Um dia na vida de abed salama simboliza tragédia palestina

Um Dia na Vida de Abed Salama simboliza tragédia palestina – 09/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em fevereiro de 2012, o palestino Abed Salama se despediu do fruto Milad. O menino de cinco anos partiu em uma excursão escolar na Cisjordânia —da qual nunca voltou. Seu ônibus sofreu um acidente perto de Jerusalém. Milad, outras cinco crianças e um professor morreram.

O jornalista americano Nathan Thrall reconta essa história no livro “Um Dia na Vida de Abed Salama”, de 2023. O relato foi premiado no ano pretérito com o prestigioso Pulitzer na categoria de não ficção.

É, a princípio, uma curiosa escolha de tema. Há décadas, a vida dos palestinos na Cisjordânia, na filete de Gaza e em Israel inclui tormentos em graduação maior do que um acidente de ônibus. Entre eles, os bombardeios israelenses que, desde 2023, já deixaram mais de 60 milénio mortos em Gaza.

Esse é, porém, o valor do livro: é uma espécie de micro-história. Thrall, que vive há mais de 20 anos em Israel, secção daquele sinistro um para provar que o Estado israelense e as suas disputas com os palestinos se infiltram nos menores aspectos cotidianos, com resultados trágicos.

Israel ocupa a Cisjordânia desde que venceu a Guerra dos Seis Dias em 1967. Sob a justificativa da segurança, impõe bloqueios à circulação de palestinos. Desafiando os protestos da comunidade internacional, Tel Aviv constrói assentamentos nos territórios da Palestina.

Os chamados Acordos de Oslo, de 1993, dividiram a Cisjordânia em três áreas: uma sob controle israelense, outra sob controle misto e a última sob controle palestino. Na prática, os acordos resultaram na formação de um arquipélago de pequenos territórios palestinos sem conexão entre si.

É nesse contexto que Thrall encaixa a tragédia de 2012. O jornalista sugere, por exemplo, que o ônibus que levava as crianças para a excursão escolar teve de fazer um meandro —passando por um trecho desprezado da estrada divulgado por acidentes— devido a bloqueios israelenses.

Thrall também mostra que os labirintos administrativos atrasaram o resgate das crianças em meio às chamas do ônibus. Ambulâncias palestinas não puderam passar a tempo. Mais próximos do lugar, as autoridades israelenses tardaram em se mobilizar para salvar os palestinos.

O livro se baseia na longa experiência de Thrall na região. Ele havia escrito reportagens sobre o acidente de 2012 para a prensa americana, que ampliou para o livro. O texto é resultado de entrevistas com testemunhas, familiares de vítimas e uma robusta pesquisa bibliográfica.

Thrall talinga todo esse material em torno de um só dia na vida de Abed Salama, uma vez que sugere o título. Narra a dor de um pai que, ao saber do acidente, tem que percorrer hospitais —desviando inclusive de controles israelenses— para encontrar informações sobre o fruto.

A reportagem é uma delação explícita contra as políticas do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu e a geografia da ocupação da Cisjordânia. Thrall provê material para uma discussão cada vez mais urgente, diante da crescente pressão internacional por uma solução à questão palestina.

O livro é também um relato sobre uma economia de vidas em que alguns têm mais valor que os outros — uma teoria que o filósofo Achille Mbembe descreve no seu trabalho uma vez que “necropolítica”. Thrall relata, por exemplo, que alguns israelenses não unicamente atrasaram o resgate, mas chegaram a comemorar as mortes.

Thrall não limita suas críticas a Israel. O jornalista investiga também os fracassos das lideranças palestinas nas últimas décadas, que contribuíram para a situação atual. Da leitura do texto, fica a sentimento de que a população social da Cisjordânia é vítima de mais de um carrasco.

Apesar de toda essa potência jornalística, o livro carece de lirismo. O tom informativo e a enorme quantidade de informação sufocam o texto. Thrall explica até demais as minúcias da política israelense e palestina. Falta alguma emoção para um livro sobre a trágica morte de uma párvulo de cinco anos.

De todo modo, a mensagem é clara. Thrall consegue transformar um difícil dia na vida de um pai em um exemplo da dificuldade de milhões na região. Descreve dois mundos separados por muralhas —um israelense e um palestino— e mostra uma vez que o sangue de um transborda dentro do outro.

Folha

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