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A Argentina desta Copa desafia nossa compreensão 13/07/2026
Celebridades Cultura

A Argentina desta Copa desafia nossa compreensão – 13/07/2026 – João Pereira Coutinho

É das coisas mais divertidas desta Despensa: o ódio que a Argentina desperta na plateia. Não falo exclusivamente dos brasileiros. Falo do mundo ao volta, que olha para as vitórias sofridas da seleção uma vez que uma provocação maldosa —ou, pior, uma fraude completa.

A Argentina na semifinal é uma injustiça clamorosa. Se continuar para o jogo último, é uma injustiça cósmica. Se for campeã novamente, Deus não existe e a raça humana deve ser extinta.

Um colega —brasiliano, evidente— vai mais longe: a Argentina não merece nenhuma de suas Copas. Em 1978, em plena ditadura, o troféu teria sido comprado pela junta militar, que corrompeu o Peru para perder de goleada, e o louvado da final contra a Holanda.

Em 1986, a “mão de Deus” é uma das páginas mais vergonhosas da história das Copas —falo do gol que Maradona marcou com a mão. Uma vez que respeitar uma campeã que elimina a Inglaterra nas quartas de final com um roubo tão descarado?

E 2022, no Qatar, foi a prova definitiva de que a Fifa e os árbitros salvaram a seleção, sobretudo depois da itinerário chocante da estreia para a Arábia Saudita. Tudo é negócio sujo.

Não me meto nessas guerrilhas entre “hermanos”. Sobre 1978, zero tenho a expor: Little Couto, logo com dois anos, ainda não acompanhava futebol.

Conheço exclusivamente as suspeitas: a visitante que o general Videla e Henry Kissinger fizeram ao vestiário do Peru para desejar “ventura” antes da goleada que os peruanos sofreram —ou concederam.

E conheço as alegações de que o Peru, depois da itinerário profíquo, recebeu 35 milénio toneladas de grãos argentinos e os US$ 50 milhões que tinha retidos no Banco Médio da Argentina.

O problema é que os historiadores das Copas pintam outro quadro: Jonathan Wilson, no recente “The Power and the Glory”, não economiza elogios à Argentina de Kempes e companhia —tanto no jogo contra o Peru quanto na final contra a Holanda.

Para Wilson, foi a primeira vez que a Argentina abandonou o “antifutebol” da ruína e da brutalidade para abraçar a perceptibilidade tática, técnica e estética de César Menotti.

Sobre 1986, a primeira Despensa de que tenho memórias nítidas, é importante recordar que a “mão de Deus” foi seguida, no mesmo confronto, por uma jogada em que Maradona driblou metade da seleção inglesa, incluindo o goleiro, para fazer o dois a zero.

Outrossim, contrariando a ortodoxia solene, sou visceralmente contra o VAR. Futebol é uma vez que a vida: questão de sorte, astúcia e milagre. Foi Nelson Rodrigues quem me ensinou a desprezar os “idiotas da objetividade”.

Isso não significa que o préstimo seja irrelevante. Evidente que é relevante —e só diminui o préstimo da Argentina de 2022 quem não assistiu à final contra a França. Eu assisti, no mais improvável dos lugares: perto do Círculo Polar Ártico. Faziam 20 graus negativos lá fora, mas eu suava uma vez que se estivesse nos trópicos.

A grande verdade é que o ódio à seleção tem raízes mais profundas: nosso libido por narrativas simples. A Despensa de 2026 não foge à regra. Se a Argentina tivesse sido eliminada cedo, o roda narrativo se fecharia com a decadência da campeã. Se, ao contrário, a seleção fosse uma vez que a França de hoje —um rolo compressor imparável—, o roda também se fecharia: seria a campeã demonstrando sua superioridade.

A mente humana aceita a queda redentora ou a antecipação clara da vitória. Não aceita a anfibologia e a tortura.

A Argentina desta Despensa é uma história de anfibologia e tortura. Ou de morte e ressurreição permanentes, para usarmos uma linguagem teológica. É um espetáculo de masoquismo —ou de sadomasoquismo, melhor dizendo— que arrebenta nossa pobre capacidade de compreensão.

Queremos previsibilidade. A Argentina nos oferece caos, colapso, gênio e vitórias arrancadas no sofrimento.

O plumitivo Nick Hornby, em momento inspirado, definiu o futebol uma vez que “pain as entertainment”, a dor uma vez que entretenimento. A Argentina é esse entretenimento levado ao extremo. Talvez não seja por casualidade que Buenos Aires tenha nomeada de ter uma das maiores concentrações de psicanalistas por habitante do mundo. Aquele povo precisa.

Feitas as contas, o que libido eu para a semifinal contra a Inglaterra? Não renego meu lado anglófilo. Sessenta anos depois, seria bonito ver o troféu voltar para lar. Mas não tenho exclusivamente um lado anglófilo. O sabor pela ópera e pela tragédia me faz simpatizar com a seleção mais lírica e trágica desta Despensa.

O melhor mesmo é desligar o celular durante a partida. Meu colega brasiliano encontrará um muro de silêncio onde poderá entornar suas alegrias ou mágoas.


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Folha

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