábado” (1995), filme de Giorgetti.

Folha

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