Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

Vladimir Brichta estreia primeiro solo em São Paulo 07/10/2026
Celebridades Cultura

Vladimir Brichta desafia mito do pai-herói em espetáculo – 02/11/2026 – Ilustrada

Vladimir Brichta transitou por diferentes cenários ao longo da curso. Ele caminhou sobre o pasto de uma quinta na romance “Coração de Estudante” e sobre o asfalto das ruas de Copacabana na série “Tapas e Beijos”. No cinema, o ator já andou por uma favela carioca em “Teutónico 2” e por uma cidade sertaneja em “A Máquina”. Agora, em seu primeiro solilóquio no teatro, o artista volta a encarar um cenário inteiramente novo.

Durante pouco mais de uma hora, Brichta se vê confinado em um espaço exíguo formado por painéis de papelão na peça “O Menor Palco do Mundo”, em papeleta no Teatro Vivo, na capital paulista. O espaço claustrofóbico ajuda a racontar a história de um varão determinado a preservar a relação com a família mesmo em meio ao cárcere.

Recluso por traficar maconha, o personagem cria histórias para enviá-las aos filhos porquê uma forma de estar presente na vida deles, apesar da intervalo. Esse é um caso real vivido por Kim Crotty, dramaturgo australiano que escreveu o texto que agora é ajustado para os palcos do Brasil.

“O que me encantou nessa peça foi o vestuário de ser a história sobre um varão fragilizado pela limitação de praticar a paternidade”, diz Brichta, para quem a peça desmistifica uma série de pressupostos sobre a figura paterna. Um deles é a imagem do pai-herói, ou seja, o arquétipo do varão desprovido de falhas e fraquezas.

“Pais não são infalíveis e heroicos, mas muitas vezes performam essa imagem”, afirma o ator. “É uma trouxa tremenda para os filhos, porque eles crescem sob o signo do fracasso, sentindo que nunca vão ser iguais aos pais.”

O próprio artista tem refletido mais sobre a paternidade nos últimos tempos depois Agnes, sua filha mais velha, e Vicente, fruto da relação com a atriz Adriana Esteves, terem saído de vivenda.

A privação física da prole fez Brichta encarar a chamada síndrome do ninho vazio —a melancolia que os pais sentem quando seus filhos decidem morar em outro lugar.

“Esse vazio é uma experiência que me tomou de uma forma muito possante no ano pretérito, muito mais do que eu podia imaginar.” De certa forma, é um incômodo que se entrelaça à história de seu personagem, um varão que precisa encontrar maneiras de enfrentar a saudade e encurtar a intervalo.

“O que a gente faz com todo esse sentimento, com todo esse desvelo e essa atenção? Eu acho que tudo isso, de alguma maneira, está presente na peça.”

Essas perguntas não são exatamente novas para o artista. Em 2001, ele foi separado de Agnes, filha que teve com a cantora Gena Karla Ribeiro, morta aos 28 anos em razão de uma doença rara que desculpa distúrbios do metabolismo.

Posteriormente a morte da mãe, a moço foi passar férias com a avó materna, a procuradora Maria Eugênia da Silva Ribeiro. Ela, no entanto, se recusou a repor Agnes ao pai depois o término desse período.

Brichta decidiu, portanto, entrar numa guerra judicial com a ex-sogra para reaver a guarda da filha. Os dois só voltaram a morar juntos um ano e dez meses depois a separação.

“Eu lutei firmemente para ter a Agnes de volta e para ser pai dela, ainda que eu soubesse que seria uma jornada difícil”, diz o ator, para quem esse é mais um ponto de conexão entre a sua biografia e a história da peça. “O personagem está distante dos filhos, mas ele fala: ‘Eu preciso dar um jeito de mantê-los perto de mim’.”

Existe, ainda, outro elemento que conecta a vida do artista ao enredo da peça. A exemplo do personagem principal, o pai do ator, o geólogo Arno Brichta, se viu distante da família depois ser recluso.

Ele foi retido pela ditadura militar denunciado de ajudar grupos de resistência e perdeu o título de professor da Universidade Federalista da Bahia, a UFBA.

“Eu cresci ouvindo as histórias e pensando a política a partir do ponto de vista de alguém que teve a sua liberdade cerceada por pensar dissemelhante.” O artista, aliás, foi batizado em homenagem a Vladimir Herzog, jornalista morto pelo regime militar.

“O jogo democrático precisa ser preservado. Do contrário, uma opinião divergente pode ser suficiente para você ser recluso e ter a liberdade de estar com seus filhos cerceada.”

O artista enxerga com preocupação o fortalecimento de discursos autoritários em países porquê Alemanha, Estados Unidos e no Brasil. “É pavoroso. A ameaço é de truculência. Não é um retrocesso do tipo vai ter menos verba para as universidades, e sim de tacar queimação em universidade.”

Os paralelos entre a vida do artista e o enredo do espetáculo ganham mais força a partir de uma mudança feita em relação ao texto original. Além do pai encarcerado, ele dá vida a um ator que tece reflexões sobre a própria vida. Essa figura flerta com a trajetória de Brichta, artista que encara o primeiro solilóquio de sua curso.

Essa novidade fez com que ele precisasse fazer uma inflexão em seu modo de atuar. “Primeiro, tive que aprender a respirar e deixar o público respirar também, porque está nas minhas mãos. Eu posso matar o público sufocado se eu não parar para respirar.”

Outra mudança aconteceu justamente no modo porquê ele encara a plateia. Em peças coletivas, o artista não precisava interagir com o público em razão da presença dos colegas de cena.

“Mas, quando você faz um solilóquio, é muito improvável que consiga manter a quarta parede ali, ou seja, ignorar que as pessoas existem. Alguém precisa ser o seu interlocutor. E esse interlocutor será muitas vezes o público”, diz ele. “Isso foi absolutamente novo para mim.”

Por outro lado, trabalhar com monólogos já não é uma novidade para Luiz Felipe Reis, diretor do espetáculo. O encenador entrou em contato com o gênero ao guiar peças porquê “Vista”, de 2023, e “Deserto”, de 2024.

Reis aceitou conduzir esse novo solo por considerar que o texto reflete sobre a subjetividade dos homens.

“Existe uma instância do masculino muito premente e duradoura que é uma espécie de negação a tudo que remete ao frágil, ao vulnerável e à falta de controle”, diz Reis, para quem é importante desafiar a teoria de que homens devem ser indestrutíveis.

“Questionar esse padrão do pai-herói, possante e que não tem temor é contribuir para uma possibilidade de transformação no modo de agir no mundo. Essa é uma pedagogia que desmistifica a quesito ilusória do herói. Isso não existe. Nós somos seres falíveis, frágeis e vulneráveis.”

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *