‘A Fúria’ enfrenta o bolsonarismo com visão do cinema novo – 29/04/2026 – Ilustrada
“A Fúria” começa por ser um simpático mergulho no pretérito. Ou em dois passados, mais precisamente —o do cinema novo, que ressurge cá pelas mãos de Ruy Guerra, e o do Brasil que o próprio cineasta trouxe à tona em dois filmes anteriores, centrados no personagem Mário.
Agora, “A Fúria”, dirigido com Luciana Mazzotti, fecha a trilogia ocasião com “Os Fuzis”, de 1964, em que Mário —vivido por Nelson Xavier— era um soldado enviado para o sertão nordestino com sua tropa para reprimir saques de camponeses famintos.
No segundo capítulo da trilogia, “A Queda”, de 1978, Mário, ainda vivido por Xavier, era um operário sob as asas de Salatiel, papel de Lima Duarte, um empresário arrivista que enriquece com tramoias no período do milagre econômico da ditadura.
No novo capítulo, Mário já é um varão morto. Mas ele ressurge, dessa vez sob a pele de Ricardo Blat —já que Xavier morreu em 2017—, na forma de um espírito invocado por entidades indígenas, para se entender com alguns personagens do pretérito que continuam ativos no presente.
Porquê se vê, estamos num cinema de outro tempo. E a pergunta se impõe: teria ele lugar nos dias de hoje? Um cinema de alegorias, alusões, não ditos —que fez história no tempo da ditadura— e que se mistura, de repente, a discursos inflamados e mesmo canções revolucionárias.
Sim, há qualquer coisa de caquético nesses personagens. E, no entanto, se nos detivermos diante deles, veremos, por exemplo, que o velho Salatiel continua a tramar porquê sempre. Desta vez, conta com a cumplicidade de Feijó —Daniel Fruto—, deputado ex-comunista, hoje devotado a bloquear uma CPI das terras indígenas para que Salatiel possa invadi-las devidamente.
Estamos em um cinema teatral, fechado nos personagens, com cenários exclusivamente simbólicos para personagens idem. Mas, porquê sempre no cinemanovismo, os símbolos oscilam entre o evidente e o opaco. Um personagem pode encarnar toda uma categoria —a exemplo do general, que é ao mesmo tempo estrategista, tipo Golbery, e torturador.
Esse mundo com um tom ora irrealista, ora estridentemente realista, com cenas de um presidente ficcional que lembra as aparições de Jair Bolsonaro em suas motociatas, cingido por seres sinistramente sorridentes, nos lembram que estamos num tempo mais longo —o das negociatas escusas que sempre aconteceram— e num mais breve —o do bolsonarismo, com a degradação final do mundo político, com a invasão das terras indígenas etc.
Isso tudo é levado num tom teatral, que pode por vezes simular a grandeza shakespeareana para simbolizar uma farsa democrática. Cá, há ainda uma força de vingança, sintetizada em vários personagens —o Mário ressuscitado; vítimas de antigas torturas; uma pessoa trans, armada e em luta pelos seus direitos; uma deputada, vivida por Grace Passô, que se opõe à pretensão de Feijó de continuar presidente da Câmara dos Deputados e, porquê diz, tem que se envolver com gente da pior categoria.
Porquê se vê, “A Fúria” não é mais o cinema que faz a geração atual de realizadores brasileiros. Mas é difícil ver nisso um defeito. Ruy Guerra permanece leal ao cinema de seu tempo e tenta observar porquê leste tempo, de evidente modo, também permanece. Zero pior do que homens de 90 anos —e Ruy hoje tem quase 95— tentando simular o que não são.
Talvez o problema a notar neste filme tão capaz de desafiar o tempo presente seja, justamente, sua cobiça de simbolizar a política atual. O repto é enorme e arrasador. A política suja que “A Fúria” mostra lembra aquela dos anos 1970, 1980, ou, vá lá, 1990. A política era safada, mas tinha sua honra e mesmo sua grandeza.
Os últimos anos mudaram um pouco isso. “A Fúria” até corre detrás da motociata, de um sacerdote etc. Mas esse quadro que representa a política com alguma grandeza tem um pouco de incomodamente atual: ali, a tragédia foi substituída pela farsa grotesca, que a encenação teatral pena para simbolizar.
Talvez fosse necessário invadir o território do circense para captar a falta de grandeza de uma República a caminho da demolição pelo lumpesinato enriquecido e empoderado.
Esse tropeço não afeta o filme de Ruy Guerra. O que está aí é obra de um rabino, e assim tem que ser visto, ainda que por poucos espectadores.
“A Fúria” desenvolve um profundo sentido de envolvente, pela luz, pelos cenários, pela direção, traz interpretações notáveis —Lima Duarte e Daniel Fruto primeiro—, para não falar de um rápido flash com a insubstituível Isabel Ribeiro —a partir de um trecho de “A Queda”—, e sabe olhar os descaminhos da República conferindo-lhe uma honra, mesmo na miséria, que, francamente, suscita a pergunta: será que, porquê Mário, esse mundo um dia ressuscitará?





