Wislawa Szymborska é morta em peça teatral 26/02/2026

Wislawa Szymborska é morta em peça teatral – 26/02/2026 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

Uma mulher é condenada à morte pelo assassínio da poeta polonesa Wislawa Szymborska. Na verdade factual, a Nobel de Literatura de 1996 faleceu serenamente enquanto dormia, aos 88 anos. É a partir desta premissa ficcional e provocadora que o diretor Cesar Ribeiro edifica “Projeto Wislawa”: um dispositivo cênico para investigar as razões pelas quais a contemporaneidade insiste em expelir a trova e o pensamento crítico do mundo.

O espetáculo utiliza a obra da poeta para erigir um tribunal simbólico. A ré, interpretada por Clara Roble, não atentou contra uma pessoa física, mas contra um ideal de lirismo e sensibilidade. No banco dos réus, o que se julga é a nossa capacidade sistêmica de produzir violência e intolerância. A montagem transita com fluidez entre os traumas da história europeia do pós-guerra e as feridas abertas da sociedade brasileira atual, estabelecendo um paralelo direto com o recente período de desmonte das políticas culturais no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro.

Szymborska viveu sob a dualidade das opressões que definiram o século 20: a ocupação nazista e o stalinismo na Polônia. Essa vivência forjou nela uma “poética da incerteza”, avessa a certezas absolutas e discursos totalizantes. Cesar Ribeiro conquista essa origem ao observar traumas históricos através do pormenor cotidiano. A dramaturgia entrelaça poemas icônicos, porquê “Retrato de 11 de Setembro” e “Primeira Foto de Hitler”, em uma estrutura fragmentada. Cá, a História não é narrada pela épica solene dos vencedores, mas pelo registro sensível de corpos anônimos e instantes banais que precedem a tragédia.

A estética do grupo Garagem 21 é marcada por um rigor formal que nunca sacrifica a informação. Em “Projeto Wislawa”, a visualidade bebe da natividade das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados. As atrizes Clara Roble e Vera Zimmermann vestem-se de preto sobre um solo de linóleo branco, operando porquê figuras bidimensionais que ganham tridimensionalidade conforme a luz as esculpe.

A iluminação de Rodrigo Palmieri utiliza o vermelho de forma sistêmica, redefinindo a geografia da cena nos momentos de orgasmo. A cenografia de J. C. Serroni reduz o embate a dois objetos de fardo simbólica avassaladora: uma cadeira elétrica e um carrinho de bebê. O dispositivo de realização e o símbolo do promanação estabelecem, sem premência de exposição verbal, a tensão meão da trova de Szymborska — a vida que teima em persistir entre os escombros.

No núcleo do palco, a técnica é exposta: operadores de som e luz trabalham à vista do público, com o diretor entre eles. Ribeiro, que também assina a trilha sonora, expõe os aparatos para exigir do testemunha uma leitura ativa. A música moderna e os recursos audiovisuais constroem uma atmosfera de investigação sobre a desumanização.

O embate entre as atrizes é de subida voltagem. Clara Roble materializa a força bruta que procura desqualificar a arte, enquanto Vera Zimmermann transita entre a narradora, a própria poeta e outras figuras satíricas, trazendo um timing cômico preciso que dá corpo ao sarcasmo contido na obra da polonesa. O figurino de Telumi Hellen e o visagismo de Louise Helène completam o gravura “pop-noir”: óculos escuros, guarda-chuvas transparentes e pétalas de plástico criam imagens de impacto inesperado.

“Projeto Wislawa” investiga porquê o mal se infiltra na linguagem aparentemente simples e nas escolhas cotidianas que sustentam sistemas autoritários. A pergunta que atravessa a montagem é urgente: qual é a nossa responsabilidade quando abrimos mão da anfibologia e da empatia em obséquio de dogmas? A resposta, construída em parceria com a trova da Nobel, reafirma que a arte não é um enfeite supérfluo, mas o único enquadramento capaz de dar sentido a um mundo marcado por guerras e pelo consumismo infrene.

Três perguntas para…

… Cesar Ribeiro

No espetáculo, você cria a ficção de que Wislawa Szymborska foi assassinada, subvertendo sua morte real e pacífica aos 88 anos. Porquê essa escolha de “matar a poeta” no palco ajuda a materializar a tese da peça sobre a tentativa permanente de desqualificar a sensibilidade e a arte na sociedade contemporânea?

O ponto de partida foi o libido de trabalhar a trova de Wislawa Szymborska, que divido entre o olhar sobre o cotidiano e a estrutura global da violência (theatrum mundi). Devido à brevidade dos poemas, criei um fio condutor para evitar uma mera reunião de textos. A dramaturgia reproduz a sensibilidade política e irônica da autora, fundindo texto e trova, exceto quando os poemas são anunciados ao microfone.

A peça desdobra minha pesquisa sobre sistemas de violência (presente em montagens anteriores porquê “Esperando Godot” e “Trilogia Kafka”), focando agora na capacidade de seres vivos matarem outros seres vivos. Depois “Projeto Clarice”, migrei para uma perspectiva feminina e menos centrada no embate direto. Diante da subida da extrema-direita, a obra reflete sobre o assassínio da sensibilidade e da arte através da história fictícia da morte da poeta.

Poemas porquê “Retrato de 11 de Setembro” e “Primeira Foto de Hitler” ocupam lugares estratégicos na peça. Porquê foi o processo de selecionar esses textos específicos para servirem porquê motores da ação e porquê eles ajudam a revelar o “mal que se infiltra no cotidiano”?

Interessa-me o trajectória da violência que se confunde com a própria cultura. Utilizo poemas porquê “Retrato de 11 de Setembro”, que paralisa a queda dos corpos, e “Primeira Foto de Hitler”, que confronta o bebê com o tirano horizonte, para refletir sobre porquê alguém se torna um impedimento à vida do outro.

Abordo diretamente o pensamento conservador que pressupõe a ruína de outras formas de vida para validar seu ideal de mundo. Na peça, as figuras que cercam Wislawa contrastam com a “assassina”, que mata a poeta por não conseguir mourejar com a trova — cá utilizada porquê signo para a profundidade e a multiplicidade dos modos de vida. O objetivo é questionar a lógica do extermínio em prol das possibilidades de viver.

O “Projeto Wislawa” sucede seus trabalhos sobre Kafka, Clarice Lispector e Beckett. De que maneira a poética do “pormenor” e do “gesto invisível” de Szymborska alterou sua investigação anterior sobre os sistemas de violência e poder?

Minha escrita, presente desde o início da curso em 1994, privilegia uma linguagem metafórica, não realista e com desvios narrativos. Em “Projeto Wislawa”, a estrutura é simples: uma assassina condenada anuncia que contará porquê matou a poeta, mas divaga sobre si mesma. Esses desvios revelam o patético da existência e o individualismo da pós-modernidade.

Essa atenção ao pormenor e ao cotidiano é uma progressão originário da minha pesquisa, que passou pela repressão em Kafka e pelas epifanias de Clarice Lispector. O trabalho procura novos ângulos para entender porquê chegamos ao presente e quais futuros são possíveis, mormente frente a movimentos políticos contemporâneos que buscam impedir a existência do outro.

Teatro Paulo Eiró – av. Adolfo Pinho, 765 – Santo Amaro, região sul. Qui. a sáb., 20h. Dom., 19h. Até 1º/3. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ingressos presenciais (R$ 20) 1h antes do início do espetáculo na bilheteria e online em sympla.com.br

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Folha

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