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'Vicentina' transforma tragédia em retrato de comunidade 01/11/2026
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‘Vicentina’ transforma tragédia em retrato de comunidade – 01/11/2026 – Ilustrada

Cada um faz seu luto porquê pode. Vicentina, de quem fruto era motorista de ônibus, o faz passando de porta em porta para se desculpar pelo fruto, que ela julga responsável por um sinistro horroroso. O ônibus caiu de um viaduto, virado, matando não só o rapaz porquê quase todos os passageiros.

Não existe nenhuma evidência de que ele fosse o culpado, mas a polícia tem lá suas dúvidas, que os noticiários da TV multiplicam por dois e os programas sensacionalistas, por dez. Vicentina passa os dias e noites vendo televisão, cada dia sentindo mais culpa pelo realizado.

Em um momento, decide iniciar o seu périplo: visitar cada mãe ou pai de vítima para pedir desculpas pelo mal que o fruto teria causado. É evidente que qualquer testemunha pode lembrar do acidente de um avião, na Europa, em que o copiloto tomou a cabine de comando até levá-lo ao solo, matando todos os passageiros.

Cá é um pouco dissemelhante. E pode-se perguntar até que ponto a mídia não bota toda atenção na eventual responsabilidade do motorista, sem notar à penca de problemas técnicos que podem afetar o comportamento de um veículo.

O importante é que Vicentina se põe a pedir desculpas. Toda a sua vida desenrola-se logo num envolvente amarelado, que parece reproduzir sua depressão.

É curioso porquê o diretor Gabriel Martins passa de um filme onde a felicidade dá o tom —”Marte Um”— para outro em que a dor é o sentimento mais presente. Na sentença da atriz, assim porquê em seu marchar, com ajuda de muleta, a dor se manifesta.

No entanto, será ela o paisagem principal do filme? Ou seria sobretudo um pretexto para que, visitante em seguida visitante, uma variedade de reações aconteça e fragmentos de vida de pessoas quase sempre modestas, quase sempre negras e periféricas, apareçam. Há quem se alivie ao falar com ela, quem a ofenda, quem partilhe sentimentos ou simplesmente não a receba.

Finalmente, o que é a dor? Qual o caminho para seu conforto? Essa é a única pergunta, me parece, que justifica o périplo de Vicentina, que não o torna um manobra penoso e vão, porquê se somar ao seu o sofrimento dos outros pudesse constituir uma forma de conforto. Em suma, o luto é pessoal, intransmissível.

O que mais importa, todavia, é outra coisa: a maneira porquê pessoas quase sempre modestas, pertencentes a uma pequena classe média, podem se identificar, não na dor, mas nos gestos. O que atravessa essas visitas todas é o sentimento de terem alguma coisa em geral. Não somente essa história imediata, a do sinistro, mas alguma coisa mais difuso: existe uma história não dita que aproxima as personagens.

Sim, são quase todas negras, mas diferentes das de “Marte Um”, que decorriam de um momento de conquistas que levavam à paridade, ou a alguma coisa próximo, a um sonho de paridade.

Em “Vicentina” tudo aponta para outro lado. O sofrimento de Vicentina antecede o acidente, ele vem de seu corpo, da perna claudicante. Não é um filme de vitória, mas de guia. Não de todo, entretanto. Em oferecido momento, Vicentina cruza com um parelha de idosos para quem o mais importante no encontro com ela consiste na possibilidade de pedir um moeda, uma espécie de indenização pelo acidente que matou seu fruto. É um desfeita, evidentemente.

Mas a mulher lhe entrega o que pode: existe um sentido de solidariedade que vai além do veste repentino. Um sentido de comunidade, talvez. A algumas variantes dessa comunidade de pequena classe média da periferia é que o filme procura nos apresentar.

Talvez o maior reparo que se possa fazer a esse filme seja seu tom cavernoso, que somente por possibilidade parece coincidir com o amarelão da Netflix, que distribui o filme. Esse tom é de infelicidade, certamente. Mas há um momento em que alguma coisa de muito peculiar acontece.

Estamos em uma sala, com uma mesa detrás das personagens. Ali estão uma garrafa muito branca e um objeto amarelo-vivo. E esses dois criam um contraste que em zero afeta a tristeza do tom, mas lhe tira a atmosfera funérea.

Esse pormenor de direção de arte —e, mais do que isso, de direção— não importa muito, pois antes de tudo “Vicentina” impõe a originalidade de um olhar capaz de colher pessoas e paisagens interiores com a intensidade do vivido.

De todas as visitas que faz Vicentina, uma me chamou a atenção: a do varão que atribui toda a responsabilidade da tragédia não só ao fruto, porquê à própria Vicentina, porquê se atribuir a culpa a alguém —e alguém que já se sente culpada sem nenhum motivo palpável— já o aliviasse.

A cada versão —os que são ternos, os que abraçam, os que são distantes ou mesmo hostis— revela-se um miga de um mundo multíplice, atravessado ele mesmo de dores, tristezas, recalques e também alegrias.

Folha

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