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Meta, Anthropic e Microsoft, três grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, estão sendo processadas por usar, sem autorização, livros de autores brasileiros para treinar seus modelos de perceptibilidade sintético.
A investigação dos repórteres Maurício Meireles e Pedro S. Teixeira aponta que as companhias recorreram a cópias piratas reunidas na base Books3, que incluem 109 títulos de Clarice Lispector, Chico Buarque, Paulo Coelho e mais 28 autores brasileiros.
No ponto de vista das big techs, trata-se de um “uso justo” do material, já que os robôs não praticariam plágio, e sim usariam esses textos de inspiração e os transformariam em outra coisa, porquê um ser humano faria.
Do outro lado, escritores e editoras acusam apropriação indevida de suas obras. O incidente do podcast Moca da Manhã desta terça (2) mergulha nesses embates com os dois jornalistas que assinam a reportagem.
Segundo o consultor prateado Daniel Benchimol, entrevistado pela pilastra Tela das Letras, acordos porquê o da americana HarperCollins, que negociou o uso de seus livros por empresas de IA por um período e dispêndio determinado, são um caminho a ser percorrido por todas as editoras em qualquer momento.
“Estamos caminhando para um novo pacto, no qual as empresas de perceptibilidade sintético precisam de teor de qualidade e de valor para se nutrir. E está comprovado que os conteúdos que as editoras produzem são os mais valiosos para esses modelos”, afirma Benchimol.
Acabou de Chegar
“Katábasis” (trad. Marina Vargas, Intrínseca, R$ 69,90, 480 págs.) marca o retorno da escritora R.F. Kuang aos universos fantásticos que ela própria labareda de “histórias esquisitas” em entrevista à jornalista Isabela Yu. No romance recém-lançado no Brasil, a autora best-seller conta a história de dois estudantes rivais que cursam pós-graduação em magia e viajam até o inferno detrás de seu orientador.
“O Desabamento” (trad. Marília Scalzo, Todavia, R$ 69,90, 168 págs.) é mais uma obra autoficcional de Édouard Louis, dessa vez sobre seu irmão. Segundo a escritora e colunista da Folha Tati Bernardi, é outro grande livro do repórter gaulês, mas bastante dissemelhante dos anteriores. “É um livro sobre os anseios megalomaníacos e sempre frustrados de um jovem que foi se tornando cada vez mais misógino, preconceituoso e alcoolista”, escreve a sátira em referência ao irmão que protagoniza a obra.
“Violet Faz a Ponte Sobre a Grama” (trad. Alana Carolina Martins, Belas-Letras, R$ 79,90, 160 págs.) é o primeiro livro de poemas da cantora americana Lana Del Rey, que chega ao Brasil depois de cinco anos de seu lançamento nos Estados Unidos. Segundo a sátira Ana Luiza Rigueto, a versão que chega aos brasileiros é prejudicada por deslizes editoriais de revisão e tradução.
E mais
“A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra”, disse Luis Fernando Verissimo em entrevista à Folha em 2013. Na última semana, o responsável que lidava com as sequelas de um acidente vascular cerebral desde 2021 morreu por complicações de uma pneumonia. O historiador foi velado em Porto Jubiloso no mesmo lugar que seu pai, Erico Verissimo, 50 anos antes.
Segundo o professor Luís Augusto Fischer, Verissimo “honrou a memória de seu pai” ao deixar mais de meio século de textos escritos para jornais e revistas e quase 40 anos de livros publicados. Varão de poucas palavras, o historiador fazia o Brasil inteiro rir com o que escrevia –porquê aponta o colunista Ruy Castro. Segundo o repórter Frei Betto, o responsável de “O Clube dos Anjos” e pai do Comentador de Bagé foi o artista que retratou o Brasil.
Em entrevista à jornalista Carolina Azevedo, a tradutora Aurora Fornoni Bernardini afirma que a literatura contemporânea ficou mais pobre ao privilegiar o teor sobre a forma. Segundo a tradutora de mais de século livros, Itamar Vieira Junior, Annie Ernaux e Elena Ferrante são autores de best-sellers sem estilos particulares o suficiente para serem considerados literatura.
Fuvest
Pela primeira vez a Fuvest, vestibular que dá chegada à USP, adota uma lista de leituras obrigatórias composta 100% por autoras mulheres, muitas delas estreantes na seleção. Tanta novidade pode assustar os estudantes, mas traz novos debates para a sala de lição.
“A Visão das Vegetalidade”, de Djaimilia Pereira de Almeida, acompanha os anos de aposentadoria de um ex-capitão de navio negreiro. Depois de anos cometendo brutalidades e violências, o protagonista passa seus dias cuidando de um jardim. A autora, nascida em Angola, migrou para Portugal e se tornou um grande nome da literatura contemporânea em português.
De 30 de agosto a 25 de outubro, a Lar de Cultura do Parque promove a 4ª edição do Prosa do Vestibular, uma série de encontros presenciais e gratuitos dedicados às leituras obrigatórias da Fuvest 2026.
Além dos Livros
Durante 15 anos, o antropólogo Michel Alcoforado se infiltrou entre milionários e bilionários brasileiros para estudar o comportamento das camadas mais ricas da sociedade. Ele conta à repórter Gabriela Caseff que, para se aproximar do seu público-alvo e concluir o livro “Coisa de Rico” (Todavia, R$ 89,90, 240 págs.), precisou perder 40 quilos, refinar o paladar, decorar sobrenomes e até inventar uma secretária pessoal.
Em seguida uma vida dedicada aos contos de fadas porquê leitora e depois pesquisadora, Katia Canton ainda é encantada pelo gênero, apesar de consciente de seus problemas. Acusados de exaltar demais a formosura e reproduzir dinâmicas machistas, os contos de fadas são também via de escape e ensinamento para os perigos e tristezas da vida. Presentes desde que o ser humano começou a se enviar, “são a coisa mais universal que a gente tem”, porquê diz Canton.
O número de pessoas que lê por prazer é cada vez menor, aponta pesquisa da University College London e da Universidade da Flórida. Dados mostram que, nas últimas duas décadas, a quantidade de leitores dos Estados Unidos que escolhe um livro por lazer cai 3% a cada ano. Em 2023, 16% dos leitores americanos declararam recorrer à leitura para se divertir.
