Yves Saint Laurent: sobrinha revela traumas do estilista 02/03/2026

Yves Saint Laurent: sobrinha revela traumas do estilista – 02/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ao longo de uma curso de mais de quatro décadas, Yves Saint Laurent conquistou o mundo. Virou garoto prodígio aos 21 anos em seguida suceder Christian Dior e, em 1958, apresentar a sua primeira coleção para a maison francesa. Intitulada Trapeze, ela era composta por silhuetas mais soltas para permitir o movimento proveniente do corpo por ordinário das peças, propondo alguma coisa novo em relação à cintura marcada desenhada Monsieur Dior no pós-guerra.

Já na sua etiqueta homônima, YSL garantiu a sua relevância na indústria da voga por conta da capacidade de compreender o libido das mulheres antes mesmo delas saberem o que queriam. Ressignificou peças do guarda-roupa masculino para elas usarem em ocasiões tanto diurnas quanto noturnas (calças, trench coats, pea coats, smokings), mas nem por isso deixava de lado as estampas de oncinha ou as cores vibrantes de Mondrian. Assim, não demorou para edificar o lugar mais superior e desejado por um estilista: o coração das clientes e o reconhecimento da prelo especializada.

Todavia, nem todas as festas, acessos, verba e tecidos nobres eram capazes de esconder dos olhos mais atentos o varão inseguro, marcado por vivências duras, que desfilava por Paris em ternos impecáveis. É justamente na intersecção entre o glamour e a veras que Marianne Vic decidiu redigir “O Príncipe da Babilônia”.

Distante das outras tentativas de biografias ou até mesmo de documentários e cinebiografias polêmicas, o livro apresenta uma visão muito mais próxima de seu protagonista já que a autora era a sobrinha querida do estilista. “Existia uma raiva [em mim], uma que marcava o choque entre duas percepções: a de alguém íntimo, que não vê o mito, e a de um testemunha distante, sem aproximação à vida privada que adere sem reservas à narrativa que lhe é oferecida”, conta ela em entrevista.

O descompasso de pontos de vista serviu de base para a escolha narrativa, em terceira pessoa do um. “Isso facilitou o processo. Desde o início rejeitei o ‘eu’ presente em meus outros romances. Parecia-me evidente a urgência dessa intervalo. Um narrador onisciente e bicéfalo me permitiu um balanço entre a subjetividade e a objetividade.” Isso interfere ainda na formatação da história, contada sem preocupação com a cronologia dos fatos.

Aliás, o velório em 2008, com ares de primeira fileira dos desfiles de alta-costura da marca, aparece logo nos primeiros capítulos. “Comecei pelo término para um melhor revinda às origens, à famosa secção oculta de Yves. Uma que seus biógrafos não tiveram aproximação”, afirma.

Em uma das passagens mais marcantes, Marianne descreve os abusos que o jovem Yves sofria em uma França que condenava homossexuais, desde a raspagem de seus pelos corporais até o cheiro impregnado na pele da urina de um dos meninos da escola. Parágrafos depois, já na vida adulta prestigiada, o diálogo: “O que você prefere num varão?”, ao que ele responde “Pelos”.

Tal dicotomia entre o pretérito obscuro e o presente cintilante também dá sustentação para a leitura e dificuldade ao personagem canonizado em vida. “Para superar o processo de reificação que supõe a simplificação da elaboração de um mito, foi preciso sondar certas profundezas.

No caso de Yves, essas profundezas são abismos”, diz, enfática. “Assim, quando nos encontramos diante de uma notoriedade, em vez de ficarmos deslumbrados —e portanto cegos—, me parece mais interessante olhá-lo de igual para igual, porquê humanos conscientes de suas falhas, sem exceção.”

É impossível, e quase ingênuo, querer se conectar com Yves Saint Laurent por meio da sua genialidade criativa ou pelo frescor de suas ideias sempre vanguardistas. O que torna a proposta de “O Príncipe da Babilônia” mais palpável, justamente pelas escolhas que moldaram o varão por trás do acrônimo, incluindo a relação dúbia com a mãe, a argelina Lucienne Andree Mathieu-Saint-Laurent.

Em um movimento aventuroso e surpreendente, Marianne Vic recapitula os traumas da família desde a sua bisavó, segundo ela, para evitar transmitir aos filhos aquilo que não lhes dizem saudação. “Escavei o sulco das origens muito antes de redigir levante livro. Tentei ser uma espécie de interruptor cármico, depois de ter sentido o sofrimento das mulheres da minha família. Vi porquê o orientação de Lucienne, minha avó, destruiu seus três filhos: meu tio, minha tia e minha mãe. Tentei fazer com que isso parasse.”

Na investigação sem urgência de respostas de uma subjetividade que atravessa a sua própria, a autora também encontrou momentos marcantes —longe das passarelas ou dos holofotes. “Os mais memoráveis remontam à puerícia, quando meu olhar ainda era puro de sua notoriedade. Ele ainda não havia sido destruído por suas dependências. Permanecia entre nós a possibilidade de um diálogo”, conta.

Uma inocência importante também para dar respiros à escrita. “Não há zero insólito nas lembranças que tenho dele, talvez por isso elas sejam tão importantes. Não havia encenação, ele era livre para ser ele mesmo diante da moçoila que eu era.”

Folha

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