A bailarina argentina na elite do Royal Ballet de Londres – 02/08/2026 – Ilustrada
Marianela Núñez entra na sala de tentativa Frederick Ashton, da Royal Opera House, em Londres, vestindo uma camisa de futebol rosa com o nome de Lionel Messi. Ao cruzar a porta, ela a tira e refolho com o mesmo desvelo com que talinga as fitas de suas sapatilhas de ponta.
Marianela —ou Nela, porquê é chamada na Argentina— é primeira-bailarina do Royal Ballet e conquistou o carinho do público não unicamente por seu talento inédito e enorme carisma, mas também por uma paixão pelo que faz que só aumenta com o passar dos anos.
Nascida em Buenos Aires, em 1982, ela fez sua primeira lição de balé clássico aos 3 anos, quando a mãe a levou a uma escola de dança na cidade de San Martín, na província de Buenos Aires.
“Esse primórdio na dança foi porquê uma cola”, diz, sentada em seu camarim, um pequeno refúgio dentro do teatro repleto de fotos pessoais, perfumes e adesivos de gatinhos, onde recebe a BBC News Mundo —serviço em espanhol da BBC.
Aos 6 anos, ela ingressou na escola do Instituto Superior de Arte do Teatro Colón, em Buenos Aires, onde começou a desenvolver a técnica que a levaria, dez anos depois, ao Royal Ballet, uma das companhias de dança mais prestigiadas do mundo.
Hoje, posteriormente quase três décadas na “companhia dos seus sonhos” e aos 44 anos, Marianela se sente mais atual do que nunca. Alguma coisa que pode ser percebido não unicamente no palco, mas também na força e na entrega que transmite em cada tentativa.
“Nunca imaginei que, com quase 30 anos de curso, me sentiria tão plena”, diz.
Em uma dança que exige domínio integral do corpo e na qual muitos bailarinos de sua idade começam a pensar na aposentadoria, ela trabalha todos os dias para prolongar sua curso.
“Estou disposta a fazer tudo o que for necessário para conseguir estender meu caminho na dança”, diz, com um sorriso e os olhos cheios de lágrimas.
A poucos dias de estrear em Londres “Marianela Timeless”, em que interpretará uma seleção peculiar de seu repertório, a bailarina falou com a BBC Mundo sobre os segredos de uma trajetória que parece desafiar a passagem do tempo.
A paixão porquê motor
Pregada na parede de seu camarim está uma foto dela ainda menino, vestida com um volumoso tutu azul-turquesa, sapatilhas de meia-ponta combinando e um enorme laço na cabeça.
A história de Marianela com a dança começou antes mesmo que ela pudesse imaginar.
Um dia, sua mãe, fascinada por aquele universo de saias de gaze e coques muito presos, a levou a uma pequena escola de balé localizada a poucos minutos da cidade de Buenos Aires.
Porquê tantas meninas de sua idade, Marianela começou a dançar ainda muito pequena. Mas o que parecia ser uma atividade para se divertir acabou se transformando em uma vocação e, mais tarde, em sua profissão.
“Não consigo explicar porquê, depois de tantos anos, mesmo quando estou cansada ou preocupada, eu me levanto, saio de mansão e me sinto invencível”, diz.
Marianela está convencida de que “a gente nasce com um pouco”. Mas também sabe que, para muitas pessoas, encontrar aquilo pelo qual são apaixonadas pode levar tempo ou até mesmo nunca intercorrer. No caso dela, agradece por ter desvelado isso ainda nos primeiros anos de vida.
“A vida me deu um pouco peculiar: um paixão muito grande pelo que faço. Acho isso um pouco incrível”, diz.
“A paixão é o meu motorzinho, é o meu oxigênio quotidiano, é o que me faz sentir viva”, acrescenta, enquanto se prepara para o segundo tentativa do dia.
A disciplina por trás do talento
Por trás de cada apresentação, existem incontáveis ensaios, preparação física e uma alimento cuidadosa: a disciplina que permitiu a ela chegar ao topo e se manter lá durante anos.
“Se a vida me deu uma vocação, tenho a responsabilidade de cuidar dela todos os dias”, comenta.
Durante a semana, Marianela começa todos os dias com uma lição de pilates antes de se destinar aos ensaios. É segmento de uma rotina organizada que permite proteger seu corpo ou, porquê ela labareda, sua “instrumento de trabalho”.
“Para cuidar do corpo, preciso estar atenta a cada pormenor. Não basta fazer minha lição de balé e ensaiar todos os dias. Também faço pilates, vou ao fisioterapeuta e escuto o meu corpo”, explica.
Na hora de subir ao palco, não há espaço para que um bailarino esteja preocupado com a técnica, porque, caso contrário, a magia não acontece, afirma.
“Por isso, o corpo precisa estar afinadíssimo antes de dançar; se não, você vai permanecer preocupado em não se machucar.”
Ela chegou à Inglaterra em 1998, aos 16 anos, para ingressar na companhia à qual dedicaria sua curso. Aos 20, tornou-se primeira-bailarina, um posto que mantém duas décadas depois.
A argentina agradece ao Royal Ballet por ser a bailarina que é hoje.
“Se tenho uma curso longa, é porque tive pessoas ao meu volta que me orientaram da melhor maneira provável. Sou cuidada por todos os ângulos: fisicamente, emocionalmente, psicologicamente. É fantástico”, diz.
O Royal Ballet é uma das companhias de dança clássica mais prestigiadas do mundo. Sua fundadora, Ninette de Valois, junto com o coreógrafo Frederick Ashton, desenvolveu o estilo inglês característico de balé que define a companhia.
“O estilo inglês (no balé) eu absorvi e continuo absorvendo. É um pouco que aparece no trabalho de pés, na musicalidade, nos ‘port de bras’ [movimentos de braços]”, descreve.
A sensibilidade na arte
Além da destreza física, o balé precisa de emoções. É o ponto de encontro entre a exigência de um desportista de cumeeira rendimento e a sensibilidade de um artista.
Por isso, para interpretar as histórias por trás das obras, “é preciso se permitir ser vulnerável e estar disposto a se transfixar emocionalmente”, explica a bailarina.
Longe da aparente impassibilidade que costuma ser associada ao rígido treinamento dos bailarinos, ela não hesita em provar suas emoções. Durante a entrevista, ri, faz brincadeiras, se emociona, reflete, escuta o que pergunto.
Porque, para ela, é importante que o físico e o emocional estejam em estabilidade e que, ao mesmo tempo, nenhum dos dois sobressaia ao outro.
Marianela é uma das bailarinas mais reconhecidas do mundo. Mas é principalmente na Argentina que seu vínculo com o público alcança uma dimensão peculiar.
Lá, ela se tornou uma referência para novas gerações de bailarinos e conseguiu aproximar o balé de pessoas que nunca antes haviam sentido que aquele universo também poderia pertencer a elas.
Por isso, ao término de suas apresentações, seus fãs fazem plantão com os celulares em mãos para cumprimentá-la e, com sorte, conseguir uma de suas sapatilhas de ponta —um pouco que a prelo argentina já batizou de “Nelamania”.
“É um público sempre positivo, muito humano. Sinto que o suporte que me dão é verdadeiro”, diz, com um sorriso.
Marianela volta sempre que pode para se apresentar no palco do Teatro Colón, a instituição de ensino gratuito onde começou sua curso.
Em dezembro, ela se apresentará no lugar para interpretar “O Quebra-Nozes”, um dos balés clássicos mais tradicionais do Natal, segundo informou a instituição.
‘Marianela eterna’
No balé, em que a passagem do tempo costuma ser uma rival implacável, ela sente que ainda tem muito a dançar. Por isso, não pensa em aposentadoria.
Prefere se concentrar em aproveitar o presente e a maturidade artística que sua experiência lhe proporciona.
“Ainda não sinto essa mudança em mim. Estou muito presente: o corpo está ali, a mente e toda a maturidade emocional”, ressalta.
Quando muitos poderiam pensar que ela já chegou ao auge, a argentina continua encontrando novos desafios.
No início de 2025, recebeu das mãos do rei Charles 3 a Ordem do Poderio Britânico por seu “serviço à dança”, enquanto ao fundo tocava o tango “Por una Cabeza”, de Carlos Gardel.
“Nunca imaginei que isso aconteceria, mas, de alguma forma, aconteceu!”, escreveu na estação em sua conta no Instagram sobre a cerimônia no Forte de Windsor, em que recebeu uma das maiores honrarias que um artista pode receber no Reino Uno.
Depois de várias décadas nos palcos, a argentina continua falando sobre o balé com a mesma paixão e gratidão dos seus primeiros anos.
Hoje, essa vocação a encontra em uma temporada de plenitude artística, marcada pela experiência, sustentada pela disciplina e pelo libido virgem de continuar dançando.
Diante da pergunta sobre o porvir, Marianela não hesita em responder: “Dançar, dançar e dançar”.





