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Exposição de desenhos revela lado íntimo de Iberê Camargo
Celebridades Cultura

Exposição de desenhos revela lado íntimo de Iberê Camargo – 04/05/2026 – Ilustrada

A caricatura do ex-presidente José Sarney com o bigode farto e críticas ao Projecto Cruzado, os vários ângulos de um gato feito a lápis, o croqui de uma protótipo vestindo um elegante traje azul com chapéu combinando e uma série de desenhos eróticos explícitos, por vezes escrachados e com traços humanos desproporcionais.

Nenhum tema dessas ilustrações supra é comumente associado à obra de Iberê Camargo, mas eles aparecem em meio a 1.901 desenhos e rabiscos feitos pelo artista plástico gaúcho ao longo de quase sete décadas.

A exposição “Iberê Camargo: Quem Sabe, o Tempo…”, inaugurada no mês pretérito em Porto Feliz, na instalação que leva o nome do pintor, reúne ilustrações feitas desde sua juvenilidade —as mais antigas são de 1927 e 1928— até o termo da vida, e procura mostrar um outro lado de Iberê e do seu processo artístico.

“É um trabalho que lida com a intimidade do artista, com os modos de pensar do artista, as anotações, às vezes distraídas, de um rabisco num papel”, diz Carmela Gross, artista plástica e curadora da exposição.

Ela afirma que os desenhos ajudam a expor o lugar-comum e a “obra não fenomenal” de Iberê. “O ilustração carrega todo esse universo anterior à peroração de uma obra, com várias etapas, com desenvolvimento e com a grande eloquência da pintura. Eu queria uma voz mais baixa.”

Em vez de telas, há papéis de diferentes tamanhos e gramaturas, páginas de jornais, guardanapos e até um envelope pardo que continha exames de Iberê.

Com traços de caneta esferográfica, ele transformou o prédio do Hospital de Clínicas de Porto Feliz no corpo de um bicho quadrúpede que leva um varão gigante e enfaixado nas costas.

O teor é ainda mais variado. Traços humanoides em diferentes estilos e níveis de detalhamento, animais, carros, desenhos de humor e propagandas fictícias. A maior segmento parece fluxo de consciência, feita por um artista inquieto com um papel e uma caneta, lápis de cor, grafite ou carvão à mão.

Entre os últimos registros de Iberê, feita poucos meses antes de sua morte, há uma sátira ao projecto do portanto candidato à Presidência Fernando Henrique Cardoso.

Esse é um dos vários desenhos com tom sexualmente explícito ou escatológico na exposição, que tem mulheres nuas e atos sexuais ou referências à penetração anal uma vez que metáfora cômica. Há, por exemplo, duas versões de uma mesma piada —um toureiro tentando evadir da mira do chifre de um rinoceronte e um varão nu soltando gases dentro de um botijão, com a legenda “economia de guerra”.

Tudo organizado em 93 mosaicos, que ficarão expostos no último caminhar do museu até março de 2027.

Gross diz que não há uma narrativa visual entre os mosaicos, e as combinações não formam um exposição, mas sim fragmentos —uma janela para a mente do artista, alguma coisa que não foi feito para o público ver. “É um processo quase de embaralhamento da obra”, afirma.

Esse processo dialoga com o que mais se aproximou de um setentrião para Gross na curadoria, o história “O Relógio”, escrito por Iberê em 1959 e publicado em 1988, impresso na parede do museu uma vez que leitura complementar.

A história narra a procura obsessiva de um varão que deixa tombar um relógio incrustado de rubis, sua última presente da avó falecida, em uma latrina.

Ele passa dias revirando a sujeira com diferentes objetos e, depois, semanas espalhando-a no recinto de morada para dissecá-la milimetricamente, sob chuva possante e sol a pino, à procura de fragmentos do objeto para reconstruí-lo, em uma procura frenética sob a zombaria dos vizinhos.

“É uma procura insana de alguma coisa que ele sabe que está ali, mas que não é dada à primeira vista. Portanto, ele fica chafurdando na limo, no excremento, separando coisas na procura de encontrar alguma coisa que ele tem na cabeça, mas que ele acaba não encontrando”, diz Gross.

A curadora e sua assistente Carolina Caliento analisaram aproximadamente 4.000 ilustrações armazenadas nos arquivos virtuais da Instalação Iberê Camargo para inventar os mosaicos.

Gross diz que se interessou, enquanto artista, pela dimensão menos formal do trabalho de Iberê. O público, que encontra nos outros andares pinturas mais famosas e facilmente associáveis ao pintor, pode agora observar uma espécie de lanço preparatória.

Apesar da intenção de fazer uma seleção quase aleatória e não incluir deliberadamente temas que o artista desenvolveria mais tarde, alguns desenhos já antecipam motivos recorrentes em sua obra, uma vez que as bicicletas. Um deles mostra um varão e uma mulher nus segurando uma bicicleta; logo ao lado, há o ilustração de uma mulher curvada empurrando o veículo.

“O ilustração funciona uma vez que um setentrião para depois desenvolver outra coisa. Mas ele, em si mesmo, é só uma pergunta”, diz a curadora.

Folha

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