Poucas vezes o teatro encarou a vaidade da geração com tanta lucidez e amargura quanto no testamento dramático de Henrik Ibsen (1828–1906). Ao terminar “Quando Despertarmos de Entre os Mortos” às portas do século 20, o dramaturgo norueguês deixou de lado as teses sociais que o consagraram para montar um tribunal íntimo sobre a própria vocação.
No palco do Teatro Paulo Autran, a montagem dirigida por Elias Andreato resgata essa obra quase inédita no Brasil e transforma o embate do estatuário Arnold Rubek numa reflexão sobre o dispêndio humano da sede estética. O espetáculo entende que a morte, antes de ser o termo do corpo, se instala porquê uma paralisia interno: quando a rotina e o prestígio continuam funcionando, mas a capacidade de desejar já se apagou por completo.
A encenação aposta na força do teatro de câmara e recusa a pressa contemporânea. O tempo pertence à vocábulo dita e ao peso do silêncio, pedindo do público uma escuta atenta que acompanha a própria geografia do texto. A ação começa na calmaria enganosa de um balneário, onde a simetria burguesa logo é desmentida pelos diálogos, e avança em direção à secura das montanhas.
Wagner Freire desenha uma luz que esculpe os corpos em cena com a rijeza de um atelier, enquanto a trilha de Dan Maia pontua os momentos de ruptura, ainda que, por vezes, adiante a tensão antes que o texto atinja sua própria fervura.
Celso Frateschi dá a Rubek uma maturidade sem afetação. Em vez de erigir o mito do gênio obsesso, o ator expõe o cansaço de um varão que transformou seu ofício em negócio de bustos fúnebres e decorativos, vendendo a própria vitalidade em troca do ovação.
O contraponto desse colapso surge na presença quase mineral de Maria Fernanda Cândido porquê Irene, a antiga musa que posou para a obra-prima do artista. Ao acusar Rubek de ter tirado sua juventude para moldar a pedra enquanto recusava qualquer envolvimento afetivo, ela expõe a face predatória da geração artística. Cândido mantém uma postura hierática que evoca o mármore, embora essa solenidade vocal contínua por vezes retire o calor do atrito no confronto direto.
É no projecto terreno que o espetáculo ganha sua maior tensão dramática. Maria Manoella constrói Maja com lucidez e impaciência impúdico. Longe do papel da esposa jovem e alienada, ela expõe a falência do himeneu de conveniência e reivindica a urgência do agora.
O diálogo entre Manoella e Frateschi no segundo ato sintetiza o barranco que separa quem ainda deseja viver de quem já se fossilizou. Ao lado do caçador Ulfheim, vivido por Fernando Nitsch com um vigor rústico que por vezes cercadura o excesso acústico, Maja escolhe o vale e a sobrevivência concreta.
Essa bifurcação ilumina a raiz filosófica que liga Ibsen à linhagem nórdica de August Strindberg e Ingmar Bergman, onde a paisagem física externa funciona porquê espelho de uma mente fraturada. Rubek tentou fixar o mundo numa forma inalterável e asséptica, sufocando a torrente dos instintos em nome de uma pureza abstrata. A material viva, todavia, serpente seu preço.
Enquanto Maja desce para a terreno, Rubek e Irene insistem na escalada cega rumo ao gelo eterno. Ao acreditarem que enfim despertam, encontram na avalanche final a prova definitiva de que a evo do monumento nunca compensa a recusa da vida.
Três perguntas para…
… Maria Fernanda Cândido
A relação entre Rubek e Irene discute francamente o dispêndio ético da geração artística e o papel da musa porquê objeto de extração estética pelo varão. De que maneira você enxerga a sonância desse debate no palco hoje?
Existe, na relação entre Irene e Rubek, uma objetificação da mulher, um uso de sua vida a serviço da geração de uma obra de arte. O que está em questão é que, nesse processo, a pessoa em sua totalidade não é considerada. O que importa é aquilo que sua existência pode oferecer à geração artística. E eu vejo nisso uma forma de afronta. E creio que essa discussão é pertinente ao mundo contemporâneo.
Irene dedicou os anos de sua juventude a essa relação. Ela amou Rubek, e esse sentimento torna tudo ainda mais doloroso. As consequências dessa entrega foram enormes. Ela não conseguiu erigir uma vida que encontrasse lugar na sociedade de seu tempo. Viveu marginalizada, passou por uma internação em um sanatório e foi considerada uma mulher desajustada.
A peça deixa simples que não houve afronta sexual entre os dois. Mas isso não significa que não tenha existido outra forma de afronta. A experiência de Irene nos permite pensar sobre as diferentes maneiras pelas quais uma pessoa pode ser usada, ter sua autonomia desconsiderada e suportar as consequências de uma relação em que o outro não reconhece sua humanidade em toda a sua dimensão.
A montagem de Elias Andreato valoriza o silêncio, a pausa e a retórica clássica. Em um momento de estímulos visuais rápidos e fragmentação, porquê é proteger um teatro que exige essa escuta vagarosa do testemunha?
É a oportunidade de testar uma montagem clássica de um texto consagrado, de estabelecer uma relação com a vocábulo, com o texto e com o tempo próprio do teatro.
Ao mesmo tempo, a peça aborda um tema que se encaixa perfeitamente nas discussões do mundo contemporâneo: o ego, o doutrinado ao próprio eu. Vivemos em um mundo em que as redes sociais privilegiam muito a imagem de si mesmo, e essa é uma questão médio na peça.
Rubek é um artista de ego superdimensionado, que desconsidera as mulheres que o cercam. Irene é a musa que inspirou sua grande obra e que contribuiu para que ele se tornasse um estatuário célebre, divulgado internacionalmente. Mas, ao colocar a geração supra da pessoa, ele desconsidera a mulher que tornou essa obra provável.
Sua personagem é assombrada pelo tempo esperdiçado e por escolhas irreversíveis. Uma vez que a maturidade profissional tem transformado o seu olhar para os papéis que você decide admitir?
A maturidade profissional me trouxe um olhar mais consciente e criterioso para as minhas escolhas. Hoje consigo olhar para um projeto para além das oportunidades que ele representa, considerando também o que ele me oferece porquê experiência, porquê possibilidade de investigação e de prolongamento.
Isso não significa ter mais certezas, mas saber melhor as perguntas que preciso fazer a mim mesma. Espero seguir em frente, preservando a minha curiosidade e disponibilidade para o incógnito.
Teatro Paulo Autran | Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, zona oeste. Quinta a sábado, 20h. Domingo e feriados, 18h. Nos dias 29 de outubro e 5 de novembro, 17h. Até 8/11. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 27 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades.





