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Zélia Amador de Deus, de Ananse, de Nanã e do
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Zélia Amador de Deus, de Ananse, de Nanã e do Pará – 27/08/2026 – Djamila Ribeiro

Há muito o que ver em Belém, capital paraense que senhor visitar. É daqui que escrevo leste texto, com vista para a baía do Guajará, tomada por um sentimento de gratidão depois o encontro com um patrimônio do Pará: a professora doutora Zélia Namorado de Deus.

Para quem ainda não a conhece, é preciso expressar que a professora Zélia é uma mito viva brasileira.

Nascida na Ilhota de Marajó, é cofundadora do Núcleo de Estudos e Resguardo do Preto do Pará, o Cedenpa, uma das mais antigas e importantes organizações do movimento preto na região Setentrião e no Brasil.

Zélia deixou sua marca em todos os lugares por onde passou e teve papel decisivo na geração de políticas de ação afirmativa no estado.

É doutora e professora emérita de sua psique mater, a Universidade Federalista do Pará, e doutora honoris justificação pela Universidade do Estado do Pará. Durante décadas de docência, orientou incontáveis trabalhos acadêmicos. Ao longo de sua trajetória, destacou-se também uma vez que atriz —participando de inúmeras peças no Theatro da Sossego—, escritora e ativista.

A professora Zélia é uma herdeira de Ananse, uma vez que escrevi nesta Folha em 2019. Representado uma vez que uma aranha, Ananse pertence à tradição dos povos fante-ashanti da África Ocidental. Em uma de suas narrativas, todas as histórias pertenciam a Nyame, o deus do firmamento. Com perceptibilidade e astúcia, Ananse realiza tarefas consideradas impossíveis, conquista o recta de também possuir essas histórias e passa a distribuí-las pelo mundo.

Para Zélia, sua teia representa os vínculos que acompanharam a população negra na diáspora: fios de memória e resistência por meio dos quais os povos negros sobreviveram, preservaram seus saberes e criaram condições para racontar a própria história.

Daí a honra de ser recebida em sua lar, no tranquilo bairro da Cidade Velha. Ali, Belém preserva segmento importante de seu patrimônio: as casas e os prédios permanecem baixos, em uma região com atmosfera de cidade do interno.

No apartamento, subi de elevador e encontrei à porta seu companheiro, o médico pneumologista jubilado Anselmo. Juntos há mais de quatro décadas, eles formaram uma linda família, cuja história se espalha pelas fotografias dispostas por toda a lar. São lembranças de viagens, bailes e momentos de muita felicidade. Para mim, tal qual sonho é envelhecer muito, ver uma senhora negra triunfante, cercada de paixão, conforto e zelo depois de tantos serviços prestados a leste país, é alguma coisa que me sensibiliza profundamente.

Seguindo a sugestão da professora Isabel Cabral, sua leal escudeira, levei-lhe a flor mais lilás que encontrei, em homenagem à cor de Nanã, a orixá anciã do panteão, soberana dos pântanos, senhora da sabedoria e da memória.

Certa vez, vi um vídeo do babalorixá Sidnei Nogueira no qual ele explicava que Nanã é a sabedoria porque ela também é a memória. Uma acompanha a outra —e ambas vivem em Zélia Namorado de Deus, filha de Nanã e devota de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará.

A vegetal era grande e o vaso escolhido no mercado Ver-o-Peso trazia desenhos de símbolos de Exu, o orixá da informação. A escolha também homenageava um encontro nosso em 2019, do qual nunca me esqueci, quando a professora foi me visitar na Feira Pan-Amazônica do Livro.

Eu atravessava um período em que estava ferida pelas perseguições nas redes sociais. Naquele momento, a subida de uma mulher negra uma vez que intelectual despertava incômodos e os ataques se sucediam, vindos das mais diversas correntes ideológicas. Minha couraça ainda estava se formando. Talvez tenha sido isso que a professora percebeu quando fez questão de ir me ver.

Sentada comigo em um camarim, Zélia segurou minha mão e me disse: “Djamila, Exu é o senhor dos caminhos. Com sua agressividade, abriu trilhas pela diáspora. Precisamos continuar sendo corpos insurgentes, corpos que incomodam e abrem espaços. Não podemos descair a cabeça. Seja agressiva uma vez que Exu e abra seus caminhos”.

Uma vez que uma boa filha de Nanã e dona de uma supimpa memória, ela se lembrou daquela conversa mal viu o vaso. Juntas, reconstituímos os fios daquele encontro e os entrelaçamos às histórias compartilhadas naquela manhã, ao volta de uma mesa farta de moca da manhã, com taperebá, cupuaçu e outros sabores do Setentrião.

Olho para a imensidão da baía com o coração aquecido pela honra de ter estado com ela. Entre as teias de Ananse e a sabedoria de Nanã, reencontrei a mais velha, que guarda o pretérito, abençoa o presente e aponta o horizonte.

Que seu legado, uma vez que a flor mais lilás que encontrei, siga florescendo na memória de todas e de todos nós.


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Folha

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