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Vargas uniu, o agro desfez 24/04/2026 Gustavo Alonso
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Vargas uniu, o agro desfez – 24/04/2026 – Gustavo Alonso

Nos anos 90 era geral se falar no termo da “Era Vargas”. Diante das transformações neoliberais capitaneadas por Collor e FHC, o legado intervencionista, industrializante e nacionalizante de Vargas foi sendo corroído pelas privatizações e pela inserção do Brasil na ordem liberal da globalização. No entanto, alguns legados varguistas sobreviveram, e só hoje em dia estão sendo desmontados, uma vez que é o caso do tradicional programa radiofônico “A Voz do Brasil”.

Neste mês, o Ministério das Comunicações divulgou o calendário de 2026 para a flexibilização do “A Voz do Brasil”, permitindo que rádios priorizem coberturas locais. Com a medida, as emissoras podem dispensar ou diferir a transmissão do programa para revestir “eventos de grande relevância regional”, uma vez que aniversários de cidades, festas religiosas e feiras agropecuárias.

Criado em 22 de julho de 1935, no governo de Getúlio Vargas, o logo “Programa Vernáculo” foi o embrião da atração radiofônica mais antiga ainda em exibição no país. Em 1938, a transmissão tornou-se obrigatória no horário das 19h às 20h, sob o nome de “A Hora do Brasil”. Em 1962 o programa adotou sua denominação atual, “A Voz do Brasil”.

Quando Vargas tornou obrigatório o seu programa, ironicamente chamado pelo povo debochado de “o fala sozinho”, o objetivo estava inserido em seu projecto desenvolvimentista e centralizador. Em resposta ao contexto da República anterior, que batizou de “velha”, Vargas defendia a teoria de um governo possante e industrializante. Ditatorial a partir de 1937, o Estado Novo de Vargas tinha um projeto de país que era crítico não exclusivamente à democracia, mas também ao federalismo que julgava desorganizado.

Foi por isso que a Constituição ditatorial de 1937 determinou o termo dos símbolos que não fossem aqueles que representassem a pátria unida sob Vargas. Para mostrar que não estava brincando, o ditador realizou um ato simbólico. Em 27 de novembro daquele ano aconteceu a queima das bandeiras dos Estados brasileiros em plena Praia do Russel, no meio da logo capital federalista, o Rio de Janeiro.

No meio da celebração, havia uma pira onde as bandeiras dos 21 estados da idade foram depositadas e queimadas ao som do Hino Vernáculo. O evento foi circunvalado de pompa militar, com desfiles e música, para dar um ar de sarau cívica à ruína dos símbolos regionais.

O logo ministro da Justiça de Vargas, Francisco Campos, responsável pela promulgação da Constituição do Estado Novo, discursou: “Os brasileiros se reuniram em torno do Brasil e decretaram desta vez com regra não consentir que a discórdia volte novamente a dividi-lo, que o Brasil é uma só pátria e que não há lugar para outro pensamento do Brasil nem espaço e devoção para outra bandeira que não seja esta”.

A geração do programa “A Voz do Brasil” se inseriu neste contexto de unificar o Brasil para além das fraturas regionais e locais, superando o federalismo desengonçado da República Velha. O projeto integrador passava pela industrialização a partir de um Estado possante e intervencionista. O papel de “A Voz do Brasil” era transmitir às diversas regiões do país seus papéis neste projeto desenvolvimentista. Agora, o programa de mais de 90 anos encontrou seu golpe mais mortal.

O “A Voz do Brasil” já tinha sido flexibilizado em 4 de abril de 2018, quando o logo presidente Michel Temer assinou a lei n.º 13.644. A transmissão do noticiário, antes obrigatória às 19h, tornou-se maleável e passível de ser apresentado em qualquer horário entre 19h e 22h por emissoras comerciais. Diante da flexibilização atual, o que vemos é a vitória dos poderes regionais em se apoderar da “Hora do Brasil”.

Em idade de internet e excesso de informação, é de se perguntar até que ponto é justo manter um programa estatal de informação. Se até na idade de Vargas o programa era chamado de “o fala sozinho”, que dirá hoje em dia, inchados que estamos de toda sorte de mídias.

O termo parcial da programação vernáculo de “A Voz do Brasil” representa a força de um país rústico e agrário, que toma os poderes estaduais e consegue se impor frente aos discursos centralizadores, questionando qualquer teoria de projeto vernáculo. Vargas se revira no túmulo.

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Folha

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