O teatro não se faz somente dentro de caixas pretas ou sob os lustres de uma sala sublime. Ele se faz nas brechas, nas margens do asfalto, onde a cidade expulsa o que não pode mais codificar. A Cia. Mungunzá sabe muito disso: seu lugar não é o palco institucional, mas a rua uma vez que campo de guerra simbólica.
Em uma cidade que prefere varrer o desconfortável para debaixo do tapete, o coletivo paulistano escolhe a verticalidade. Eles estão reivindicando o recta de serem vistos em um lugar que, sistematicamente, tenta extinguir seus rastros. “anonimATO”, a primeira invasão do grupo no teatro de rua, é uma urgência biológica. Estreado em 2022, mas ressignificado pelo traumatismo da demolição de sua sede, o espetáculo evoluiu de uma investigação sobre o encontro para um testemunho de sobrevivência.
Sob a direção precisa de Rogério Tarifa, a peça abandona a tradicional roda de rua, aquela que convida à dissipação, em obséquio de uma risca reta de 100 metros. Escolha geométrica audaciosa, que tensiona o espaço até o ponto de ruptura. O cortejo avança com uma direcionalidade que não conhece outra escolha senão o renascimento ou o mistério. Enquanto o público segue o fluxo, somos confrontados com uma temporalidade que desafia a lógica produtiva de São Paulo. Enquanto os atores movem-se com o que poderíamos invocar de uma “presença em crise”: eles não têm pressa porque carregam o peso inteiro da existência.
Quando o Pipoqueiro se transfigura ou o Varão-Placa exibe suas provocações gráficas, o sonido da metrópole é suspenso. Não por um momento somente, mas pelo tempo necessário para que outra escuta se torne verosímil. Não estamos mais olhando para a publicidade de “compra-se ouro”; estamos olhando para o valor humano que o ouro não alcança.
A dramaturgia de Verônica Gentilin foca no “ATO” — o sufixo em caixa subida que transforma o anonimato em ação coletiva. Os oito personagens são arquétipos, sim, mas arquétipos feridos, que não se contentam com a formosura fria do símbolo. A Mulher-Árvore e sua resistência ecológica em meio ao cinza. A Vendedora de Sonhos, que transforma a precariedade em trova porque não lhe resta outra matéria-prima. A Mulher que é “Ninguém” que nos lembra que ser ninguém é o primeiro passo para poder ser qualquer um. E talvez também o último.
A música cá é determinante. Carlos Zimbher cria uma egrégora sonora que junto ao coro transformam manifestos em orações. Músico heróico, mas desprovido de luz sintético. O luz vem da poeira da rua, dessa material humilde que o teatro muitas vezes esquece.
Ao levar o espetáculo para a Funarte depois o lixo, a Mungunzá provou que a utopia não é um sonho passivo, mas um pouco que deve ser chocado coletivamente: uma vez que um ovo posto no asfalto. O espetáculo procura o que chamam de “lugar geral”. E talvez seja isso, finalmente, a grande operação do teatro de rua: nos restituir o geral uma vez que território de luta.
“anonimATO” é um soco no estômago temperado com esperança teimosa. É um teatro que morre e renasce a cada passo, reafirmando que, enquanto houver alguém disposto a olhar o outro, a cidade ainda terá psique. Ou, pelo menos, o que dela resta quando tudo o mais foi vendido.
Três perguntas para…
… Rogério Tarifa
A Cia. Mungunzá viveu um círculo dramático real e doloroso com a demolição do Teatro de Contêiner em 2026. Uma vez que esse evento reconfigurou a encenação de “anonimATO”?
A reconfiguração se deu na relação do grupo e da peça com nosso tempo histórico. Nosso trabalho é ligado ao tempo da arte, do país e do público. Quando estreamos, tínhamos o Teatro de Contêiner: aquela utopia concretizada no meio de São Paulo. Hoje não temos mais o prédio, mas o teatro continua, porque ele é efêmero. Uma vez que o Pedrinho [das Oliveitras] diz: “Onde tem soalho, tem teatro.” Estamos todos tristes, foi um massacre, mas a peça é uma reconstrução, assim uma vez que o teatro será reconstruído em outro espaço.
O sufixo “ATO” em caixa subida sugere uma transição do anonimato passivo para a ação coletiva. Qual é o limite do teatro enquanto utensílio de transformação social?
Chamo meus trabalhos de “ato espetáculo músico” para esbulhar certa teoria do teatro uma vez que arte burguesa europeia. O teatro que faço depende do público para se completar. O coletivo é a saída para tempos opressivos. O limite? Augusto Boal disse: o teatro não é a revolução, mas o caminho para ela. Uma vez que na peça, e uma vez que Eduardo Galeano falava da utopia: ela está sempre adiante, e a gente caminha em direção a ela. O teatro tem os limites da vida. Por isso é importante: conecta-se à nossa existência efêmera.
A visualidade da peça é muito rica: pernas de pau, figurinos infláveis, a trova gráfica de Átila Fragozo. Uma vez que orquestrar esses elementos sem soterrar a presença humana do ator?
No início de cada processo, busco perfurar um campo poético de geração, um lugar concreto onde os seres humanos constroem o trabalho a partir da aura, da trova, dos sonhos. O público completa esse campo durante o espetáculo. Trabalho com uma grande equipe de cenógrafos e figurinistas, mas sempre em meio coletiva. E faço questão do teatro de rua: é na rua que ele quebra a última classe e se torna verdadeiramente público. As imagens não soterram o ator porque nascem desse campo poético compartilhado.
A Cia. Mungunzá segue com sua programação na Funarte com apresentações gratuitas dos espetáculos “Luis Antonio-Gabriela” e “Elã”.
Multíplice Cultural Funarte – parque Nothmann, 1.058, Campos Elíseos, região meão.
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