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'Virtuosas' satiriza conservadorismo a partir do terror 27/09/2026
Celebridades Cultura

‘Virtuosas’ satiriza conservadorismo a partir do terror – 27/09/2026 – Ilustrada

A superioridade do cinema brasílico atual se manifesta em diversos longas exibidos nos últimos anos. Um deles é “Virtuosas”, atração da 49ª Mostra Internacional de São Paulo que finalmente estreia em rotação mercantil.

Nesta notável estreia em longas de ficção da catarinense Cintia Domit Bittar, três mulheres jovens são sorteadas para participar de uma espécie de retiro, de onde sairiam virtuosas, preparadas para satisfazer um papel na sociedade que certa parcela do Brasil considera ideal.

A anfitriã do retiro é Virgínia Heinzel, virtuosa por superioridade, personagem que propicia a maior versão da curso de Bruna Linzmeyer até cá. É uma mulher bem-sucedida, que manipula as outras e não mede as consequências para obter o que quer. Graças à atuação de Linzmeyer, comunica com seu olhar uma malvadeza disfarçada de compreensão.

Uma das jovens sorteadas é Lorena, vivida por Juliana Lourenção. Famosa, esposa de um deputado, está em crise, enxurro de medos e receios. Ela vai com seu bebê e acredita que tem uma feitiçeira o assombrando, pois ele não para de chorar. Curiosamente, é a que mais se aproxima da mãe ideal, e por isso sua presença no grupo é muito importante.

Outra é Barbara, interpretada por Sarah Motta. É uma espécie de coringa, que ora pende para a totalidade submissão, ora parece vacilar de alguma coisa, embora seja facilmente manipulável, puro útil para a vilania que irá se impor.

A terceira sorteada, Germina, papel da ótima Maria Galant, parece uma estranha no ninho. Ela é tratada desde o início pela direção uma vez que uma contraditor, logo, uma instância questionadora forçoso para a sátira que o filme vai desfilar em imagens irônicas. Germina desconfia de que há alguma coisa estranho e pretende fazer uma reportagem sobre o que vê na mansão.

Há uma quinta mulher, chamada Goreti, personagem de Brisa Marques. Trata-se da assistente de Virgínia, típica jovem bobinha que pode esconder algumas cartas na manga, um libido concupiscente por Virgínia, por exemplo.

O prelúdios do filme não difere de tantos outros que ironizam o atual conservadorismo brasílico, uma vez que “Divino Paixão”, de Gabriel Mascaro, ou o recente “Todo o Sentimento”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa. Vemos uma palestra com falas de autoajuda, música ruim, comoção suspeita e tudo mais.

Com o passar do tempo, os contornos começam a permanecer claros; o mergulho no cinema de gênero já se anuncia mais sentenciado e promissor do que em outros filmes recentes, que muitas vezes tangenciam o terror porque seus diretores têm terror de um mergulho real num gênero mais mercantil.

Depois de meia hora, as máscaras —dos personagens e do próprio filme— começam a desabar. Por incrível que pareça, tudo fica ainda mais instigante, ao contrário do que normalmente acontece nesse tipo de trama. Lembra outros filmes, mas isto não é demérito, pois a maior secção deles é muito subordinado ao que a diretora consegue cá com superior estilo.

“Virtuosas” tem sacadas de direção meio raras de se ver no cinema contemporâneo, uma vez que o copo na frente de Lorena, distorcendo seu corpo enquanto ela faz uma revelação, ou pistas das intenções de cada personagem por meio do uso do foco, que pode estar no fundo, num esquina do quadro ou mesmo no revérbero das mulheres na janela de vidro.

Em um momento de tensão, Lorena se levanta uma vez que um fantasma, na leito, por trás de Germina, que tira fotos do bebê. Num outro momento, Germina observa Virgínia e Lorena conversando pelo revérbero num pequeno espelho. São truques de estilo muito usados por Brian De Palma, por exemplo. Conscientemente ou não, a cineasta escolhe muito seus modelos.

A sátira ao conservadorismo atual funciona muito muito porque os diálogos são inteligentes, nas ironias, nas trocas de olhares. Chegamos perto de uma simplificação, mas somente ao ponto de fortalecer o retrato dessas mulheres ou da situação. O acerto no tom é impressionante.

A polidez da encenação, principalmente nos primeiros minutos, é importante pelo contraste que justificação com o que vem depois, quando o filme finalmente abraça o gênero.

Filme de mulheres, em que os homens são meros acessórios, quando não intrusos no esquema das coisas. Mulheres aparentemente submissas, mas capazes de cometer maldades e traições. A falsidade é a moeda de troca.

Folha

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