Virgulino é um robô de muro de um metro e meio, ‘contratado’ há muro de 45 dias uma vez que garçom na panificação Villa Grano, em São Paulo (SP). Sua função é levar pratos e copos de um lugar para o outro, com um planta das mesas e cadeiras já programado em seu sistema.
“O pessoal adorou. Já compramos cinco no totalidade, e agora estamos vendo um robô para faxina também”, conta Douglas de Oliveira, sócio-proprietário da Villa Grano.
O robô é da marca chinesa Keenon, que chegou ao Brasil pela startup Kratos Robotics, criada há oito meses pelo empresário Marcello Lucarelli e mais dois sócios. “Vimos que tinha mercado lá fora e resolvemos trazer para cá também. Já estamos enchendo duas mãozinhas [de quantidade de clientes]”, diz.
São quatro vertentes de robôs da empresa. Os garçons, para atendimento em restaurantes e padarias; os de limpeza, mais voltados para a indústria e estabelecimentos comerciais; os de logística, para transporte de trouxa em armazéns, supermercados e hospitais; e os robôs de notícia, para partilhar brindes em feiras e eventos, e não para interação.
A startup trabalha com robôs de serviço, que são diferentes dos robôs humanoides. “Os humanoides têm seu mercado, mas o investimento inicial ainda é muito tá. A gente acha que não é o momento”, afirma Marcello.
Outro cliente da Kratos é a panificação Quinta do Marquês, em Alphaville, que já tem o robô-garçom desde janeiro. “É a veras, são muito produtivos”, diz o sócio Marcos Gonçalves Nunes à reportagem.
As padarias Delícia de Perdizes e La Ville também testaram a tecnologia por um tempo, e estão avaliando se vão seguir no ramo. Cada robô custa R$ 92 milénio.
“Já valeu muito a pena”, afirma Douglas de Oliveira, da Villa Grano. Ele comenta que alguns importadores ofereceram robôs a preços menores, mas que permaneceu firme na escolha pelo indumento de a Kratos oferecer suporte no Brasil. “Se um negocinho quebra, o que vou fazer com ele? Jogar fora?”, questiona.
Oliveira conta que tentou colocar um uniforme de garçom no robô, sem saber que o tecido poderia permanecer em cima de qualquer sensor. “Ele ficou rodando no meio do salão, todo doido. Falei ‘parou de funcionar’. Liguei para o suporte, três horas depois apareceram cá para me explicar”, diz.
Se o robô Virgulino encontra um travanca novo, pede “Com licença, poderia me deixar passar, por obséquio? Preciso passar”. Caso ninguém o ajude a continuar seu caminho, ele dá meia-volta e tenta chegar a seu direcção por outro lugar.
Para os clientes mais antigos, o robô pode até ser interessante, mas o atendimento não é zero comparado aos garçons humanos. “Apesar de que, hoje em dia, até os humanos falam com a gente parecendo robozinhos, lotados de trabalho”, diz a pedagoga Maitê Bone, 65, que frequenta o Villa Grano há décadas.
O sócio Douglas de Oliveira comenta que a falta de mão de obra foi um fator decisivo para a compra dos robôs. A loja na Vila Clementino, inaugurada há 12 anos, já contou com 150 funcionários, mas hoje só emprega século. “Precisamos de pelo menos 120, são 20 vagas abertas, e ninguém aparece”, relata.
Segundo a Sampapão, organização que representa o segmento de panificação e confeitaria em São Paulo, existem 30 milénio vagas do setor só na capital, 55 milénio no estado e 140 milénio no país. Mas o objetivo dos empresários não é, pelo menos por enquanto, conseguir resolver a dificuldade de falta da mão de obra com as máquinas.
A Villa Grano também já instalou caixas de autoatendimento, etiquetas eletrônicas que “piscam” quando há promoções, um cortador de pão automático e um cardápio por QR Code. “Tem juvenil que chega cá e prefere pedir pelo celular, receber a comida pelo robô e remunerar pelo totem. Sai sem falar com ninguém”, diz Oliveira.
Ele diz, porém, que quando implementou o cardápio por QR Code, menos de 1% dos clientes utilizavam, e hoje somente 5% adotam essa modalidade. “Tem gente que gosta de receber uma sugestão do garçom, ou de pedir para tirar alguns ingredientes, e pelo celular é mais difícil.”
Para Patrícia Artoni, professora na FIA Business School, o uso de robôs em ambientes uma vez que padarias pode ser positivo, desde que feito com planejamento. “Há um investimento não só financeiro, mas também de adaptação cultural dos funcionários e clientes”, diz.
“Se muito programado, ele ajuda a reduzir erros e liberar funcionários para tarefas mais humanizadas. Mas se for usado de modo rígido demais, pode gerar o mesmo estresse de quando a gente liga para um atendimento automático que não resolve o problema.”
A pesquisadora diz que o sucesso depende da percepção de mercê pelo cliente. “Quando ele vê que o robô é mais rápido e prático, tende a preferi-lo. Mas, se sentir que perdeu autonomia ou protecção, vai querer falar com uma pessoa.”
Sobre o mercado de robôs, o professor Plinio Aquino Jr., coordenador da RoboFEI, equipe campeã do Mundial de Robótica de Serviço em 2022 na Tailândia, afirma que muitos dos modelos usados no Brasil ainda não foram adaptados para suas novas funções.
“São robôs genéricos, importados da China. Por isso, às vezes o cliente tem que se levantar da mesa para pegar o prato, porque o robô não chega na posição certa”, explica.
Para ele, porém, a tendência é que isso mude rapidamente. “Nos próximos 12 meses, deve possuir uma evolução grande, com robôs realmente adaptados ao negócio. O robô pode ser até melhor do que uma pessoa no quesito segurança, porque tem sensores traseiros e detecta obstáculos, mas se não houver suporte técnico vernáculo, a operação fica vulnerável.”
Para o pesquisador, a principal vantagem da robótica de serviço está na redistribuição de funções. “O robô não substitui o humano. Ele libera as pessoas para atividades mais nobres, uma vez que ajudar um cliente idoso a se sentar ou oferecer um novo prato, enquanto a máquina leva a louça pesada até a cozinha.”
