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A experiência do espaço tem profundo eco metafísico 03/05/2026
Celebridades Cultura

A experiência do espaço tem profundo eco metafísico – 03/05/2026 – Luiz Felipe Pondé

O tino generalidade costuma crer que pessoas altamente treinadas em ciência necessariamente são ateias. Ledo ilusão. Aqueles que lidam com o universo de alguma forma na sua atividade cotidiana e científica sustentam uma ração significativa de experiência místico e, talvez mesmo, mística, diferentemente de muitos profissionais das ciências humanas, biológicas e da filosofia, que costumam fomentar um ateísmo muito mais simples e praticam o proselitismo ímpio claramente, uma vez que uma forma de virtude intelectual.

Independentemente da crença de cada um, suspeito que tomar o ateísmo uma vez que virtude intelectual é um equívoco filosófico recorrente.

Entre esses profissionais praticantes das ciências que lidam com o espaço fora da Terreno, os astronautas são um exemplo principalmente significante, pela simples razão de que sua relação com o espaço é, digamos assim, prática: eles frequentam o espaço.

Recentemente, o piloto da nave Artemis 2, Victor J. Glover, ao orbitar a Lua, fez uma reza se referindo ao paixão de Cristo. Por fim, por que um astronauta, formado na mais fina ciência de frequentar o espaço, seria religioso e faria alguma forma de reza ao velejar pelo espaço? Meu foco cá é o que se labareda, em estudos da religião, de dimensão estética ou “geográfica” das manifestações espirituais ou místicas —não as tomo uma vez que sinônimos, mas não farei essa passeata cá.

Mas, antes, vejamos outras manifestações espirituais de astronautas quando longe da Terreno, vendo-a diante da imensa trevas, vastidão e silêncio que caracteriza o espaço. Uma vez que foi dito certa feita pelo astrônomo Carl Sagan, a partir da foto tirada da Terreno pela sonda Voyager 1 em 1990, a bilhões de quilômetros, nosso planeta é “a pale blue dot” —um pálido ponto azul. Essa certeza implica uma enorme humildade cósmica, elemento comumente associado a experiências espirituais.

No dia 24 de dezembro de 1968, na nave Apollo 8, que foi a primeira a orbitar a Lua, sua tripulação, constituída pelos astronautas Frank Borman, James Lovell — que ficou famoso quando interpretado por Tom Hanks no filme “Apollo 13” e pelo seu “Houston, we have a problem”, em 1970 —e William Anders, leu os primeiros versos do livro do Gênesis ao orbitar o satélite e fez uma mensagem de Natal. Foram ouvidos por milhões de pessoas na Terreno e “bombou”, uma vez que se costuma expor hoje.

Já na Apollo 11, a primeira a pousar na Lua, em 20 de julho de 1969, o astronauta Buzz Aldrin, o segundo varão a pisar no satélite —o primeiro foi Neil Armstrong, que desde logo viveu uma vida um tanto reclusa uma vez que professor em Cincinnati, Ohio, e recusou toda a renome que lhe era devida— levou um pão e um vinho, para festejar a congregação, e leu trechos do Evangelho de João.

A Apollo 15 também pousou na Lua, em 1973. Posteriormente o retorno, o astronauta James Irwin, que caminhou no planeta, afirmou algumas vezes que havia sentido mais a presença de Deus do que do espaço. Tornou-se profundamente religioso, desde logo.

Evidente que estamos falando de americanos que cresceram num envolvente cristão, e o contexto é sempre determinante nesses casos —os soviéticos zero falaram de Deus. Mas o espaço, a Lua, a solidão da Terreno e da humanidade nesta vastidão indiferente a nós que é o espaço, compõem o que em estética da religião —estética cá se refere a sensação, uma vez que no heleno, zero tendo a ver com a arte— se labareda de experiência de descentramento do eu e do mundo, revelando nossa pequenez e insignificância diante do todo. No caso, o espaço.

Estamos diante de um caso dramático do sublime kantiano, que transcende nossas capacidades cognitivas, epistêmicas e, ao mesmo tempo, eleva a psique, geralmente produzindo em quem o experimenta poderoso sensação de humildade cósmica e venustidade, elemento principal de qualquer narrativa místico que se preze.

Mesmo o estoicismo, em figuras uma vez que o imperador romano Marco Aurélio, via, no indumentária de sermos um “pedaço insignificante” de uma natureza que nos ultrapassa e nos determina, um elemento que o profissional em filosofia antiga Pierre Hadot considerou uma experiência passível de ser um treino místico transformador da vida —nos termos do próprio Hadot.

A experiência do espaço tem profundo repercussão metafísico, justamente devido à sua imensidão misteriosa e silenciosa. Ao mesmo tempo, nossa fragilidade principal diante dele nos encanta, assim uma vez que nossa solidão nele, e, quando digo “nossa solidão”, refiro-me à solidão da Terreno.

Só nessa requisito podemos, talvez, reviver o mistério que nossos ancestrais viveram no despertar das suas consciências.


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Folha

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