Zadie smith: escrever livro é roubo e autores são crianças

Zadie Smith: Escrever livro é roubo e autores são crianças – 27/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Zadie Smith não liga se nunca mais grafar um grande livro. É uma asserção estranha vinda de qualquer escritora, ainda mais de uma expoente da sua geração, acostumada a transformar seu mundo em ficção ambiciosa desde quase rapariga. Mas talvez a explicação seja justamente essa.

“Escritores jovens são destrutivos. E deveriam ser. Mas você fica mais velha e não quer mais machucar as pessoas. Fica muito doloroso”, diz a autora de 49 anos, ostentando um black power e um casaco esportivo da Nike durante a entrevista por vídeo.

“A teoria de um grande livro… Eu não me importo, esse é o problema. Quando você é jovem, faria de tudo, tomaria qualquer coisa, machucaria qualquer um. Mas agora não há nenhum livro que eu queira grafar que seja mais importante que a minha relação com outros seres humanos.”

A autora britânica fala porquê uma veterana exausta mesmo estando muito longe do ocaso —a questão é que ela começou muito cedo. Foi já no seu livro de estreia, “Dentes Brancos”, que Zadie passou a ser tratada porquê uma voz que chegava para renovar o fôlego da literatura em inglês.

O romance lançado em 2000, com mais de 1 milhão de cópias vendidas, era um volume problemático e caudaloso que acompanhava por décadas as famílias de dois veteranos de guerra, Archie Jones e Samad Iqbal. Sua linguagem soava fresca e dinâmica ao se ancorar na coloquialidade e na cultura imigrante no Reino Unificado.

Zadie tinha 24 anos quando virou best-seller —e seus grandes romances subsequentes, porquê “Sobre a Formosura” e “Ritmo Louco”, seguiram a mesma receita em escopo e ousadia, sempre numa retórica muito contemporânea. Agora o novo “A Fraude” é seu primeiro romance histórico, com personagens reais.

Ambientada na Inglaterra vitoriana, a obra que acaba de trespassar pela Companhia das Letras com tradução de Camila von Holdefer narra o julgamento de um varão bonachão que clama ser Roger Tichborne, um superior sumido há tempos. Mesmo com as fortes evidências em contrário, ele angaria um séquito de fãs em torno de seu carisma e do que podemos invocar de certa postura antissistema.

Conforme as quase 600 páginas avançam, ganha valor na trama um coligado de Tichborne, o senhor Bogle, ex-escravizado que tem raízes na Jamaica, porquê a autora do livro. No universo criado por Zadie, vai ficando simples que todo mundo mente, todo mundo finge e usa máscaras —a questão é quem pode fazer isso e quem é perseguido.

Uma das discussões centrais do romance, por exemplo, é porquê escritores roubam experiências alheias para edificar sua obra —e sua personalidade. É o que Zadie afirma não conseguir mais fazer porquê antes.

“Alguns roubam mal, outros porquê Charles Dickens roubavam muito, mas é isso que autores fazem. Eu não defendo, não é um traço aprazível, mas não há nenhuma versão dessa profissão que não seja um roubo contínuo”, diz, com o rosto totalmente sério.

E é isso que costuma magoar as pessoas ao volta. “Não é que haja malícia, mas é intolerável quando escrevem sobre você. É repugnante ser achatado, transformado em um personagem. Sem ofensa, mas eu não suporto a versão de mim que aparece nos artigos de jornal. Logo eu entendo a irritação.”

“A Fraude” é relatado da perspectiva da governanta Eliza Touchet, parceira do redactor William Harrison Ainsworth, que existiu mesmo no século 19 e foi compadre de Dickens e William Thackeray —ambos aparecem no enredo, com frequência na chave de zombaria que tempera o romance todo.

A empregada brinca em evidente momento que “o senhor Dickens”, admirado pela liberalidade que tinha com os órfãos desfavorecidos da região, “veio a Manchester em primeiro lugar em procura de personagens”.

Quanto ao senhor Ainsworth, “ali as fantasias de 1820 persistiam, porquê um cenário dissonante”. “Tudo já fora usado antes ou fora surrupiado da vida”, diz a narração. “Desse tecido desgastado e dessa verdade sequestrada são feitos os romances.”

São argumentos que conversam com o momento de crise da própria Zadie. O repórter pergunta se ela ainda vê esses clássicos do cânone britânico porquê inspiração ou só porquê um pouco a desmontar.

“Sabe, eu não leio Dickens desde muchacho”, diz. “Eu senhoril os escritores britânicos e não quero ofender uma classe a que eu pertenço, mas sempre achei que nosso maior talento era para literatura infantil, de ‘Alice no País das Maravilhas’ a ‘Harry Potter’. Somos brilhantes nisso. Eu adoro Dickens, mas não acho que seja um redactor para adultos.”

A literatura mais adulta de que tem gostado vem do Japão, da Escandinávia, da África Ocidental e da América do Sul. “É difícil imaginar um Borges saindo do Reino Unificado”, elogia.

Infantilidade, para Zadie, é menos ofensa que constatação objetiva. Quando o repórter pergunta se ela ainda se sente muchacho de alguma forma, a resposta positiva vem na lata.

“Quando você passa dos 40 anos, percebe que o que há ao seu volta são crianças de terno e chapéu. Você acha que vai estar entre adultos, mas está literalmente olhando para crianças”, afirma.

“E não ajuda o indumento de meu trabalho ser tão pueril. Nós, escritores, passamos muito tempo fechados sozinhos numa sala, não lidamos com a fricção com outras pessoas. Esse é um dos grandes problemas de quem começa jovem porquê eu, é muito difícil amadurecer num vácuo. É por isso que acho muitos escritores constrangedores.”

A entrevista com a autora dura meia hora, todos os minutos marcados por franqueza divertida e fora do geral. Zadie envereda por discursos longos e contundentes em cada resposta, se perde emendando uma coisa na outra e, quando vê que o interlocutor faz menção de falar, se interrompe rápido e diz: “Vai”.

O repórter pergunta se a postura de não querer mais magoar as pessoas —deixar para trás o tempo de escritora destrutiva— vai afetar a sua literatura. “Provavelmente vai me tornar uma escritora pior. Mas tudo muito. Eu já escrevi muito, sabe”, diz a autora de seis romances, duas coletâneas de contos e um livro de ensaios.

“Tenho sorte porque posso me dar ao luxo de fazer essa escolha. Não quero grafar porque é minha profissão, porque está na hora de publicar outro romance. Quero grafar porque quero grafar. Mas não libido mais os romances do que libido a vida.”

Folha

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